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Losurdo: "Stalin e Hitler: Irmãos gêmeos ou inimigos mortais?"


1. Eventos históricos e Categorias Teóricas

Quando os filósofos investigam eventos históricos, eles tentam discutir ao mesmo tempo as categorias com as quais os acontecimentos históricos são reconstruídos e descritos. Hoje se compreende a partir da categoria de “totalitarismo” (a ditadura terrorista de apenas um partido político e o culto à personalidade) Stalin e Hitler como duas personificações extremas desta praga, como dois monstros que possuem características tão semelhantes que se pensa neles como dois irmãos gêmeos. Não por menos - como argumentam - ambos se uniram por quase dois anos através de um pacto vergonhoso. De fato, após este pacto, seguiu uma guerra impiedosa, mas dois gêmeos a travaram, mesmo que eles fossem bastante controversos.

É uma conclusão obrigatória? Vamos voltar nossos olhares para a Europa brevemente. Gandhi também se convencia de que Hitler tinha algum tipo de irmão gêmeo. Mas este não era Stalin, que ainda em setembro de 1946, era considerado pelo líder indiano como um “grande homem” à frente de “um grande povo”. Não, o irmão gêmeo de Hitler era na verdade Churchill, ao menos a julgar por duas entrevistas dadas em abril de 1941 e abril de 1946 respectivamente: “Asseguro que na Índia também temos um governo Hitleriano, no entanto um disfarçado que possa ser mais moderado”. E depois: “Hitler foi o pecado da Grã-Bretanha. Hitler foi apenas uma resposta ao imperialismo Britânico”.

Talvez a primeira das duas explicações seja a mais sugestiva. Ela ocorreu em um momento, onde o tratado de não-agressão entre a Alemanha e a União Soviética ainda estava em vigor: O líder Indiano do movimento independentista não parece se ofender com isso. No movimento anticolonial as políticas de frente popular encontraram as maiores dificuldades. A razão para isso é explicada por um importante historiador afro-americano de Trinidad, admirador entusiasta de Trotsky, nomeadamente C.L.R. James, que mesmo em 1962 descreve o desenvolvimento de outro militante da causa da emancipação negra, também de Trinidad, dessa forma: “Quando esteve nos Estados Unidos, ele se tornou um comunista atuante. Se mudou para Moscou para liderar o Departamento de Propaganda e Organização dos negros. Neste cargo, ele se tornou o mais conhecido e mais confiável dos agitadores pela Independência Africana. Em 1935, buscando alianças, o Kremlin separou a Inglaterra e a França como ‘imperialismos democráticos’ da Alemanha e a França, os ‘imperialismos fascistas’, o principal alvo da propaganda russa e comunista. Isto reduziu a atividade pela emancipação africana: Alemanha e Japão não tinham colônias na África. Padmore rompeu instantaneamente com o Kremlin”.

Stalin não foi criticado e condenado como irmão gêmeo de Hitler, mas porque ele se recusou a reconhecer neste último o irmão gêmeo dos líderes do imperialismo britânico e francês. Para importantes personalidades do movimento anticolonial, não foi fácil entender que, entretanto, o Terceiro Reich assumiu a liderança da contrarrevolução colonial (e escravista): O debate habitual sobre o tratado de não-agressão sofre claramente de eurocentrismo.

O quão duvidoso possa ser colocar Churchill como próximo a Hitler, como Gandhi faz (e outros proponentes do movimento anticolonial fizeram mais indiretamente), não deixa de ser compreensível: Hitler não declarou várias vezes que iria construir uma Índia Alemã no Leste Europeu? E Churchill também não prometeu defender a Índia britânica a qualquer custo? Na verdade, em 1942 o Primeiro-Ministro Britânico teve que reprimir o movimento por independência, “usou de medidas extremas, como o uso da força aérea, para atirar com metralhadoras à massa dos protestos”. A ideologia que reside na raiz desta repressão é particularmente sugestiva. Vamos ouvir do próprio Churchill: “Eu odeio indianos. Eles são um povo bestial com uma religião bestial”; com sorte um número sem precedentes de "soldados brancos" garante a manutenção da ordem. A tarefa é enfrentar uma raça “protegida por sua mera pululação [reprodução muito rápida] da ruína que é”; Marechal Arthur Harris, protagonista dos bombardeios na Alemanha, foi bem aconselhado a “enviar algumas das bombas que sobraram para destruí-los”.

