"Sobre a questão da Guerra Popular nos países capitalistas industriais"


Os proletários revolucionários declarados me perguntaram muitas vezes se a Guerra Popular Prolongada realizada pelo Mao na China pode ser travada com sucesso nos países capitalistas, onde o proletariado industrial tornou-se a classe majoritária e o campesinato tornou-se a classe minoritária. Tentarei responder à questão de maneira teórica e hipotética, com base na história e nas condições sociais e dentro dos limites constitucionais e legais existentes nos países capitalistas industriais. No processo, eu lidarei com a noção de alguns povos de que a teoria de Mao da guerra popular prolongada é universalmente válida e aplicável. Guerra Popular Prolongada na China e nas Filipinas O próprio Mao explicou, em seu próprio tempo, que a guerra popular prolongada não é somente possível, mas necessária para o partido revolucionário do proletariado realizar uma revolução democrática popular bem sucedida em um país semicolonial e semifeudal em crise crônica. Pela aplicação da linha estratégica de cercar as cidades pelo campo, os revolucionários proletários podem levar o exército popular a crescer de pequeno e fraco à grande e forte em etapas, aproveitando o campo como uma ampla área estratégica e obtendo o apoio das massas camponesas como a força principal da revolução. O Partido Comunista da China poderia com sucesso usar o campo por um período de tempo prolongado, a fim de acumular força armada e política suficiente para, finalmente, tomar as cidades e, assim, vencer a luta do povo pela democracia e pelo socialismo. Eu adoto a teoria de Mao e a prática da guerra popular prolongada em meus textos sobre as condições específicas das Filipinas para revolução armada. E eu levei em conta o caráter arquipelágico e montanhoso das Filipinas entre outras considerações. A revolução armada conduzida pelo Partido Comunista das Filipinas (PCF) foi capaz de preservar-se e ganhar força por mais de 50 anos através da realização da linha estratégica da guerra popular prolongada, apesar de todos os planos estratégicos dos EUA e dos regimes fantoches de esmaga-la e das mudanças drásticas no mundo, como a completa restauração do capitalismo na China e da queda da União Soviética desde 1991. Nos países capitalistas industriais, os revolucionários proletários não podem iniciar a guerra revolucionária com um exército popular pequeno e fraco no campo, e esperar usar o amplo espaço e tempo indefinido nele para sustentar a guerra. Assim que o exército ousar lançar a primeira ofensiva tática, ela será esmagada pelo enorme exército armado e pelo sistema altamente unificado de economia, comunicação e transporte da burguesia monopolista. Contudo, o termo “guerra popular” pode ser flexivelmente usado para significar a necessária revolução armada do povo para derrubar o estado burguês em um país capitalista industrial. Mas definitivamente, o que deveria ser prolongada é a preparação para a revolução armada com a participação esmagadora do povo. Como Lenin apontou, a revolução não pode triunfar a menos que o sistema capitalista tenha sido tão gravemente atingido pela crise que a classe dominante não possa mais governar do velho modo, o povo esteja desejoso de uma mudança revolucionária e o partido revolucionário do proletariado seja forte o suficiente para liderar a revolução. É inútil inflamar a revolução armada na cidade ou no campo sem a devida consideração às condições objetivas e fatores subjetivos da revolução. Uma insurreição armada urbana contra o estado capitalista pode ser bem sucedida somente como resultado de uma grave debilitação pela sua crise interna, a crise do sistema capitalista mundial, o envolvimento em uma guerra intercapitalista ou Inter imperialista e o nascimento de um movimento de massa revolucionário com força armada suficiente. Exemplos Históricos da Revolução Proletária Armada A Comuna de Paris de 1871 mostrou que os revolucionários proletários poderiam travar uma insurreição urbana com sucesso quando a França estava preocupada com a guerra Franco-Prussiana e os próprios guardas armados levaram a cabo a insurreição, com o esmagador apoio das massas proletárias. Na Rússia imperialista, os bolcheviques tiveram a visão de semear quadros como sementes revolucionárias dentro do exército Czarista. Quando as tropas das massas ficaram descontentes como o povo no curso da Segunda Guerra Mundial, elas se levantaram para derrubar o Czar e, então, o governo burguês de Kerensky. Posteriormente, eles travaram uma guerra bem sucedida contra os reacionários e os intervencionistas estrangeiros no campo do vasto Império Russo. Mesmo antes