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"As questões da Luta Nacional e Colonial depois da II Guerra Mundial"


Em imensas extensões do globo e em todos os continentes do mundo desenvolve-se a luta dos povos oprimidos pela sua libertação. Esta luta já conquistou grandes vitórias nos países que ficam na parte especificamente oriental da Ásia. Aos nossos olhos a Mongólia, outrora o mais retrógrado dos países atrasados, tendo escapado ao penoso caminho do desenvolvimento capitalista, lança os fundamentos da transição à construção socialista.

O povo da Coréia que, no decurso de longas dezenas de anos era objeto da mais cruel e feroz exploração dos barões japoneses, que “niponizavam”, zelosamente, o povo coreano, a fim de sufocar a sua cultura e extirpar o seu sentimento de dignidade nacional, tornou-se senhor do seu próprio destino na maior parte do território de seu país.

Finalmente, o grande povo chinês, cujas riquezas há mais de um século atraiam os olhares cobiçosos dos capitalistas estrangeiros, missionários e colonizadores, generais e militaristas, diplomatas e banqueiros, povo que sofreu muitas desgraças e humilhações, povo cuja terra foi dividida e reduzida a pedaços pelos saqueadores ingleses, franceses, japoneses e outros, povo que ainda ontem os intervencionistas americanos tentavam sufocar com a sua pretensa “ajuda”, este povo já conquistou uma grande vitória de significação histórica. Foi proclamada a República Popular da China, criou-se o governo popular central à cuja frente se encontra o célebre chefe dos comunistas chineses, Mao Tse-Tung. A bandeira da democracia popular tremula vitoriosamente sobre os centros mais populosos e mais importantes, sobre cidades industriais – berço da classe operária chinesa que marcha à frente do povo.

A Ásia Sul-Oriental, antigo campo de opressão e exploração colonial, transformou-se em arena de luta sangrenta e tenaz dos povos revoltados contra os escravizadores imperialistas.

Os imperialistas e seus lacaios nativos recorrem ao terror sangrento, cárceres e à força, às provocações mais vis, a fim de continuar a manter sob sua dominação os povos da Índia, do Oriente Próximo, da América Central e da América do Sul.

Mas até mesmo o continente mais atrasado, isto é, a África, já começa a preocupar seriamente os senhores coloniais com as manifestações ainda débeis, mas que se intensificam de maneira irrefreável da resistência popular aos opressores civilizados. A sublevação heroica do povo malgaxe em Madagascar – nesta imensa ilha, situada nas proximidades do litoral africano, distante dos centros da luta revolucionária, carecendo de informações verdadeiras sobre a vida e a luta dos outros povos, oculta pela cortina de ferro do império colonial francês – esta sublevação heroica, afogada no sangue, iluminou como um relâmpago a tensa situação que impera nos mais ocultos e mais isolados cantos do tenebroso reino dos bandidos imperialistas.

Nova Fase da Luta de Libertação Nacional das Colônias e Semicolônias

Os povos das colônias e das semicolônias não querem mais viver à maneira antiga. A questão não reside apenas em que para eles se tornaram insuportáveis as cadeias da escravidão colonial. A questão reside em que perceberam a possibilidade de quebrar estas cadeias, adquiriram fé nas suas forças e fé no futuro.

O camarada Stálin afirmou que a primeira guerra mundial e a vitória da revolução na URSS «abalaram as bases do imperialismo nos países coloniais e dependentes, que a autoridade do imperialismo nestes países já se acha minada, que não tem mais forças para continuar a dominar à maneira antiga nestes países. A segunda guerra mundial, a destruição dos agressores fascistas, a vitória mundialmente histórica da URSS e a separação, do sistema capitalista, de uma série de países que empreenderam o caminho do desenvolvimento socialista num grau ainda maior, sem precedentes, minaram a autoridade do imperialismo nos países coloniais e dependentes, aprofundaram a crise do sistema colonial surgindo como importantíssima parte integrante da crise geral do capitalismo.