Vamos voltar da Ásia para a Europa. Em 23 de Julho de 1944, Alcide de Gasperi, o líder católico que estava para se tornar o primeiro-ministro da Itália libertada do fascismo, deu um discurso onde enfáticamente ele proclamou:

“Quando eu vejo como Hitler e Mussolini perseguiram seres humanos por conta de sua raça e inventaram esta assustadora legislação anti-judaica que conhecemos, e quando ao mesmo tempo eu vejo como os russos compostos de 160 etnias buscam uma união delas, quando vejo os esforços para unificar a sociedade humana, deixe-me dizer: isto é cristão, isto é eminentemente universalista no sentido do Catolicismo.”

O ponto de partida formado neste caso é a categoria de racismo, uma praga, que encontrou sua maior expressão na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler. Bom, o que foi a contrapartida a tudo isso? Devido a um motivo já mencionado não poderia ser a Grã-Bretanha. Mas também não poderia ser os Estados Unidos, onde - ao menos onde se concentra o Sul - reinava a supremacia branca. No que tange este regime, um importante historiador estadunidense(George M. Fredrickson) recentemente escreveu: “O esforço de garantir a ‘pureza racial’ no Sul americano antecipou aspectos da perseguição oficial nazista dos judeus nos anos 30”; quando também se considera de acordo com a lei de que no Sul dos Estados Unidos uma gota de sangue impuro era suficiente para ser excluído da comunidade branca, se tem que concluir: “a definição nazista de judeu nunca foi tão estreita quanto a da ‘regra de uma gota’ que dominava na categorização de negros nas leis de pureza racial do Sul dos Estados Unidos”. Portanto, não pode ser surpreendente que De Gasperi visse na União Soviética a grande antagonista real da Alemanha de Hitler. Os irmãos gêmeos, de quem a categoria de totalitarismo fala, aparecem de acordo com as categorias de racismo e colonialismo como inimigos mortais.

2. A Maior Guerra Colonial da História

Então que categoria deveríamos usar? Vamos dar as palavras para as personalidades em questão. Quando Hitler se dirigiu aos industriais de Dusseldorf (e da Alemanha) em 27 de janeiro de 1932 e ganhou o apoio deles para chegar ao poder, ele explicou sua concepção de história e política da seguinte maneira. Em toda a história do século XIX, os “povos brancos” conquistaram uma dominação incontestável, e isto como conclusão de um processo que começou com a conquista da América e se desenvolveu sob o signo do “sentimento absoluto, tanto do domínio da raça branca”. O Bolchevismo, ao colocar o sistema colonial em cheque e levando a e piorando a “confusão do pensamento branco europeu”, traz um perigo mortal à civilização. Se quiserem confrontar essa ameaça, se deve reforçar a “convicção da supremacia e com isso o direito da raça branca” e se tem que incondicionalmente defender a “posição de tutelagem da raça branca sobre o resto do mundo”, mesmo com a “crueldade mais brutal”: Um “direito de tutelagem extraordinariamente brutal” é necessário. Está além da dúvida: Hitler apresenta sua candidatura à liderança em um dos países mais importantes da Europa se comportando como pioneiro da Supremacia Branca, a qual ele queria defender mundialmente.

O apelo de defender e mobilizar a raça branca encontrou grande eco na Alemanha na I Guerra Mundial e especialmente depois dela. O recurso da entente e, particularmente, das tropas miscigenadas da França causou escândalo e indignação. Ademais, estes soldados não-brancos eram representados nas tropas de ocupação em Renânia e estupraram mulheres alemãs: Isto era a vingança inexorável dos vencedores, que tentaram de alguma forma humilhar o inimigo derrotado e ainda tentaram “contaminar” seu sangue para atingir sua “mulatização”. De qualquer forma a “ameaça negra” não apenas reside no Sul dos Estados Unidos, onde a Ku-Klux Klan é muito vigilante, mas também na Alemanha (e Europa): Neste sentido, na época argumentava o público na Alemanha. E este clima ideológico influenciou fortemente a formação dos principais líderes nazistas.

