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"Lenin, Stalin e a paz"


A ironia da história reservou um triste papel aos srs. Spaak e Bevin.

Eles ousaram reeditar na ONU a calúnia clássica da reação, que atribui a Lenin e seus discípulos a ideia monstruosa de considerar a guerra e, segundo outros, a miséria também, como meio de acelerar a marcha para o comunismo.

Mas a grosseira falsificação de nossa doutrina, empreendida pelos lacaios social-democratas do imperialismo, só faz confundir a eles próprios e teve o mérito de provocar a brilhante resposta do camarada Vichinsky(1).

Ao mesmo tempo, um forte jato de luz foi lançado sobre os princípios fundamentais que guiam a ação dos comunistas em defesa da paz.

* * *

Em todas as épocas e em todos os países, os homens progressistas se levantaram sempre para condenar a guerra e sugerir meios pacíficos de solucionar os conflitos entre os Estados. Mas isso não eram apenas sonhos generosos e utópicos, em contato sério com a realidade.

A verdadeira doutrina da paz, científica e ativa, só pôde tomar corpo com a vitória do socialismo. com a edificação de uma sociedade capaz de abolir os antagonismos de classes no seu interior e baseando suas relações exteriores sobre a fraternidade entre os povos.

Não foi por acaso que o organizador do primeiro partido marxista de novo tipo, o fundador do Estado Soviético, tornou-se o criador e campeão de uma verdadeira política de paz, proletária e socialista.

A obra genial de Lenin foi continuada por Stalin, que a enriquece constantemente. Enquanto os imperialistas desejam lançar o mundo numa monstruosa destruição atômica e microbiana, um dos maiores méritos de Stalin é justamente o de se manter firme no leme, à frente das inúmeras forças que se reúnem e combatem em defesa da paz.

Da teoria e da prática de Lenin e Stalin, nesta matéria, podem ser destacados três princípios fundamentais:

— A guerra é um fenômeno social inerente, em nossos dias, ao imperialismo, e em cada caso concreto, é necessário revelar suas causas profundas e o seu verdadeiro caráter.

— O socialismo constitui a principal força de paz; a natureza socialista do Estado Soviético inspira toda a política exterior da URSS, colocando-a na vanguarda do campo da paz.

— A guerra não é inevitável, a despeito da vontade agressiva das potências imperialistas, a coexistência pacífica do socialismo e do capitalismo é possível; o estabelecimento de uma paz duradoura depende da capacidade das forças populares de amordaçar os incendiários de guerra e impossibilitá-los de causar danos.

A Guerra, Fenômeno Social

“Explicações" idealistas da guerra existem em profusão. Todas elas levam à aceitação resignada ou mesmo à justificação da guerra, considerada quer como manifestação da vontade divina, providencial, quer como consequência inelutável e necessária da "luta pela vida" transposta do plano biológico para o plano social.

Sabe-se como os Rosenberg e outros ideólogos do fascismo pretendiam encobrir as sangrentas agressões de Hitler e Mussolini com uma verborragia pseudo-científica tomada de empréstimo a diversas matérias. De uma biologia à sua maneira, tiraram o racismo; de sua geografia, a teoria do espaço vital, da economia política, o mito "sangue e ouro". Hoje os dirigentes americanos submetem seus operários à psicanálise para descobrir pseudo-tendências à agressividade, que não existem a não ser entre os reis do dólar e seus cúmplices e nada têm de "sub-consciente".

A redução da história a uma série de conflitos "naturais" entre os homens e entre os Estados é, sem dúvida, bem mais cômoda para os agressores. Essa teoria foi pulverizada por Lenin, que analisou a guerra como fenômeno social inseparável do capitalismo, sobretudo na sua última fase, na fase de decomposição, que é a do imperialismo.

Baseado na exploração do homem pelo homem e na busca ávida de lucro, o capitalismo conduz necessariamente ao emprego da força bruta,às espoliações, às guerras para a conquista de novos territórios, fontes de matérias primas e mercados para a exportação dos capitais e dos produtos fabricados. Na época do imperialismo, quando as principais potências capitalistas já dividiram entre si a dominação do mundo, toda modificação da relação de forças entre elas conduz à luta por uma nova divisão do mundo.