Os povos coloniais e semicoloniais observaram com os seus próprios olhos o poder das forças que resistem ao imperialismo, a bancarrota dos impérios coloniais fascistas, a fraqueza e a covardia da «raça» inglesa dos velhos senhores coloniais, a instabilidade do domínio dos seus opressores. É possível, por exemplo, aos povos da Birmânia esquecerem como se comportaram vergonhosamente os «patrões» ingleses no período da segunda guerra mundial? Ou será que os povos das Filipinas não tiveram a possibilidade de observar as manifestações de todas as «qualidades» do furioso general Mac Arthur – da covardia à traição? Será que muitos povos da Ásia não se convenceram, pela sua própria experiência, de que os colonizadores japoneses ou os americanos os franceses ou os italianos, se “diferenciam” um do outro tanto quanto um diabo azul se distingue de um diabo branco?

Os povos das colônias e semicolônias, estimulados pelas gloriosas vitórias da URSS, pela destruição do fascismo, pelo desmascaramento da bárbara ideologia do racismo, pelo enfraquecimento dos seus antigos «patrões» coloniais, que eles aprenderam a considerar com o maior desprezo precisamente nos anos da segunda guerra mundial, e impregnados de uma nova energia e fé nas suas forças, desfraldaram a bandeira de luta pela sua liberdade e pela sua independência.

A luta armada dos povos de uma série de países coloniais e dependentes pela sua soberania e independência nacional testemunham não apenas a ampliação do campo da luta de libertação nacional mas também a elevação da qualidade do seu nível. A luta armada pela criação de repúblicas independentes na Indonésia e na Indochina, a luta armada na Malaia e Birmânia, as sublevações camponesas na Índia e, por fim, a vitoriosa guerra de libertação do povo chinês – constituem testemunho brilhante de que o movimento de libertação nacional penetrou numa nova e mais elevada etapa do seu desenvolvimento após a segunda guerra mundial.

O papel dirigente da classe operária e de sua vanguarda – os Partidos Comunistas – assume uma significação decisiva no movimento de libertação nacional nos mais importantes países coloniais e semicoloniais. Agora já podemos assinalar com toda segurança que, na maioria dos países coloniais e semicoloniais e, em primeiro lugar nos países onde a luta contra o imperialismo assumiu um caráter mais agudo, a classe operária assume o papel de dirigente reconhecido na revolução colonial, e os Partidos Comunistas – diretamente ou por meio de organizações de massas mais amplas –

dirigem o movimento de libertação nacional.

Os Objetivos do Imperialismo nas Colônias e Semicolônias

Não é preciso dizer que é impossível falar-se do desenvolvimento da luta nacional nas colônias e semicolônias, sobre o caráter desta luta, sobre a sua direção, sobre as suas tendências em separado das condições internacionais gerais. Não é difícil perceber que o próprio ascenso e os próprios êxitos do movimento de libertação nacional depois da segunda guerra mundial se manifestaram inteiramente como resultado da modificarão da correlação das forças de classe em escala internacional em favor da democracia e do socialismo, em prejuízo do imperialismo, como resultado do aumento do poderio da URSS. Tal fato é confirmado por toda a marcha do desenvolvimento histórico deste após-guerra.

A política agressiva dos Estados Unidos, o crescimento da expansão colonial americana depois da segunda guerra mundial, a formação do bloco imperialista anglo-americano, dirigido contra a URSS, contra os países de democracia popular, contra os movimentos de libertação nacional, por um lado, e, por outro lado, o apoio ativo que a União Soviética presta aos povos que lutam pela sua libertação, condicionaram a intensificação da inclinação natural dos países coloniais e dependentes para o campo anti-imperialista e democrático, dirigido pela União Soviética, o Estado socialista. No fortalecimento do campo democrático encontra-se a garantia dos êxitos ulteriores da luta de libertação nacional dos povos coloniais e semicoloniais. Ao mesmo tempo, a formação e a luta dos dois campos – o campo da democracia e o campo do imperialismo – aguçaram a luta de classes em todos os países, possibilitando uma delimitação mais rápida e mais clara das forças de classe antagônicas também nos países coloniais e dependentes.