de serem favorecidos pela burguesia monopolista a governar a Alemanha e usar, diretamente, o terrorismo de estado para suprimir o proletariado e seu partido revolucionário, os fascistas alemães formaram seus grupos armados ou organizações paramilitares e colaboraram com o exército e a polícia do estado capitalista para destruir as greves dos operários e os protestos populares. Durante a crise severa da República Weimar, os comunistas e social-democratas alemães também tiveram seus próprios grupos armados, mas foram sobrepujados pelos fascistas no ponto crucial. Mas as lições permaneceram válidas, que os revolucionários proletários e o povo devem sempre se esforçar para se destacar e ter sucesso tanto nas preparações quanto na conduta real da revolução armada. Durante a Segunda Guerra Mundial, os guerrilheiros podiam surgir em vários países europeus, assim como na França, Itália e em outros lugares, para travar uma guerra de guerrilha contra os fascistas. Onde o fascismo ascendeu ao poder pela primeira vez em 1922, os comunistas e o povo se envolveram em guerrilhas em áreas urbanas e rurais até que pudessem enforcar o ditador fascista e chegar à beira de tomar o poder do Estado. Com base nos fatos históricos acima mencionados, é sempre sensato que o proletariado e as massas revolucionários organizados assumam e antecipem que o sistema capitalista está sujeito a crises e que a burguesia monopolista recorre ao fascismo para impedir a revolução proletária. Mesmo que o fundamento material do socialismo exista no capitalismo, o proletariado deve primeiro derrotar o fascismo, vencendo assim a batalha pela democracia, antes que o socialismo possa triunfar. É lógico e necessário que os revolucionários proletários se fortaleçam, sejam conscientemente disciplinados e conduzam treinamento político-militar em preparação para futuros conflitos armados. Presumo que a capacidade armada dos revolucionários proletários esteja, em primeiro lugar, vinculada a princípios e regras ideológicas, políticas e organizacionais. Como os bolcheviques fizeram, os revolucionários proletários também podem mobilizar quadros para o trabalho revolucionário no exército reacionário, especialmente porque a maioria dos soldados é oriunda da classe trabalhadora. Um estado capitalista pode, no futuro, tornar-se tão debilitado pela crise e pela guerra que seus serviços armados reacionários tendem a se desintegrar, como o exército czarista na Primeira Guerra Mundial. Quanto a obtenção e manutenção de armas secretas por décadas e ao lançamento de ofensivas de formação limitada nas condições mais limitadas e difíceis, as organizações armadas revolucionárias na Irlanda e na Palestina fornecem bons exemplos de disciplina consciente, habilidade, desenvoltura e durabilidade devido ao apoio maciço da massa de toda as comunidades que se opõem a uma força de ocupação. No entanto, eles estão em situações e processos de desenvolvimento que não são típicos nos países capitalistas de hoje. Considerações para Armar o Proletariado Pelos atuais padrões constitucionais e legais dos países capitalistas industriais que fingem ser liberal-democráticos, qualquer indivíduo pode legalmente adquirir armas de fogo para fins de esporte e autodefesa contra criminosos, bem como contra o potencial do Estado de tornar-se tirânico e opressivo. Nos Estados Unidos da América não menos, os fabricantes de armas invocam o direito constitucional dos cidadãos de portar armas a fim de manter amplo o mercado interno para a venda de armas, apesar do clamor liberal burguês por leis de licenciamento de armas mais rigorosas, desarmando os supremacistas brancos e os jihadistas radicais e mantendo as armas fora do alcance das crianças que são, primeiramente, fortemente influenciadas pela cultura do imperialismo e da violência sem sentido dos EUA. Em um bom número de países capitalistas industriais, os cidadãos têm direito de manter as armas de fogo que adquiriram em treinamento militar sob os auspícios do estado burguês. E eles não têm problemas como alguns loucos americanos e algumas crianças usando armas de fogo do arsenal doméstico para atirar e matar pessoas inocentes em escolas e outros locais públicos. É, portanto, possível organizar os proletários com armas de fogo como os clubes esportivos de tiro, como organizações comunitárias de autodefesa e como segurança voluntária para eventos e estruturas públicas. Mas, é claro, não é sensato fazer exibições de grupos armados do povo e, ao mesmo tempo, provocativamente declarar-se em oposição ao estado, exército e polícia capitalistas. Tal imprudência imediatamente levaria a medidas estatais de repressão violenta, como