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Gorki: "Resposta para um Intelectual"


Vocês escrevem: “Muitos intelectuais na Europa Ocidental estão começando a sentir que eles são pessoas sem uma pátria, e nossos pensamentos estão voltando mais e mais em direção à vida na Rússia. Ao mesmo tempo, o que está de fato acontecendo na União Soviética ainda está nublado em nossas mentes.”

A União Soviética é a cena de uma luta entre a vontade nacionalmente organizada das massas trabalhadoras e as forças da espontaneidade tanto na natureza como no homem. Essa “espontaneidade” no homem é nada mais nada menos que a anarquia instintiva do indivíduo que se tornou enraizada no curso das eras através através da sua opressão por sua condição de classe.

Essa luta é a soma e substância da realidade na União Soviética. Qualquer um que deseja sinceramente entender o significado profundo das mudanças culturais revolucionárias que tomaram a velha Rússia só compreenderá sua importância se considerarmos esse processo como uma luta pela cultura e pelas potencialidades criativas da cultura.

Vocês ocidentais adotaram uma atitude para com o povo da União Soviética que eu dificilmente considero digna de pessoas que consideram elas mesmas como apóstolos de uma cultura que julgam indispensável para todo o mundo. É uma atitude de um comerciante à seu cliente, de um credor à seu devedor. Vocês se lembram que a Rússia czarista pegou emprestado dinheiro de vocês e aprenderam de vocês como pensar; mas vocês se esquecem que esses empréstimos renderam a seus industriais e comerciantes lucros extraordinariamente suculentos, e que a ciência russa dos séculos XIX e XX contribuíram muito para o fluxo geral da pesquisa científica europeia. Hoje, quando é tão angustiantemente claro que seu poder criativo na esfera da arte está em declínio, vocês estão vivendo nas forças, ideias e formas da arte russa. Vocês não podem contradizer o fato de que a música e a literatura russa, para não serem superadas pela ciência russa, há muito tempo ganharam um lugar honrado no corpo da cultura mundial.

Poderia parecer que um povo qual a capacidade espiritual criativa cresceu no curso de um século até alturas comparáveis com as atingidas pelo resto da Europa no curso de muitos séculos, um povo que acabou de ganhar liberdade no uso de seus poderes criativos, merece um estudo e atenção mais aprofundados do que os intelectuais da Europa atribuíram-lhe até agora.

Já não é a hora de vocês de uma vez por todas mudarem suas cabeças e se perguntarem: Quais são exatamente as diferenças entre os objetivos da burguesia da Europa e os dos povos da União Soviética? É suficientemente claro agora que os líderes políticos da Europa não servem “a nação como um todo”, mas serve grupos mutuamente hostis de capitalistas. Essa hostilidade mútua entre os líderes dos grandes negócios, que são desprovidos de qualquer senso de responsabilidade com suas respectivas “nações”, resultou em uma série de crimes contra a humanidade similares ao holocausto mundial de 1914-18. Intensificou a desconfiança mútua entre nações, transformou a Europa num amontoado de campos armados, e agora despeja enormes quantidades de trabalho do povo, ouro, e ferro na fabricação de munição que vai perpetrar novos massacres. Por causa deste antagonismo entre os capitalistas, a crise econômica mundial, que drena os recursos físicos da “nação” e paralisa o crescimento de suas forças intelectuais, tem sido nitidamente agravada. Essa inimizade entre ladrões e mascates está preparando o caminho para uma nova carnificina mundial.

Perguntem a vós mesmos: Qual o propósito servido por tudo isso? E, principalmente, se vocês querem sinceramente serem aliviados do seu fardo de dúvida e sua atitude negativa em relação a vida, ponderem sobre esta mais simples das questões sobre a ordem social existente. Sem se deixar levar pelas palavras, pensem seriamente sobre os objetivos gerais da existência capitalista – ou, para ser mais exato, para o caráter criminoso de sua existência.

Dizem que vocês intelectuais “valorizam a cultura, cujo significado universal é incontestável.” É realmente assim? De baixo de seus narizes o capitalismo está firmemente dia após dia destruindo essa preciosa cultura na Europa, e pelas suas políticas desumanas e cínicas nas colônias estão certamente criando uma tropa de inimigos da cultura européia. Se esta “cultura” predatória de vocês está produzindo alguns milhares de ladrões de mentalidade semelhante nos continentes amarelo e preto, não se esqueçam que algumas centenas de milhões ainda se mantêm entre o rebanho dos saqueados e indigentes. Hindus, chineses, e anamitas curvam as cabeças ante seus canhões, mas isso não significa nem um pouco que eles veneram a cultura europeia. E eles estão começando a descobrir que na União Soviética um tipo diferente de cultura está brotando, diferente em forma e significância.