Em 14 de Junho de 1922, Heinrich Himmler participou de um protesto de massas em Munique organizado pela “Deutsche Notbund gegen die Schwarze Schmach”(Vergonha Negra), que - como um jornal local informou a “ocupação da Renânia por pessoas de cor como um crime bestialmente concebido que visa esmagar-nos como uma raça e, finalmente, destruir-nos". Em seu diário, Himmler notou: “Muitas pessoas. Todas gritaram: ‘Vingança’, me impressionou muito”. Mas eu já havia participado em eventos mais aprazíveis e mais emocionantes deste tipo”. Com sorte, a Inglaterra não tinha familiaridade com a irresponsabilidade racial da França. Foi isto que Alfred Rosenberg pensou, que defendia a “Federação dos dois povos brancos” ou melhor dos três povos brancos, se formos investigar a luta contra a “negrotização” em nível global e também, além da Alemanha e Grã-Bretanha, dos Estados Unidos. Mesmo no fim de 1942 - o Terceiro Reich e Japão estão do mesmo lado na guerra - Hitler, ao invés de ser agradecido pelos sucessos de seus aliados amarelos, lamenta as “perdas pesadas que os brancos tiveram que sofrer no Leste asiático”: Isto é registrado em um diário do Joseph Goebbels, que por sua vez denuncia Churchill como o “verdadeiro coveiro do Império Inglês”.

A raça branca já devia ser defendida na Europa. Seu principal inimigo era a União Soviética, que incitava as raças “menores” a se rebelarem e que ela mesma pertencia ao mundo colonial. Esta concepção era bastante divulgada na Alemanha na época: Após a tomada do poder pelos Bolcheviques - Osvald Spengler escreveu em 1933 - a Rússia havia tirado a “máscara branca para se tornar novamente uma superpotência mongol”, agora uma parte integral de “toda a população de cor da terra” e cheia de ódio contra a “humanidade branca”. A grande ameaça era ao mesmo tempo uma grande oportunidade: À frente da raça branca e da Alemanha um imenso espaço colonial havia se aberto. Era uma espécie de Faroeste. O “Mein Kampf” já havia exaltado a “incrível força” do modelo americano de expansão colonial, um modelo que deve se imitar para construir um Reich territorialmente compacto na Europa Central e Oriental. Em seguida, após o lançamento do projeto Barbarossa, Hitler comparou várias vezes sua guerra contra os “Povos indígenas” do Leste Europeu com a “Guerra Indiana”, com as “batalhas indígenas na América do Norte”: Em ambos os casos a “raça mais forte” será “vitoriosa”. Em seus discursos secretos que não eram feitos para o público, Himmler também declarou de forma especialmente explícita um aspecto adicional do programa colonial do Terceiro Reich: É necessário incondicionalmente “raças escravas estrangeiras”, da qual a “raça superior” nunca perderia sua “tutelagem” e jamais deveriam se misturar. “Se não enchermos nossos campos com escravos - nesta sala eu afirmo as coisas muito explicitamente e claramente - com escravos a trabalhar, que independentemente de quaisquer perdas, construirão nossas cidades, nossas vilas, nossas fazendas”, o programa de colonização e germanização da terra conquistada no Leste Europeu não pode ser realizado.

No final: Os “indígenas” do leste europeu eram por um lado os pele-vermelhas, que precisavam ser privados de sua terra, deportados e dizimados; do outro lado eles eram os negros que eram destinados a trabalhar como escravos a serviço de sua raça superior, enquanto os judeus, que eram postos lado a lado dos bolcheviques como responsáveis pelo incitamento das raças inferiores, deveriam ser aniquilados.

Claro, a União Soviética não poderia compartilhar desta concepção de vítimas predestinadas que estava em primeira ordem. É interessante notar que Stalin já entre fevereiro e outubro de 1917 chamava a atenção para o fato de que a Rússia, cansada da guerra sem fim estava correndo risco de se transformar em “uma colônia da Inglaterra, América e França”. A entente ao tentar de qualquer forma levar a cabo a continuação da Guerra na Rússia como se fosse a “África Central”. A Revolução Bolchevique também foi necessária para afastar esse perigo. Após Outubro, Stalin via no Poder Soviético o pioneiro da “conversão da Rússia de uma colônia em um país livre e independente”.

Hitler havia desde o começo planejado assumir novamente a tradição colonial e implementar no leste europeu e especialmente na Rússia, “barbarizada” pela vitória do Bolchevismo; do outro lado, desde o começo Stalin chamou seu país para enfrentar o perigo da subjugação colonial e interpretaram precisamente deste ponto de vista a Revolução Bolchevique.