O ímpeto e os êxitos dos movimentes populares na Ásia alarmam seriamente o campo imperialista. Causam uma particular contrariedade aos pretendentes americanos ao domínio mundial, desmascarando o aventureirismo de seus planos e cálculos. O imperialismo americano, que se encontra à frente do campo antidemocrático e que aspira o domínio mundial, tornou-se o dirigente dos Estados colonialistas, o gendarme principal que tenta salvar os imperialistas dos movimentos progressistas e democráticos em todo o mundo, que tenta sufocar a luta de libertação nacional em todas as colônias e semicolônias. Os imperialistas americanos dos Estados Unidos consideram as possessões coloniais de qualquer potência imperialista como uma possessão potencialmente sua, e, lançando mão de vários métodos de pressão política, econômica e militar sobre os países marshalizados (Inglaterra, França, Holanda e Bélgica) vencem a resistência de seus concorrentes e obrigam-nos a seguir na maioria das colônias uma política que corresponde aos interesses do capital monopolista americano.

Esta política é ditada antes de tudo pelos interesses estratégicos do agressivo bloco imperialista anglo-americano. Esta política está dirigida no sentido do aproveitamento dos recursos humanos e materiais das colônias e semicolônias, e, em primeiro lugar, da obtenção de mão de obra barata ou de graça, de carne para canhão e matérias primas estratégicas com o objetivo da preparação de uma nova guerra mundial. Esta política estabelece como tarefa o aproveitamento dos territórios das colônias e semicolônias na qualidade de praças de armas de guerra e bases das forças armadas anglo-americanas. Esta política, por fim, significa a repressão cruel dos movimentos de libertação nacional no mundo colonial.

Os Truman e os Bevin têm em vista, por exemplo, um aproveitamento estratégico conjunto da África na qualidade de praça de armas gigantesca para a nova guerra mundial e ao mesmo tempo como fonte de matérias primas estratégicas e trabalho escravo.

A vitória da democracia na China provoca nos imperialistas anglo-americanos a tendência a organizar o seu gênero de «cortina» ou «barreira» a fim de defender a esfera da sua exploração colonial na Ásia Sul-Oriental e do Sul. Os imperialistas encaram com um pavor mortal a possibilidade do estabelecimento de um contato direto entre a China libertada e o Vietnã, a Indonésia, a Malaia e Birmânia, nas quais também se desenvolve uma luta incessante dos povos pela sua libertação. Wall Street e a City têm razões para temer também pela Índia, onde não podem deixar de chegar os novos ventos que sopram da China.

Se o pacto de agressão do Atlântico Norte, dirigido contra a URSS e os países de democracia popular, contém artigos que obrigam os seus participantes a tomar medidas policiais conjuntas contra as forças democráticas e, em primeiro lugar, contra o movimento operário nos países da Europa Ocidental, os pactos do Pacífico e do Mediterrâneo, por sua vez, preparados pelos imperialistas, tendo a mesma tendência antissoviética, estão além disso especialmente orientados contra o movimento de libertação nacional dos povos coloniais.

O Nacionalismo Burguês a Serviço da Dominação Imperialista

A correlação de forças, porém, entre a democracia e o imperialismo modificou-se agora em tal grau em favor da democracia que os imperialistas, cada vez mais frequentemente, fracassam todas as vezes em que tentam, na luta contra a democracia, pôr em prática, à maneira antiga, os métodos de aberta intervenção armada. Temos diante de todos nós a “experiência” da China e do Vietnã, dolorosa para os imperialistas. Por isso, não renunciando à política de guerra e de intervenção os colonizadores tentam mascarar esta política por todas as formas. Cada vez com maior frequência a intervenção imperialista se realiza sob a máscara de “ajuda”, de “apoio”, de “defesa” com devotas referências à Organização das Nações Unidas.

O ascenso sem precedentes da luta de libertação nacional dos povos dos países dependentes e coloniais depois da segunda guerra mundial, o nível elevado desta luta e, principalmente, a influência revolucionária que exerce sobre os países coloniais e semicoloniais o campo anti-imperialista e democrático, que se fortalece incessantemente, obrigam os imperialistas a manobrar, a modificar as formas de seu domínio nas colônias, a recorrer a métodos demagógicos com o objetivo de enganar os povos escravizados e de introduzir a divisão na sua frente nacional anti-imperialista. Os imperialistas, em grau cada vez mais elevado, se apoiam não somente nos elementos feudais latifundiários mas também na grande burguesia das colônias e semicolônias. Presa do medo diante da luta nacional libertadora dos povos, que atualmente atinge a um nível particularmente elevado e se encontra sob a hegemonia da classe operária, em face da sempre crescente atividade revolucionária das amplas massas populares, a grande burguesia das colônias e das semicolônias se passa definitivamente para o campo da reação imperialista, trai os interesses de seus países e povos.