“Pagãos e selvagens vivem no oriente”, vocês declaram; e como prova dessa assertiva vocês falam repetida e tediosamente sobre a posição das mulheres no oriente. Entremos então nessa questão de selvagens (...)

Existem evidencias demais de selvageria na Europa burguesa, e pega mal para vocês falarem do barbarismo do oriente. O campesinato das nações que entraram na União Soviética está aprendendo rapidamente o valor da cultura genuína e a importância do papel que a mulher desempenha na vida. A verdade disso é completamente apreciada pelos operários e camponeses da China nas províncias onde os Soviétes já foram estabelecidos. Os hindus, também, vão aprender a entender. Todas as massas trabalhadoras do nosso planeta devem cedo ou tarde descobrir a estrada para a liberdade. É precisamente por essa liberdade que elas estão lutando por todo o mundo.

No mundo capitalista a luta por petróleo, por ferro, e pelo armamento de milhões em preparação para um novo massacre, enraivece-se com crescente furor. É uma luta conduzida por uma minoria pelo direito à opressão política e econômica da maioria... Essa luta exterminou por completo o “humanismo”, que era tão querido aos corações dos intelectuais europeus e do qual eles eram tão orgulhosos.

Nunca antes os intelectuais expressaram tão claramente seu desamparo e sua vergonhosa indiferença a vida como eles fizeram no século XX, tão cheio de tragédias criadas pelo cinismo das classes dominantes. Na esfera política, os sentimentos e ideologia dos intelectuais estão sob os pés de aventureiros servindo humildemente a vontade dos grupos capitalistas, que permuta tudo que é comercializável e, no final, sempre barganha a energia do povo. Com a palavra “povo” eu não quero dizer somente os operários e camponeses, mas também os pequenos oficiais e o exército de “empregados” do capitalismo, e os intelectuais como um todo – ainda um remendo brilhoso nos farrapos imundos da sociedade burguesa.

Os intelectuais não entenderam a importância histórica da Revolução de Outubro e não resistiram, nem ao menos desejaram protestar contra a sangrenta e predatória intervenção capitalista de 1918-21. Eles protestam quando um professor monarquista ou conspirador é preso na União Soviética, mas se mantém indiferentes quando seus capitalistas violam os povos da Indochina, Índia e África. Quando, na União Soviética, meia centena de criminosos infames são executados, os intelectuais estrangeiros enchem o ar com seus gritos clamorosos contra a selvageria; mas quando, na Índia ou no Anam¹, milhares de pessoas inocentes são varridas por canhões ou metralhadoras, estes intelectuais humanistas ficam modestamente silenciosos. Eles ainda não são capazes de traçar conclusões dos resultados de anos de labuta e inestimável energia gastos na União Soviética. Os políticos no parlamento e na imprensa enchem seus ouvidos com contos de como o trabalho dos Sovietes é direcionado exclusivamente para a destruição do “velho mundo” e eles não falham em acreditar que é isso mesmo.

Mas na União Soviética as massas estão assimilando rapidamente tudo que há de melhor e mais precioso na herança cultural da humanidade. Este processo de assimilação é acompanhado por um processo de desenvolvimento dessa herança. Naturalmente, nós estamos destruindo o velho mundo, pois devemos libertar o homem da multiplicidade de grilhões que tem impedido seu crescimento intelectual e libertar sua mente da superstição e todos gastos conceitos de classe, nacionalidade e igreja.

O objetivo fundamental do processo cultural na União Soviética é a unificação de todos os povos do mundo em um indivisível inteiro. Este trabalho é ditado por todo o curso da história da humanidade; é o início não meramente de uma renascença nacional, mas de uma renascença mundial. Indivíduos como Campanella, Thomas More, Saint-Simon, Fourier, e outros sonhavam com isso em uma época que a técnica industrial necessária para a realização desse sonho ainda era inexistente. Agora todas as condições necessárias existem. O sonho dos utopistas encontrou uma base firme na ciência, e o trabalho de realizar este sonho está sendo levado por milhões. Em outra geração vão haver quase 200 milhões de trabalhadores engajados nesse trabalho somente na União Soviética.

Quando as pessoas não querem entender ou não tem força o suficiente, eles tomam refúgio em crenças cegas.

