"A sociologia como apologética da sociedade capitalista"


Para tanto, faz-se mister, como sempre, realizar manobras de ocultação além do céu pelas intervenções da autoridade, as vozes dos pensadores, ou mesmo simples indagadores que repontam do seio da população e ousam declarar ser falsa a doutrina que oficialmente se ensina nas escolas montadas pelas camadas dirigentes e poderosas, com o duplo fim de reproduzirem-se a si mesmas e enfeitiçarem e transviarem o pensamento de antagonistas nascentes. Nesta altura, a sociologia, que, conduzida pelo rumo legítimo, tem direito a ser reconhecida como ciência real, acha-se completamente desvirtuada. Sendo uma simples forma de ideologia da classe dominante, com a missão rigorosamente vigiada de exalta-la, em nada se distingue da "teologia", pois igualmente tem por objetivo especular sobre os seres celestes que povoam, entre as massas sem fim de meros seres humanos miseráveis e incapazes, o firmamento da sociedade. Os deuses do regime capitalistas têm direito a uma ciência particular que os estuda, escreve-lhes, como outrora Hesíodo, a mitológica genealogia, com o fito de destaca-los em geral dos mortais, de estudar-lhes os atributos excelsos, especialmente a maneira graças à qual conseguiram elevar-se acima do rés-do-chão comum e transmutarem-se nos supralunares que hoje são. A ciência que tem por função realizar este estudo e as respectivas indagações e análises, compendiando os dados e estruturando-os logicamente mediante várias "teorias" explicativas e exaltadoras, verdade é que quase sempre à custa de terríveis brigas de bastidores, mas cuidadosamente escondidas do grande público pelo voluntário distanciamento dos palcos universitários e pela linguagem hermética e confusa dos manuais e obras teórica, é uma ciência que, embora seus executantes insistam em chamar de sociologia, para nós deverá ser denominada sociologética.

Por este termo entendemos aquilo que de fato é a apológética da sociedade capitalista. Assim como a outra faz a ciência dos "deuses" imateriais, esta faz a dos deus materiais, os industriais, latifundiários, banqueiros, negociantes, políticos e sua guarda pretoriana, os "sábios" da mesma parceria, e todos quantos compõem a classe que tem por traço comum o não-trabalhar, a captura do lucro ou das propinas, chamadas então de ordenados de altos assessores, personagens fontes e grão-mestres do ensino subserviente. Neste conjunto destacam-se com especial relevo os que se julgam sociólogos, e fazem figurar essa palavra em seus cartões de visita, quando na verdade são apenas "sociologetas". A função decisiva que lhes cabe é a de preparar a "sociologia" apologética, mesmo que não haja unidade de pontos de vista, circunstância muito de desejar, pois além de aumentar a confusão intelectual, traçar rumos divergentes entre os quais se perde necessariamente a consciência ingênua, dá-lhes o direito de proclamar um outro valor, que elevam aos píncaros da importância e dignidade, a "democracia", a liberdade de opinião. Com tamanho subterfúgio, não só se exaltam a si mesmos, mas, muito de indústria e bem a propósito, dão igual significado moral e cultural às suas elucubrações, o que na prática quer dizer põe-nos a todos a salvo uns dos outros, embora terçam armas em violentos combates verbais e digressões acadêmicas, porque todos têm de se tolerar uns aos outros, do contrário a pretensão de esmagar algum ou de expulsá-lo do séquito é estigmatizada como atentado à liberdade de pensamento, como crime contra a "democracia". Garantidos uns contra os outros e patrocinados todos pela classe sobrepairante, que se mostra generosa em retribuir-lhes os serviços, nada mais resta aos sociologetas do que abrir as asas da imaginação e criar as inumeráveis sociologias, que podem ser o que bem lhes convier, desde que nada tenham em comum com a verdadeira teoria da sociedade humana. A sociologética é portanto uma forma de encobrimento da única e real ciência sociológica, que exige para se constituir a contribuição da lógica dialética, e por isso não se confunde com as poções que os sociologetas querem administrar aos estudiosos, com o fim de fazê-los perder o rumo da legítima compreensão da realidade.

Esta, como é evidente, só pode constituir-se em uma teoria global, que abranja a totalidade do processo histórico vivido pelos homens em comum, desde que se constituíram em espécie biologicamente distinta. Por isso não aceitas as falsas perspectivas "microssociológicas" e "macrossociológicas", termos que apenas servem para encobrir uma divisão desnorteadora da consciência científica, impedida que fica de abranger o processo unitário da existência social do homem no necessário enfrentamento com a natureza, explicando a origem das desigualdades econômicas e políticas cingidas entre eles, e oferecendo a solução teórica que deve orientar a substituição do pensar ingênuo pela inteligência crítica, com a panóplia de categorias objetivas, materiais e culturais que explicarão os fatos observados no presente ou registrados na crônica do passado. A divisão em macro e microssociologia é uma feitiçaria embusteira que propositadamente cria a ambliopia sociológica. A noção da unicidade do processo social possui culminante importância para desfazer o primário mas, em larga medida, eficaz do pensamento e reduzir na prática da convivência social o círculo de relações entre os homens. Se não são as classes, objetivamente originadas por condições reais, que se defrontam, então cada homem deve cada vez mais enquadrar-se em seu "grupo" profissional ou comunitário, e tentar conquistar para ele o máximo de benefícios, contra os interesses da sociedade inteira. Deste modo, a tese traduzida das metáforas ideológicas dos apologetas significa ficar livre a classe dominante para defender por todos os meios, lícitos e ilícitos, suas vantagens e privilégios, desconhecendo os motivos, e até a existência, dos outros "grupos", na verdade os direitos das massas oprimidas. Como a força bruta está frequentemente e em alguns países quase permanentemente do lado dos que estão de cima, não receiam seus porta-vozes ver tirada a confusão lógica, porém indesejável, que a mesma tese comportaria, a saber, que a sociedade, sob o disfarce da defesa particular dos propósitos de cada grupo, está travando uma ferrenha e incessante luta de classes que a liberdade teoricamente concedida aos outros "grupos", isto é, os de baixo, os antagonistas, os "pobres", justifica.

1975

Capítulo 25 da obra "A Sociologia dos Países Subdesenvolvidos".

Álvaro Vieira Pinto

NOVACULTURA.info

  • Facebook
  • Instagram
  • Twitter
  • YouTube