Mesmo sem qualquer ideia simples, Stalin começou a reconhecer as características essenciais do milênio, que havia acabado de começar. Na onda da Revolução de Outubro, Lenin esperava que o principal ou exclusivo objeto do Século XX seria a batalha entre o capitalismo de um lado e o socialismo/comunismo do outro: O mundo colonial neste meio tempo estava completamente ocupado pelas potências capitalistas e cada nova partilha seguia a iniciativa dos países derrotados ou “em desvantagem” levaria à nova Guerra Mundial e representaria um avanço maior na direção da definitiva destruição do sistema capitalista: A conquista da nova ordem socialista está imediatamente na ordem do dia. Mas Hitler deu um passo inesperado: Ele reconheceu no Leste Europeu e especialmente na Rússia Soviética o espaço livre colonial que estava à disposição do Reich Alemão ainda a ser erguido. De forma similar se comportou o Império Japonês que invadiu a China e a Itália Fascista que (com exceção da Etiópia) mirou os Balcões e a Grécia. Stalin começou a perceber que o século XX seria marcado, contra todas as expectativas, por uma disputa entre o colonialismo e o anticolonialismo (apoiado e promovido pelo movimento comunista) na Europa.

Atualmente foi enfatizado corretamente: “A guerra de Hitler por Lebensraum foi a maior guerra colonial da história”. A Guerra Colonial que foi lançada primeira contra a Polônia. As instruções do Fuhrer na tarde anterior à agressão dizem: A “eliminação das forças vitais” do povo polonês é necessária. Se chama pela “ação brutal”, sem serem inibidos por “empatia”; “o mais forte tem o direito”. Semelhantes são as diretivas que mais tarde a Operação Barbarossa dá: Após o encarceramento dos comissários políticos, dos quadros do Exército Vermelho, do Estado Soviético e do Partido Comunista deve ser imediatamente exterminado; no Leste deve se tomar medidas extremas e “duras” e os oficiais alemães e os soldados devem superar suas ressalvas e escrúpulos morais. Por conduzirem de volta os povos de uma velha cultura à situação dos pele-vermelhas(para serem expropriados e dizimados) e dos negros(para serem escravizados) “todos os representantes da intelligentsia polonesa devem ser mortos;” o mesmo tratamento é, claro, que os russos e a inteligência soviética devem ser subjugados; “isto parece pesado, mas esta é a lei da vida.” É assim que se explica o destino do clérigo católico, dos quadros comunistas na URSS e em ambas as situações, nos judeus, que eram bem representados nas camadas intelectuais e eram suspeitos de inspirarem e apoiarem o Bolchevismo. Hitler foi bem-sucedido em jogar a Polônia contra a União Soviética, mas ele previa o mesmo destino para ambos; mesmo que sob um caminho tortuoso e trágico, a guerra de resistência nacional do povo polonês e a Grande Guerra Patriótica são finalmente relacionadas uma com a outra. O ponto de viragem da "maior guerra colonial na história" é Stalingrado. Se Hitler foi o instigador da contrarrevolução colonial, Stalin foi o instigador da revolução anticolonial que de maneira inesperada encontrou seu centro na Europa.

3. Stalin, Hitler e as minorias nacionais

A definição de Stalin que eu apresentei se contrasta com as políticas que ele levou a cabo no que tange às minorias nacionais? Está além da dúvida que não existe espaço para o direito de retrocesso na concepção de Stalin. Como se confirma na conversa com Dimitrov em 7 de novembro de 1937: “Qualquer um que lance um ataque ao Estado Socialista com seus feitos ou pensamentos será aniquilado sem misericórdia”. Ainda assim são punidos: É uma definição extraordinariamente efetiva mas completamente involuntária de totalitarismo!