Instinto de classe, a psicologia do pequeno proprietário e a filosofia daqueles que apoiam cegamente a sociedade de classes, força esses intelectuais a acreditar que a expressão individual é sufocada e reprimida na União Soviética, que a industrialização do país está procedendo por meios do mesmo tipo do trabalho forçado que construiu as pirâmides do Egito. Isso não é uma mentira qualquer, mas o tipo de mentira óbvia que engana apenas aqueles que são completamente impotentes e sem senso algum de responsabilidade pessoal, pessoas que estão vivendo em um estado de decadência completa, que a energia intelectual e pensamento crítico foram completamente extintos.

A rapidez com que grandes números de pessoas talentosas estão emergindo em todos os aspectos da vida – na arte, ciência e tecnologia – conclusivamente refuta o mito da repressão da individualidade na URSS. Não poderia ser de outro jeito numa terra onde a população toda é trazida para dentro do processo cultural.

De 25 milhões de “proprietários”, camponeses semianalfabetos ou completamente analfabetos oprimidos pela autocracia dos Romanovs e a burguesia rural, 12 milhões já começaram a apreciar a razoabilidade e as vantagens da agricultura coletiva. Esta nova forma de trabalho liberta os camponeses de seus instintos pelo conservadorismo e anarquismo bem como da mentalidade animalesca comum aos pequenos proprietários. O oferece lazer considerável, que ele usa para liquidar seu próprio analfabetismo. Nos dias de hoje, em 1931, existem 50 milhões de adultos e crianças frequentando escolas; e a literatura planejada e lançada nesse ano chega à 800 milhões de livros, ou mais ou menos 50 bilhões de páginas impressas. A demanda popular já atingiu 80 bilhões de páginas, mas as fábricas não podem fornecer essa quantidade de papel.

A sede de conhecimento está crescendo. Desde o estabelecimento da União Soviética dúzias de institutos de pesquisa científica, novas universidades, e escolas politécnicas foram fundadas. Todas elas estão abarrotadas com multidões de jovens estudantes, enquanto os operários e camponeses estão constantemente desenvolvendo milhares de novos líderes da cultura.

Algum dia já foi, e poderá algum dia ser, o objetivo de um Estado burguês trazer todos os milhões de pessoas trabalhadoras para dentro das atividades culturais? A história responde essa simples questão negativamente. O capitalismo promove o desenvolvimento mental dos trabalhadores somente até onde é necessário e lucrativo para a indústria e comércio. O capitalismo precisa de seres humanos somente como uma mais ou menos barata fonte de energia para a defesa da ordem existente.

O capitalismo não atingiu e nunca poderá atingir a simples conclusão de que o objetivo e significância da cultura genuína é o desenvolvimento e acumulação de energia intelectual. Para que essa energia se desenvolva ininterruptamente e deste modo auxiliar a humanidade o mais cedo para se usar todas as forças e presentes da natureza, é essencial libertar o máximo de energia física dessas labutas anárquicas e sem sentido que servem aos interesses gananciosos dos capitalistas, saqueadores e parasitas da humanidade trabalhadora. O conceito de humanidade como um armazém cheio de um enorme suprimento de energia intelectual é completamente estranho para os ideólogos do capitalismo. Apesar de toda a sua astúcia em manejar a caneta e sua eloquência nas palavras faladas, a ideologia daqueles que defendem o papel da minoria sobre a maioria é essencialmente bestial.

Estados de classe são construidos à moda de jardins zoológicos onde todos os animais estão aprisionados em jaulas. Em estados de classe essas jaulas, construídas com variados graus de habilidade, servem para prolongar aquelas ideias que dividem a humanidade e previnem o desenvolvimento de uma consciência no homem sobre seus prórprios interesses bem como o nascimento de uma cultura genuína abraçando toda a humanidade.

É necessário para mim, que eu negue que o indivíduo na União Soviética é restringido? Claro que não, e eu não o nego. Na União Soviética a vontade do indivíduo é restringida quando vai de contra à vontade das massas, que estão cientes do seu direito de construir novas formas de vida; que deram a si mesmas uma tarefa além do poder de qualquer indivíduo sozinho mesmo que ele seja dotado com o gênio de um super homem. As linhas de frente dos operários e camponeses na União Soviética estão avançando em direção ao seu próprio sublime ideal, heroicamente superando uma multidão de obstáculos e dificuldades.

