Engels: "Do Social na Rússia"


Sobre esta matéria, o senhor Tkatchov conta aos operários alemães que, em relação à Rússia, eu nem sequer possuo “poucos conhecimentos”, mas apenas “ignorância”, e sente-se, por isso, obrigado a explicar-lhes o verdadeiro estado das coisas e, nomeadamente, as razões pelas quais, precisamente agora, se poderia fazer na Rússia uma revolução social com a maior das facilidades, muito mais facilmente do que na Europa ocidental.

“Entre nós, não existe nenhum proletariado citadino, isto é, sem dúvida, verdadeiro; só que, por isso, também não temos nenhuma burguesia... os nossos operários terão meramente de lutar contra o poder político — o poder do capital, entre nós, está apenas em germe. E V., meu [caro] senhor, saberá bem que a luta com o primeiro é muito mais fácil do que com o último.”

O revolucionamento a que o socialismo moderno aspira é, em poucas palavras, a vitória do proletariado sobre a burguesia e a reorganização da sociedade pelo aniquilamento de todas as diferenças de classes. Para isso, requere-se não apenas um proletariado, que execute esse revolucionamento, mas também uma burguesia, em cujas mãos as forças produtivas sociais se tenham desenvolvido tanto que permitam o aniquilamento final das diferenças de classes. Entre os selvagens e semi-selvagens também não subsistem frequentemente quaisquer diferenças de classes, e todos os povos passaram por semelhante estado. Já não nos pode, por isso, ocorrer restabelecê-lo, porque é dele que, com o desenvolvimento das forças produtivas sociais, as diferenças de classes necessariamente provêm. Só num certo grau de desenvolvimento das forças produtivas sociais — e [num grau] muito alto mesmo para as condições do nosso tempo — se torna possível elevar a produção tão alto que a abolição das diferenças de classes possa ser um progresso real, possa ser duradoura, sem ocasionar uma estagnação ou mesmo um retrocesso no modo social de produção. As forças produtivas, porém, só alcançaram este grau de desenvolvimento nas mãos da burguesia. Por este lado, a burguesia também é, portanto, uma condição prévia de revolução socialista tão necessária como o próprio proletariado. Por conseguinte, uma pessoa que pode dizer que esta revolução é mais fácil de executar num país, porque, como ele não possui nenhum proletariado, também não possui nenhuma burguesia, só demonstra com isto que ainda tem de aprender o ABC do socialismo.

Os operários russos — e esses operários são, como o próprio senhor Tkatchov diz, “agricultores e, como tal, [não são] nenhuns proletários, mas proprietários” — têm, portanto, a coisa facilitada, porque não têm de lutar com o poder do capital mas “simplesmente com o poder político”, com o Estado russo. E esse Estado

“só de longe é que parece um poder... Ele não tem qualquer raiz na vida econômica do povo; ele não incorpora em si os interesses de qualquer estado [ou ordem social, Stand]... No vosso país, o Estado não é nenhum poder aparente. Apoia-se com ambos os pés no capital; ele incorpora em si” (!!) “certos interesses económicos... Entre nós, esta questão dá-se precisamente ao inverso — a nossa forma de sociedade deve a sua existência ao Estado, ao Estado que, por assim dizer, está suspenso no ar, que não tem nada de comum com a ordem social existente, que tem a sua raiz no passado, mas não no presente”.

Não nos detenhamos na representação confusa de que os interesses econômicos precisam do Estado, que eles próprios criam, para adquirirem um corpo, ou na afirmação ousada de que a forma da sociedade russa (à qual, contudo, também pertence a propriedade comunal dos camponeses) deve a sua existência ao Estado, ou na contradição de que este mesmo Estado “não tem nada de comum” com a ordem social existente que, contudo, deve ser a sua criação mais própria. Examinemos antes, de momento, esse “Estado que está suspenso no ar”, que também não representa os interesses de nem um único estado [Stand].

Na Rússia europeia, os camponeses possuem 105 milhões de deciatinas,(1) os nobres (como eu chamo aqui aos grandes proprietários fundiários, para encurtar) 100 milhões de deciatinas de terra, de que aproximadamente a metade cabia a 15 000 nobres que, portanto, possuíam em média, cada um, 3300 deciatinas. A terra dos camponeses só é, portanto, maior do que a terra dos nobres por uma ninharia. Os nobres, como se vê, não têm o mínimo interesse na subsistência do Estado russo, que os protege na posse de metade do país! Adiante. Os camponeses pagam anualmente pela sua metade 195 milhões de rublos em impostos fundiários, os nobres — 13 milhões! As terras dos nobres são, em média, duas vezes mais férteis do que as dos camponeses, porque, aquando da disputa na sequência do resgate da corveia, o Estado tirou aos camponeses não só a maioria da terra mas também a melhor, e atribuiu-a à nobreza e, a bem dizer, os camponeses tiveram de pagar à nobreza por esta terra pior o preço da melhor(2). E a nobreza russa não tem nenhum interesse na subsistência do Estado russo!

