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"Um novo olhar sobre a China de Mao"


Jan Myrdal e sua esposa retornam da China com relatório sobre as mudanças causadas pela Revolução Cultural.

Liu Ling é uma vila enterrada entre as colinas ao norte da Província Shensi. É pequena - 37 famílias moram ali. É a sede da Brigada Liu Ling da Comuna Popular de Liu Ling. A brigada consiste em 161 famílias. Economicamente, a região norte de Shensi é uma parte pobre e atrasada da China. Politicamente, foi o centro revolucionário durante a década de 1930 e na guerra contra o Japão. Yenan, onde a Revolução Chinesa foi nutrida, é próxima de Liu Ling, e o espírito de Yenan de trabalho duro e vida simples é um modelo para toda a China agora, após a Revolução Cultural. Mas a própria Liu Ling não é um modelo. Liu Ling não é uma das melhores brigadas na área de Yenan. Nem é uma das piores. É considerada ligeiramente acima da média. Até a menor vila, a China está claramente em um período de rápido desenvolvimento econômico baseado na autossuficiência e recursos internos. A China não aceita qualquer auxílio estrangeiro. Os empréstimos para desenvolvimento da União Soviética foram pagos. A China pagou até mesmo por todos os materiais de guerra que a União Soviética entregou aos Chineses durante a Guerra da Coréia. Minha esposa Gun e eu estivemos na China de Abril de 1962 até Janeiro de 1963, e acabamos de retornar após outra visita. Ficamos por mais de seis semanas desta vez. Já que visitamos cidades grandes e indústrias, universidades e instituições científicas, talvez aparentasse normal se nós descrevêssemos - por exemplo - a nova estação de rastreamento de satélites fora de Nanquim, onde jovens cientistas Chineses analisam os movimentos dos satélites Estadunidenses e Soviéticos sobre a China. Isto é importante. Mas dada a história da China, mais a laboridade industrial e as conquistas científicas dos Chineses, não tenho dúvidas de que as palavras frequentemente citadas de Mao Tsé-Tung - que a China irá conquistar tudo o que os países estrangeiros conquistaram e que a China com certeza irá conquistar coisas que os países estrangeiros ainda não conquistaram - são corretas. Afinal, os Chineses compõem um quarto da humanidade. Porém, o que é decissivo para o desenvolvimento da China é o que está ocorrendo no grande interior. Como moramos na vila Liu Ling em 1962, pedimos permissão para retornar após sete anos, Nós ficamos por duas semanas - 13 dias para ser exato - em Liu Ling. Não tem nada de muito espetacular sobre o que está acontecendo nas vilas, tais como os fatos que estavam sendo relatados nas grandes cidades durante a Revolução Cultural; mas a revolução está arando muito fundo. Os desenvolvimentos no campo, a revolução entre as centenas de milhões de camponeses Chineses, são de suma importância não apenas para a China, e nem apenas para a Ásia, mas para o mundo.

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Foto 2: A Família Liu: A filha mais velha ensina sua mãe a ler Mao.

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Os pais (Foto 3) levantam a armação de uma janela para sua nova casa, enquanto sua filha (Foto 4) cuida de seu irmão bebê.