O indivíduo defende sua falsa liberdade e aparente independência dentro de sua jaula. As jaulas em que os escritores, jornalistas, filósofos, oficiais do governo, e todas as outras engrenagens bem lubrificadas da máquina capitalista é naturalmente mais confortável que as jaulas dos camponeses. A cabana enfumaçada e imunda dos camponeses e seu “pedacinho privado de chão” o deixa alerta, em vigia contra a caprichosa destrutividade das forças elementares da natureza, e contra os ataques dos capitalistas que o esfola vivo. Os agricultores da Calabria, Bavária, Hungria, e Grã-Bretanha, da África e da América, não são muito diferentes um do outro psicologicamente, exceto no uso da linguagem. Por todo globo os camponeses vivem da mesma maneira mais ou menos isolada e infectada pelo individualismo primitivo. Na União Soviética, o camponês perde progressivamente esta mentalidade específica de escravo da terra, de eterno prisioneiro da sua miserável propriedade.

O individualismo é o resultado da pressão exterior feita sobre o homem pela sociedade de classes; o individualismo é uma tentativa estéril do indivíduo para se defender contra a violência, mas a autodefesa não é outra coisa senão a autolimitação. Pois o processo de crescimento da energia intelectual torna-se mais lento quando se está em estado de autodefesa. Este estado é também prejudicial à sociedade e ao indivíduo. As "nações" gastam milhões em armamento contra os seus vizinhos; o indivíduo esgota a maioria das suas forças para se defender contra a violência de que é objeto por parte da sociedade de classes.

A vida é uma luta? Sim, deve ser uma luta do homem e da humanidade contra as forças da natureza, uma luta para as vencer e dirigir. O Estado de classe transformou esta luta grandiosa numa batalha abjeta pelo domínio da energia física do homem para a sua servidão.

O individualismo do intelectual dos séculos XIX e XX diferencia-se muito do individualismo do camponês, mas apenas pelas formas de expressão: é mais floreado, mais polido, mas também animal e cego. O intelectual está entre a espada do povo e a parede do Estado; as condições em que ele vive são, em geral, naturalmente penosas e dramáticas, pois o ambiente é-lhe habitualmente hostil. É por isso que o pensamento prisioneiro do intelectual o faz muitas vezes transferir para o mundo inteiro o peso das suas próprias condições de vida, e é destas concepções subjetivas que nascem o pessimismo filosófico, o ceticismo e outras deformações do pensamento. (…) O sistema social de classes atual restringe a liberdade de crescimento do indivíduo. É por isso que ele procura o seu lugar e procura o repouso fora dos limites da realidade.

Por exemplo, a questão de Deus. O povo trabalhador, na procura de uma explicação dos fenômenos naturais que lhes eram úteis ou prejudiciais, personificou magnificamente estes fenômenos sob a forma de seres com uma figura humana, mas mais poderosos do que qualquer homem. O povo adornou os seus deuses com todas as qualidades e todos os defeitos que ele próprio tinha; os deuses do Olimpo são homens com dimensões exageradas; Vulcano e Thor são ferreiros que em nada se distinguem de todos os outros ferreiros e apenas são mais fortes, mas não mais hábeis no trabalho.

As imagens religiosas criadas pelo povo trabalhador são simplesmente criações artísticas das quais o misticismo está ausente; são completamente realistas e adequadas à realidade, sente-se com força a influência da atividade laboriosa, e o objetivo desta arte consiste, em resumo, em encorajar esta atividade.

Na poesia, verifica-se que o povo tomou consciência do fato que, afinal de contas, a atualidade foi criada, não pelos deuses, mas pela atividade laboriosa dos homens. O povo é idólatra.

Mesmo quinhentos anos depois de o cristianismo se ter afirmado na sua qualidade de religião de Estado, os deuses, na imaginação dos camponeses, apresentam-se sempre como eram na antiguidade: Cristo, a Virgem, os santos caminham sobre a terra e misturam-se com a vida laboriosa das pessoas, do mesmo modo que os deuses dos antigos gregos e dos povos escandinavos. O individualismo nasceu da “economia privada”. Cada clã, juntando-se ao clã anterior, criava uma coletividade. Um indivíduo escapando, por uma razão ou por outra, à coletividade e, por isso mesmo, à realidade que se criava constantemente, criava o seu próprio deus, único, místico, inacessível à inteligência, cujo objetivo era justificar o direito do indivíduo à independência e ao poder. Aqui o misticismo se torna indispensável, porque o direito do indivíduo de governar absolutamente, pela “autocracia”, não pode ser explicado pela razão. O individualismo dotou seu deus com as qualidades de onipotência, sabedoria infinita, e inteligência absoluta – com qualidades que o homem não poderia possuir, mas que desenvolve somente através da realidade criada pelo trabalho coletivo. Esta realidade fica sempre a um nível inferior da mente humana, que a cria e, ainda que lentamente, está constantemente se aperfeiçoando. Na sua falta, a realidade, de fato, iria satisfazer as pessoas, e