"No capitalismo, um crescimento igual do desenvolvimento econômico dos ramos da economia e dos Estados é impossível. No capitalismo, não há outros meios possíveis para restabelecer, de tempos em tempos, o equilíbrio desfeito, a não ser as crises na indústria, e as guerras, na política".

Esta lei da desigualdade do desenvolvimento do capitalismo — desigualdade que se vai acentuando na época do imperialismo — foi descoberta por Lenin e confirmada pelos fatos. Assim como a primeira crise da economia capitalista mundial conduziu à guerra de 1914 a 1918, a segunda crise nas relações internacionais foi a origem da segunda guerra mundial. Diz Stalin, a respeito:

"Não foi um acidente, mas o resultado inevitável da evolução das forças econômicas e políticas mundiais na base do capitalismo monopolista contemporâneo"(2).

Para compreender a análise staliniana das causas profundas da última guerra, é preciso não esquematizar em excesso. A evolução geral das diversas forças existentes em todos os domínios — econômico, político, diplomático, estratégico, militar — e a ruptura brusca do equilíbrio num momento dado, no interior do sistema capitalista, é que é preciso ter em conta.

Enquanto os social-democratas apresentam o capitalismo dos monopólios como uma "organização" da economia que favorece a introdução pacífica e progressiva do socialismo, os comunistas denunciam os trustes e associações capitalistas como os principais sustentáculos da reação e da guerra.

O comportamento dos homens e dos governos enfeudados aos trustes, ontem cúmplices da Alemanha hitlerista, hoje protegidos dos capitalistas americanos, torna claro este ensinamento de Lenin:

"O imperialismo é a época do capitalismo financeiro e dos monopólios que levam a toda parte a tendência à dominação e não a tendência à liberdade. Reação em toda a linha, seja qual for o regime político: exacerbação extrema das contradições nesta esfera também, tal o resultado dessa tendência. Intensifica-se particularmente a opressão nacional e a tendência às anexações, istoé, à violação da independência nacional (pois a anexação não é senão a violação do direito das nacionalidades à auto-determinação)"(3).

Quem quer que lute com eficácia contra a guerra, deve, pois, obrigatoriamente combater o imperialismo, que é o seu gerador.

O Socialismo, Força de Paz

Com a Revolução de Outubro começou a era da ruptura das cadeias do imperialismo. Ao mesmo tempo em que enfraqueceu o sistema capitalista em seu conjunto, a vitória do socialismo na União Soviética colocou, pela primeira vez, a serviço da paz, a potência de um grande Estado. De aspiração generosa, que era antes, do mundo trabalhador, a paz se transformou numa força ativa, dirigida pelo Poder dos Soviets. Tornou-se um movimento com base material sólida, um movimento que não pode deixar de ser levado em conta pelos incendiários de guerra.

É a própria natureza do Estado soviético, Estado de operários e camponeses, interessados em primeiro lugar na defesa da paz, que tem determinado os atos internos e externos da URSS, desde há trinta e um anos.

Nada mais de classes exploradoras, por consequência, não mais a sórdida corrida aos lucros, as sórdidas lutas para se apoderar dos territórios e das matérias primas dos outros países. Sem capitalistas, não há, portanto, nenhuma necessidade de exportar capitais para o exterior, com o fim de tirar da exploração do trabalho de outrem escandalosos lucros. A União Soviética, para viver e prosperar, conta antes de tudo com o trabalho e a energia de seus povos, com a superioridade do regime socialista, mais capaz do que qualquer outro, de assegurar a valorização de todas as riquezas naturais. O que ela não possui, adquire por meio do intercâmbio econômico normal.

Tendo abolido em suas fronteiras a opressão nacional, o racismo e toda forma de dominação de um povo sobre outro, a União Soviética baseia suas relações exteriores na cooperação e na fraternidade entre os povos, no respeito à independência e à soberania de cada país.

O Decreto de Lenin Sobre a Paz

O primeiro ato do poder soviético, após sua instauração, foi o decreto sobre a paz, adotado pelo II Congresso dos Soviets, por proposta de Lenin, na noite de 7 para 8 de novembro de 1917, algumas horas depois da vitória da insurreição proletária.

Denunciando a guerra imperialista como o maior crime contra a humanidade e apelando solenemente aos povos para iniciar de imediato as negociações em prol de uma paz democrática, esse documento histórico assume a mais alta significação. Foi uma manifestação palpável, visível aos olhos de todos, da política pacífica da jovem República Soviética, nascida na luta contra a guerra e apresentando aos olhos do mundo a primeira Declaração de Paz sobre a qual iria basear-se sua política exterior.