A família Liu em Liu Ling Pai: Liu Chen-Yung, 37 Mãe: Li Yang-ching, 36 Crianças: Liu Lan-shuan, garota, 16, sétima classe Liu Lan-fang, garota, 11, quarta classe Liu Lu-wa, garoto, 9, segunda classe Liu Shao-lu, garoto, 7 - ainda não está na escola. Liu Lian-hong, garoto, 2 - também na pré-escola. Liu Chen-yung e Li Yang-ching ainda não mudaram muito durante esses sete anos. Ele ainda é um homem quieto e pensativo. Ela é falante e brincalhona. Eles tem cinco crianças agora. Os quatro filhos mais velhos tomam conta dos mais novos. O lar é bem cuidado. Ambos os pais trabalham duro. Eles não tem postos oficiais (Ele foi um membro do Partido desde 1955, mas nunca teve nenhuma função governamental ou dentro do partido). Eles são respeitados pelo povo e são considerados uma família feliz. Eles são ordinários. Ordinários como Petterson em Estocolmo ou Smith em Des Moines. Eu não quero insinuar nada depreciativo por "ordinário": é, afinal, apenas pessoas ordinárias como Petterson, Smith e Liu que fizeram toda a história humana. Quando eles movem, o mundo muda. Ele é um pastor agora. Ele toma conta das ovelhas e dos bodes da brigada. Ele foi eleito para este trabalho em 1966. Em uma reunião, eles discutiram sobre as direntes funções. Pessoas disseram que ele tinha jeito com animais, que ele era um trabalhador cuidadoso, que nunca tinha feito nada de maneira precipitada. Assim, ele foi eleito. Ele leva seu rebanho para as montanhas cedo de manhã e retorna quando o sol se põe. Em casa, é ele quem busca água da nova fonte, que corta lenha, que varre o quintal. Nas tardes, ele tricota. Os homens tricotam nesta região. Ela toma conta do lar e trabalha na brigada, trabalha 220 dias por ano. Quando ela está no trabalho e as crianças mais velhas estão na escola, o garoto de dezessete anos cuida de seu pequeno irmão. Agora, pelo fato do garoto de dezessete está para iniciar seus estudos, os vizinhos tomarão conta do pequeno irmão. "Não há problema nisso. As pessoas se ajudam". Eles tem discutido sobre e decidiram que cinco filhos é o suficiente, agora, eles usam métodos contraceptivos. No último ano, a família começou a construir duas cavernas de pedra. Eles tem esperado um ano para elas secarem. A moradia irá custar 600 yuan (1 yuan equivale a aproximadamente 42 centavos de dólar), que pode ser um preço alto, porém, tudo está incluso - instalações elétricas, carpintaria - tudo. Dezesseis das 37 famílias da vila (59 das 161 famílias da brigada) construíram novas cavernas de pedra. Duas cavernas para uma família ("Caverna" é um nome impreciso. As "cavernas" do Norte de Shensi não são realmente cavernas, são casas de pedra muito bem construídas). A velha porém não tão velha caverna, construída em 1961, será mantida e usada como uma despensa. A família tem economizado para poder construir a caverna, e também, eles tem vendido porcos para o estado. Por ano, eles compram dois porcos da brigada por 4 yuan. Eles abateram um no final do ano e o comeram, e venderam o outro para o estado por 50 a 60 yuan. "Sim," diz Liu Chen-yung, "isso é um desenvolvimento importante durante a Revolução Cultural. Nós temos construído muito. E não é apenas o povo que têm recebido novas casas; os animais, também, ganharam casas de pedra reais. Ainda há muito mais construção capital". Eles tem participado em grandes discussões durante a Revolução Cultural. Li Yang-ching criticou Feng Chang-yeh, o antigo presidente da brigada e secretário do partido: os cadres políticos tem ficado apenas sentados em escritórios, evitando trabalho manual. Eles começaram a tomar decisões por eles mesmos, dão ordens. Os cadres não estudaram Presidente Mao. Mas, após a crítica, eles ficaram melhores, e portanto Feng Chang-yeh pode depois ser eleito presidente do novo Comitê Revolucionário. Como membro do partido, Liu Chen-yung tomou parte na organização de muitas reuniões durante estes anos. "No começo da Revolução Cultural, a filial do partido não fez nenhuma reunião fechada. As massas tinham de ser mobilizadas. Elas devem ser ajudadas para começar uma discussão crítica real. Assim, as massas se educam". Nem ele ou ela podiam ler sete anos atrás. Agora, a filha deles, Liu Lan-shuan, os ensinou a ler no pequeno tesouro vermelho, Citações do Presidente Mao Tsé-Tung. Na primavera de 1967, a filha voltou da escola e disse que todos deveriam estudar e que ela mesma ensinaria os pais a ler. Isso foi feito por toda a vila. Em quase todas as famílias, os estudantes tomaram parte no movimento para ensinar os mais velhos a ler. Duas vezes por semana, toda a família agora estuda as palávras do Presidente Mao. A filha ensina o que ela aprendeu na escola e explica os caracteres um por um e ensina seus pais a ler. Então, todos discutem juntos a citação e como ela pode ser aplicada. Nós devemos aplicar o que aprendemos", diz Liu Lan-shuan. "Se nós não aplicarmos os ensinamentos do Presidente Mao de forma concreta, não aprendemos nada". Em 1962, Liu Chen-yung ajudou sua esposa na casa. Eles eram um casal jovem, e isso sempre foi considerado bom e progressivo. Agora, ele fica em casa e toma conta das crianças á tarde quando ela participa da reunião da brigada. Durante a Revolução Cultural, as mulheres tinham exigido que fosse dada á elas a oportunidade delas irem ás reuniões. Em teoria, eles eram iguais, mas na prática, os homens deixavam para elas todos os cuidados dos filhos e iam sozinhos para as reuniões. Houve algumas discussões sobre essa demanda. Muitas pessoas disseram que homens não serviam para cuidar de crianças: "Eles não podem amamentá-los", diziam. Mas, durante a primavera de 1967, as mulheres conseguiram que a brigada tomasse uma decisão que deram ás mulheres o mesmo direito dos homens de ir ás reuniões e que os homens tivessem o dever de ficar em casa e tomar conta das crianças enquanto as mulheres atendem a reunião.