Inquietos ante o ímpeto da luta de libertação nacional, ante o crescimento da consciência política dos trabalhadores e o papel dirigente da classe operária e dos Partidos Comunistas nos movimentos revolucionários nas colônias e semicolônias, os colonizadores imperialistas, com a ajuda da grande burguesia, aproveitando-se dos preconceitos religiosos, de raça e outros, procuram minar a consciência das massas com o veneno do nacionalismo burguês, tentando estimular as tendências chauvinistas.

A propaganda nacionalista burguesa representa nos planos de rapina dos imperialistas um papel de magna importância. Ela não visa apenas dividir e desunir os povos das colônias e semicolônias no interesse do imperialismo, mas também estabelece como sua tarefa neutralizar o movimento nacional-libertador, dirigindo-o para o caminho falso do nacionalismo sob a direção da burguesia reacionária e dos nacional-reformistas, afastando as massas dos métodos revolucionários e dos objetivos da luta revolucionária. O nacionalismo burguês nas colônias e semicolônias procura manter as massas populares sob a direção política e ideológica da grande burguesia que, na maioria dos países coloniais, já se passou para o campo imperialista. O nacionalismo burguês se dirige especialmente contra a incorporação dos movimentos nacionais libertadores nos países coloniais e dependentes ao campo anti-imperialista e democrático. O nacionalismo burguês é a arma de maior importância ideológica de que lança mão o bloco de agressão anglo-americano com o objetivo de salvar o abalado sistema colonial do imperialismo.

Por isso, um desmascaramento impiedoso da reacionária ideologia nacionalista burguesa nas suas diversas formas – seja o kemalismo ou o gandismo, o sionismo ou o pan-arabismo – apressa o processo de libertação nacional e colonial dos povos dos países coloniais e dependentes, desfaz os cálculos de provocarão dos imperialistas e de seus agentes.

Da Pseudo Democracia Burguesa aos Métodos de Terror Fascista

Assim como, nos países capitalistas desenvolvidos, os socialistas de direita, traidores da classe operária, tentam espalhar a podre teoria da possibilidade de um caminho intermediário, um «terceiro caminho», entre o comunismo e o capitalismo, mas, na realidade, servindo ativamente às forças da reação imperialista, que planejam a guerra contra a URSS e os países de democracia popular, os nacional-reformistas dos países coloniais e semicoloniais afirmam mentirosamente o seu desejo de “manterem-se afastados” da luta entre os dois campos, de manter a sua “neutralidade” em relação ao “conflito ideológico”, como dizem, entre a URSS e os Estados Unidos, mas na realidade, formando um só bloco com a burguesia reacionária, caluniam a URSS e ajudam ativamente os imperialistas.

Todos sabem do papel infame que representou Sutan Sharir na Indonésia, vendido ao imperialismo americano. Não há nenhuma calúnia, por mais odiosa que seja, que os pretensos "socialistas" indianos não tenham espalhado sobre a URSS. O títere da Inglaterra na Birmânia – Takin Nu – também se considera “socialista”.

O bloco dos colonizadores imperialistas anglo-americanos com a grande burguesia e com os seus lacaios nacional-reformistas na maioria dos países coloniais e semicoloniais permite aos imperialistas se aproveitar mais amplamente das ilusões democrático-burguesas reformistas para enganar as massas, permite-lhes trocar as formas descaradas e grosseiras e os métodos de domínio colonial por formas mais refinadas e mascaradas como, por exemplo, a concessão do estatuto de domínio, da «independência», o estabelecimento de relações entre “aliados” por meio de acordos baseados numa formal igualdade de direitos de ambos os lados.

Na realidade, porém, a “Igualdade de direitos” entre as Filipinas e os Estados Unidos, ou entre o Iraque e a Inglaterra não passa de uma farsa, como também não passam de farsas as tentativas da burguesia francesa de mascarar sob a etiqueta da “União Francesa” a opressão colonial nas suas possessões de além-mar.