Não foi uma simples declaração de princípios "para a propaganda", como queriam fazer crer os miseráveis políticos a serviço do imperialismo, incapazes de imaginar nos outros uma perfeita sinceridade que lhes falta.

A unidade da teoria e da prática, a conformidade absoluta dos atos com as palavras — traço distintivo do método leninista — fizeram da diplomacia soviética uma diplomacia nova, de tipo desconhecido até então, que se apoia sobre a vontade do povo e serve sem desfalecimento à causa da paz.

Nem a intervenção estrangeira, nem o bloqueio, nem a política imperialista do "arame farpado", nenhuma "conspiração contra a Rússia", nenhuma provocação dos incendiários de guerra, nada pôde alterar a política exterior soviética da grande estratégia da paz, que constitui, graças a Lenin e Stalin a sua razão de ser.

A URSS jamais pegou em armas, a não ser para assegurar sua própria defesa, proteger suas fronteiras e salvaguardar as conquistas da Revolução de Outubro; não fez mais do que usar do direito legítimo de combater pela sua existência, sempre que esta foi ameaçada, seja de 1918 a 1920, quando quatorze potências se lançaram contra ela, seja de 1941 a 1945, contra a agressão hitlerista. E em cada uma dessas ocasiões os agressores foram bravamente repelidos e derrotados.

Do esmagamento dos intervencionistas à grande guerra pela sua independência e pela libertação dos povos escravizados pelo hitlerismo, a União Soviética praticou, com firmeza inquebrantável e desinteresse sem igual, uma ação pacífica de grande importância.

A Política Exterior da URSS

Cada um dos atos da política exterior da URSS se coloca no plano geral da luta consequente para a salvaguarda de suas fronteiras, para a colaboração com os outros países, quaisquer que sejam seus regimes internos, para a organização da segurança coletiva, para a denúncia e o isolamento dos incendiários de guerra.

Até a deflagração da segunda guerra mundial, esta política compreende:

  • a anulação dos tratados desiguais impostos pela Rússia tzarista aos povos vizinhos, e a conclusão, entre 1919 e 1922, de novos acordos, baseados na igualdade e no respeito à soberania nacional, com o Afeganistão, o Iran, a Turquia, a Mongólia e a China;

  • o estabelecimento de relações diplomáticas e comerciais com as potências capitalistas que tiveram de reconhecer, oficialmente, em 1924, a existência da União Soviética (principalmente a Inglaterra, a Itália e depois a França) e admitir assim a possibilidade de cooperação com ela;

  • a formulação, pela URSS, de propostas práticas de desarmamento, enunciadas já em princípio nas Conferências Internacionais de Gênova e Haia, em 1922, e retomadas, em termos concretos, imediatamente realizáveis, em Genebra, em 1927 e em 1932;

  • a adesão da URSS à Sociedade das Nações, em 1934, a despeito das fraquezas desta última, com o objetivo de estancar o desencadeamento de uma guerra e de isolar os provocadores fascistas que se mostravam cada vez mais agressivos;

  • a conclusão de pactos de não agressão e de assistência mútua, com o objetivo de consolidar a segurança dos países ameaçados pelas tendências agressivas da Alemanha fascista (pactos com a França e depois com a Tchecoslováquia, em 1935) ou do Japão militarista (pacto de não agressão com a China, em 1937);

  • a proposta de medidas gerais de segurança coletiva, capazes de barrar ainda os agressores no caminho da guerra, a denúncia do perigo da política muniquista de não-intervenção e de encorajamento dos fascistas provocadores de guerra, praticada então pelos dirigentes anglo-franceses com o apoio dos imperialistas americanos, de 1938 a 1939.

Vinte anos de esforços constantes, da União Soviética, para unir todas as forças interessadas na defesa da paz, chocaram-se com as intrigas das potências imperialistas; algumas destas constituíram, em torno aos países do Eixo, um campo fascista da guerra de agressão para uma nova repartição do mundo; as outras "deixavam fazer" e encorajavam, às escondidas, os agressores, atraiçoando os interesses nacionais dos povos, e sabotavam deliberadamente a organização da paz, em lugar de tratar de defender a si própri