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Foto 5: As crianças da vila se reunem no pátio sob a luz de uma única lâmpada de 25-watts para assistir o grupo de propaganda de Mao (acima), composto por professores e estudantes, que cantam e dançam em frente a um poster do jovem Mao (foto 6).

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Foto 7: Mulheres do "grupo dos vegetais" colhem repolhos. A produção aumentou, líderes afirmam, como um resultado dos ensinamentos de Mao sobre auto-suficiência e o uso de mais adubo.

"É bom para os homens aprenderem a tomar conta das crianças", ela diz, "e é bom para as crianças também. Antes, era quase apenas homens que frequentavam e falavam nas reuniões, enquanto as mulheres frequentemente tinham de ficar em casa e cuidar dos filhos. Agora, as mulheres também discutem e decidem, porque os homens aprenderam como cuidar dos filhos". Viver ficou melhor Nós chegamos em Liu Ling cedo de manhã quando a geada da noite ainda se encontrava nas sombras. A vila mudou após estes sete anos. Tinha uma aparência diferente. A vila Liu Ling estava sendo reconstruída de uma forma planejada. O plano foi discutido e decidido por toda a brigada. Durante os próximos cinco a dez anos, todas as famílias na brigada se mudarão para novas cavernas de pedra, que se espera que fiquem em pé por 500 anos sem grandes reparos. O grande auto-falante do lado de fora das sedes da brigada foram movidos para as escolas. A maioria das famílias agora tem radios individuais, incluindo pequenos conjuntos de transistores. O número de bicicletas e carrinhos de duas rodas nos lares aumentou (como também aumentou o número de cães, agora há dez grandes e amigáveis cães pastores na vila. Eles não são cães que trabalham; eles são de estimação. Mas eles não são vira-latas de rua, entretanto). O padrão de vida aumentou. A Revolução Cultural não significou uma diminuição dos padrões para a maioria. Em Liu Ling, a "luta entre as duas linhas" não foi uma luta entre aqueles que apoiam "uma vida melhor" (baseada em consumo privado) e aqueles que apoiam a "diminuição dos padrões de vida" (investimentos coletivos). Pegue o caso da debulhadora. Eles sempre debulharam com malhos ou bois. Na reunião geral do inverno passado, Mau Pei-hsin, o eletricista, apontou que como eles tinham eletricidade, eles poderiam usar uma debulhadora. Para comprar uma custaria á cada membro da brigada três yuan, porém, isso iria aumentar a produtividade. Após uma longa discussão, foi decidido na reunião comprar a máquina. Isso não pode ser interpretado como uma luta entre "consumo privado" e "investimentos coletivos". A reunião compreendeu que investimentos coletivos foram necessários para uma maior produtividade e, portanto, uma vida melhor. O mesmo vale para o moinho. Antes, Li Yang-ching tinha que moer os 3000 jin (um jin equivale á 1.3 libras, aprox 590 gramas) de grãos para que sua família consumia por ano, e ela tinha que fazer isso no moinho puxado por um asno ou manualmente. Agora, a brigada faz isso (por aproximadamente dez yuans por ano). Isso permite á ela gastar mais dias no trabalho produtivo - portanto, contribuindo mais na renda familiar. As mulheres desempenharam um grande papel na luta para fazer a vida na vila melhor Em 1961, a brigada Liu Ling produziu 326,000 jin de grãos; em 1965, 480,000 jin; em 1969, 650,000 jin. A produção de vegetais agora é 600,000 jin; maçãs para venda, 100,000 jin. Os fundos coletivos totais são de 160,000 yuan, e a brigada tem um estoque reserva de grãos amontoando 150,000 jin. A reserva é mantida para estar pronta para uso em caso de guerra e desastres naturais. Esse estoque irá aumentar. As cinco garantias O desenvolvimento econômico da vila é interessante. Ainda mais interessante é a direção deste desenvolvimento. Li Hai-yuan tem 55 anos agora. Ele não esteve muito bem nestes últimos anos. Ele diz: "Quando você começa a ficar velho, e sua esposa está doente e você não tem filhos para cuidar de você, então é bom saber que 'as cinco garantias' existem". As cinco garantias foram dadas quando a comuna foi fundada em 1958. Pais e crianças tem responsabilidade econômica para cada um, mas as cinco garantias asseguram que cada membro tenham comida, roupa e lenha o suficiente, uma educação para as crianças e um funeral honroso. Para que essas garantias sejam possíveis, os indícios de uma burocracia de welfare social começou á se formar em 1962 dentro de uma complicada estrutura admnistrativa. Grãos foram dados para famílias necessitadas pelos grupos de trabalho. O comitê da brigada discutiram os casos, e todos foram cuidadosos para não dar muito "para não minar o valor do trabalho". Agora, toda a estrutura admnistrativa foi grandemente simplificada. Todas as questões são manuseadas pelo Comitê Revolucionário da brigada e em grandes reuniões. Welfare social tais como este foi virtualmente abolido. Fora do consumo médio de grãos de 430 jin por pessoa ao ano, 344 jin agora são dados diretamente da brigada para cada indivíduo, independentemente do trabalho. Isso é uma garantia fundamental. Há apenas dois lares na brigada que necessitam de ajuda extra, e isso é organizado através do Comitê Revolucionário.