Do outro lado, Stalin dá boas vindas e apoia o renascimento cultural das minorias nacionais do Leste Europeu que foram reprimidas por muito tempo. São esclarecedoras as observações feitas por ele no X Congresso do Partido Comunista Russo em 1921: “Cerca de cinquenta anos atrás todas as cidades húngaras tinham um caráter alemão”. Agora se ‘magiarizaram’; os Bielorrussos também tiveram uma experiência de um ‘despertar’. É um fenômeno que se supõe capturar toda a Europa: Da ‘cidade alemã’ que era Riga agora se tornará uma ‘cidade letona’; as cidades da Ucrânia serão ‘ucranizadas’ e farão o elemento russo que anteriormente era dominante, como secundário. E constantemente Stalin polemiza contra os ‘assimilacionistas’, sejam os ‘assimilacionistas turcos’, os ‘prusso-alemães germanizantes’, ou os ‘russificadores czaristas-russos’. Esta posição é portanto particularmente importante porque é ligada à uma elaboração teórica de caráter universal. Em suas polêmicas contra o Kautsky, Stalin enfatiza que o socialismo de nenhuma maneira significa o desaparecimento das línguas nacionais e demais particularidades mas leva a seu maior desenvolvimento e evolução. Qualquer “política assimilacionista” portanto deveria ser condenada como “antipopular” e “contrarrevolucionária”: É particularmente “fatal”, por não compreender o “poder colossal de estabilidade que detém as nações”, “declarar guerra” à cultura nacional” é uma “defesa da colonização.” Quão dramática possa ser a discrepância entre as declarações políticas e as políticas concretamente praticadas, estas declarações nunca são nada e não podem ser nada em um regime político o qual a educação e mobilização ideológica de funcionários e militantes do Partido e doutrinação de massas desempenhou um papel muito relevante.

E novamente o contraste com Hitler se torna aparente. Ele também começa a assumir a Eslavização e a “degermanização” no leste europeu. Mas para ele, isto é um processo que deve ser revertido de qualquer forma. Não é suficiente conter a assimilação linguística e cultural que na verdade representam o “começo da bastardização” e, portanto, de uma “aniquilação dos elementos germânicos”, a “aniquilação de precisamente das propriedades que permitiram aos povos conquistadores de serem vitoriosos”. É preciso germanizar a terra sem nunca germanizar as pessoas. Isso só é possível se a pessoa segue um modelo muito preciso: Para além do Atlântico, a raça branca deve se disseminar pelo Oeste americanizando a terra, mas certamente não os pele-vermelhas: neste sentido os Estados Unidos permaneceram um “estado nórdico-germânico” sem o perigo de caírem em uma “salada de povos internacionais”. O mesmo modelo deve ser seguido pela Alemanha no leste europeu.

4. O papel da Geografia e da Geopolítica

No que tange a atitude em relação à questão nacional, o contraste entre a Rússia Soviética e o Terceiro Reich se confirma. Chegamos a conclusões inteiramente diferentes, no entanto, se nos concentrarmos nas práticas de governo dos dois regimes, que certamente podemos comparar na base da categoria de totalitarismo. E ainda seria enganoso interpretar o terror, a brutalidade, e até a exigência de controlar pensamentos de uma forma psicopatológica.

Não devemos esquecer da doutrina de método que foi desdobrada por um clássico do Liberalismo. No ano de 1787 Alexander Hamilton declarou, às vésperas da passagem a uma nova constituição federal, que a limitação de poder e a introdução do Estado de Direito em dois Estados com caracteres insulares (Grã-Bretanha e Estados Unidos), que são protegidos pelo mar contra qualquer ameaça de potências inimigas, tem sido bem-sucedida. Se o projeto de uma federação tivesse falhado e se sobre suas ruínas tivesse que se destacar os contornos de um sistema de Estados, que se assemelha a aquele, que podemos encontrar no continente Europeu, então mesmo na América haveria fenômenos como de um exército permanente, de um forte poder central e mesmo de absolutismo. “Assim, deveríamos, em escasso tempo, ver estabelecido em cada parte deste país os mesmos mecanismos de despotismo que foram o flagelo do Velho Mundo”. De acordo com Hamilton, se deveria primeiramente possuir campos geográficos e geopolíticos em mente para explicar a permanência ou o desaparecimento das instituições liberais.

Se formos investigar as grandes crises históricas, veremos que todas elas - mesmo se em diferentes medidas - levaram a uma concentração de poder nas mãos de uma personalidade mais ou menos autocrática: A primeira Revolução Inglesa terminou com o poder pessoal de Cromwell, a Revolução Francesa primeiro levou ao poder de Robespierre e em seguida de Napoleão, o resultado da revolução dos escravos negros de São Domingo foi primeiro a ditadura militar de Toussaint Loverture e depois de Dessalines; a Revolução Francesa de 1848 levou ao poder pessoal de Louis Napoleão, ou de Napoleão o Terceiro. A categoria de totalitarismo é de uso em uma comparação analítico das práticas de governo aplicadas em situação mais ou menos aguda de crise. Mas se formos esquecer o caráter formal desta categoria e se