no caso histórico dos Panteras Negras. Em sociedades capitalistas, é o fascismo e outros grupos reacionários armados que são privilegiados para se orgulharem publicamente de suas armas e seus treinamentos e exercícios militares. Também é insensato trazes armas para protestos de massa que são, supostamente, legais e pacíficos, e onde a maioria do povo está desarmado e longe de estarem prontos para lançarem uma insurreição armada. É sensato para o partido revolucionário do proletariado não declarar publicamente a intenção de construir um exército popular antes que as condições estejam maduras para a revolução armada. Quaisquer que sejam as leis de licenciamento de armas e independentemente do quão rigorosas elas sejam, há também entre o povo aqueles que tem as habilidades, materiais e equipamentos para fazerem armas de fogo discretamente em suas garagens privadas e galpões de trabalho. Em um esforço a longo prazo de preparar para a guerra popular contra os fascistas e o estado capitalista, o povo pode adquirir ou produzir armas de fogo. Enquanto ainda não há condições para lutar e usar as armas em um país capitalista em particular, os revolucionários proletários devem continuar despertando, organizando e mobilizando as massas de maneira legal e persuasiva, com a confiança de que eles têm os meios de autodefesa para revidar com certo sucesso contra os fascistas e o Estado capitalista quando surge a necessidade. Muito mais importante que adquirir ou produzir as armas de fogo é realizar as tarefas ideológicas, políticas e organizacionais de tornar o proletariado e seu partido verdadeiramente revolucionários. Mas, é claro, é mais importante ter armas de fogo antes dos fascistas chegarem ao poder do que não ter nenhuma quando eles já estiverem no processo de tomada do poder. Para frisar um ponto, com o propósito mesmo de enfatizar, mesmo nos EUA, o povo tem o direito constitucional de ter armas de fogo para impedir o Estado de monopolizá-las e, assim, permite aos cidadãos terem armas para se oporem e derrubarem um governo tirano e opressivo quanto ele ascende. E há muitas razões particulares legais para os cidadãos portarem armas. Agravamento das Condições Globais e Internacionalismo Proletário Em consequência da completa restauração do capitalismo e do colapso da União Soviética, o imperialismo dos EUA desfruta do status de única superpotência em um mundo unipolar e continua a realizar de forma imprudente e agressiva sua política econômica neoliberal e sua política militar neoconservadora, inconscientemente minando sua própria força e acelerando seu declínio estratégico. Agora, sob Trump, os EUA estão agindo como protecionistas e se postam mais belicosos do que nunca. O declínio estratégico dos EUA tornou-se óbvio em termos econômicos e financeiros desde a crise de 2008, apesar deles terem se tornado mais belicosos. A ascensão da China e da Rússia como novas potências imperialistas agravaram a crise do sistema mundial capitalista e intensificaram as contradições Inter imperialistas em um mundo conspicuamente multipolar. As potências imperialistas tentam sempre transferir o ônus da crise para o proletariado e para os povos do mundo, que consequentemente sofrem a escalada da opressão e da exploração e que, em última análise, são levados a resistir. Os imperialistas, um dia, forçarão a questão da revolução armada aos revolucionários e massas proletários em alguns dos países capitalistas. Neste momento, os Estados imperialistas estão se tornando mais repressivos e também estão gerando movimentos fascistas. Embora os revolucionários proletários ainda não sejam imediatamente confrontados com a necessidade de travar uma revolução armada em qualquer país capitalista, eles também podem considerar, no espírito do internacionalismo proletário e da solidariedade anti-imperialista, compartilhar suas ideias, experiências e capacidades revolucionárias, incluindo armas e suas habilidades em produzi-las, com o proletariado e o povo que estão se preparando para a revolução armada ou já estão engajadas nos países subdesenvolvidos. A disseminação e desenvolvimento da guerra popular nos países subdesenvolvidos ou nos campos do mundo podem ser úteis para o surgimento da revolução armada nos países capitalistas. Atualmente, as potências imperialistas lideradas pelos EUA estão realizando intervenções militares e guerras de agressão em larga escala nos países subdesenvolvidos. Assim, todos os atos concretos de internacionalismo proletário e solidariedade anti-imperialista são urgentemente necessários. 5 de junho de 2019 Escrito por Jose Maria Sison

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