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Foto 8: Wang Shih-chieh, 20 anos de idade, era uma ativa Guarda Vermelha; agora ensina na quarta série em Liu Ling.

"Tem algo de errado na minha garganta", disse Li Hai-yuan. "Eu vou para o médico. Ano passado, eu fiquei em casa por três meses. Minha esposa está doente e não consegue trabalhar, então nós não ganhamos muito no ano passado. Porém, apesar de eu ficar muito em casa, eu recebi meus grãos, assim como minha esposa, mesmo ela não tendo trabalhado. Isso é novo. Isso é bom. Antigamente, você recebia menos do que os outros se você estivesse doente, agora, não há nem discussão. Você apenas recebe seus grãos. Isso é muito bom". Houve uma luta sobre essa reforma em Liu Ling. O argumento contra - a linha de Liu Shao-chi (nomeada com o nome do antigo presidente da China) - era que as pessoas ficariam preguiçosas se elas recebessem essa garantia. O fato de que campesinos como Li Hai-yuan apoiaram a linha de Mao Tsé-Tung nessa questão não é nada anormal. O sistema de pontos de trabalho anterior significava na realidade que a renda da brigada estava sendo dividida de acordo com trabalho por peça A ideia era que isso aumentaria a produtividade. "Mas eu fiquei mais e mais preocupado nestes dias", diz Mau Ke-yeh. "O trabalho veio ser avaliado por um pequeno grupo de cadres liderantes. Eles também decidiram quem ia fazer cada trabalho. Isso significava na realidade que eles poderiam decidir quem ia ganhar muito e quem ia ganhar pouco. Muitas pessoas boas e leais foram atingidas, e os oportunistas lucraram. A produção começou a ser deformada. Eles produziram para o mercado, tentaram fazer dinheiro fácil, especialmente com vegetais. "Todo o planejamento estava errado. Quando o plano era ultrapassado, você tinha renda extra. Portanto, eles começaram a colocar o plano em níveis baixos: 100 jin por mu (1 mu equivale a um décimo de um acre, ou 666 2/3 metros quadrados). Eu estava muito preocupado. Esse sistema estava demolindo nossa economia". Mau Ke-yeh, que foi um velho revolucionário, foi um dos primeiros a criticar quando os Guardas Vermelhos vieram á vila. Ele mesmo fora criticado porque ele não levantou essas questões antes. Ele foi capaz de provar que ele formentou essas questões com os cadres da brigada em 1964 e 1965, mas suas críticas foram suprimidas. Após três anos de Revolução Cultural e centenas de reuniões que discutiram cada aspecto do trabalho em Liu Ling, os cadres mudaram. Não foi uma questão de, por exemplo, Mau Pei-hsin suplantando Feng Chang-yeh, mas Mau e Feng chegando num acordo.

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Foto 9: Antiga lápide (no topo) fixado acima do pomar de maçãs simboliza o passado.

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