Os camponeses — na sua massa — ficaram, pelo resgate, numa situação altamente miserável, completamente insustentável. Não apenas se lhes tinha tirado a maior e a melhor parte da sua terra, de tal modo que, em todas as regiões férteis do Império, a terra dos camponeses é demasiado pequena — nas condições russas da agricultura — para que eles dela possam viver. Não só lhes foi estabelecido para ela um preço exagerado, que o Estado lhes adiantou e que eles têm agora de pagar ao Estado com juros e de amortizar gradualmente. Não só quase todo o peso do imposto fundiário foi descarregado sobre eles, enquanto a nobreza fica quase totalmente livre dele — de tal modo que só o imposto fundiário devorava todo o valor da renda fundiária da terra dos camponeses e mais, e que todos os ulteriores pagamentos que o camponês tem de fazer, e de que falaremos a seguir, são deduções directas da parte do seu rendimento que representa o salário. Não. Ao imposto fundiário, ao pagamento do juro e à taxa de amortização do adiantamento do Estado, acrescentam-se ainda os impostos provinciais e distritais da administração local recentemente introduzida. A consequência mais essencial desta “reforma” foi uma nova carga de impostos para os camponeses. O Estado reteve na totalidade as suas receitas, mas descarregou uma grande parte das despesas para as províncias e distritos que, para isso, impuseram novos impostos; e, na Rússia, é regra que os estados [Stände] superiores estejam quase livres de impostos e os camponeses paguem quase tudo.

É como se uma semelhante situação fosse criada para o usurário e, com o talento quase sem igual dos russos para o comércio em pequena escala, para a oportuna exploração da situação dos negócios e para a intrujice que dela é inseparável — já Pedro I sempre disse que um russo podia bem com três judeus —, o usurário em parte alguma está ausente. Quando se aproxima o tempo em que os impostos têm de ser pagos, vem o usurário, o kulaque — frequentemente um camponês rico da mesma comuna — e oferece o seu dinheiro sonante. Em quaisquer circunstâncias, o camponês tem de ter o dinheiro e tem de aceitar as condições do usurário sem resmungos. Com isto, ele só se mete ainda mais profundamente em embaraços, precisa cada vez mais de dinheiro sonante. No tempo das colheitas, vem o negociante de cereais; a precisão de dinheiro obriga o camponês a vender por qualquer preço uma parte do cereal de que ele e a sua família precisam para viver. O negociante de cereais espalha boatos falsos que baixam os preços, paga um preço mais baixo e, frequentemente, mesmo uma parte deste em toda a espécie de mercadorias avaliadas alto; pois o trucksystem(3) também está, altamente desenvolvido na Rússia. A grande exportação de cereais da Rússia repousa, como se vê, de um modo totalmente direto sobre a fome da população camponesa. — Uma outra espécie de exploração dos camponeses é esta: um especulador arrenda ao governo terras dominiais por muitos anos, amanha-as, ele próprio, enquanto elas dão um bom rendimento sem adubo; reparte-as, então, em parcelas e arrenda a terra esgotada por uma renda mais elevada aos camponeses vizinhos que com a sua parte de terra não têm o suficiente. Tal como atrás tínhamos o trucksystem inglês, temos agora aqui exatamente os middlemen(4) irlandeses. Em suma, não há país nenhum em que, apesar de todo o primitivismo selvagem da sociedade burguesa, o parasitismo capitalista esteja tão desenvolvido, cubra tanto e enrede tanto nas suas redes todo o país, toda a massa do povo, como, precisamente, na Rússia. E todos estes sugadores de camponeses não tinham qualquer interesse na subsistência do Estado russo, cujas leis e tribunais protegem as suas limpas e proveitosas práticas?

A grande burguesia de Petersburgo, Moscou, Odessa que, nos últimos dez anos, nomeadamente, por causa dos caminhos-de-ferro, se desenvolveu de um modo enormemente rápido e que, nos últimos anos de fraude, comicamente “faliu” juntamente com eles; os exportadores de cereais, de cânhamo, de linho e de sebo, cujo negócio se construía todo sobre a miséria dos camponeses; toda a grande indústria russa que subsiste apenas através dos direitos protecionistas que o Estado lhe concede — todos estes significativos elementos da população que crescem rapidamente não tinham qualquer interesse na existência do Estado russo? Para já não falar do inúmero exército de funcionários que inunda e pilha a Rússia e que lá forma realmente um estado [Stand]. E quando agora o senhor Tkatchov nos assegura que o Estado russo “não tem qualquer raiz na vida económica do povo, não incorpora em si os interesses de qualquer estado”, que ele está suspenso “no ar”, quer-me parecer que não é o Estado russo que está suspenso no ar mas antes o senhor Tkatchov.

É claro que a situação dos camponeses russos desde a emancipação da servidão se tornou uma situação insuportável e insustentável por muito tempo; que já por esta razão se aproxima uma revolução na Rússia. A questão é apenas qual pode ser, qual será, o resultado desta revolução? O senhor Tkatchov diz que ela será uma [revolução] social. Isto é pura tautologia. Toda a revolução real é uma [revolução] social, na medida em que leva ao poder uma nova classe e permite a esta modelar a sociedade à sua imagem. Mas ele quer dizer que ela será uma [revolução] socialista, que ela introduzirá na Rússia a forma de sociedade por que o socialismo oeste-europeu anseia, ainda antes de nós no Ocidente o conseguirmos — e isto em situações sociais em que tanto o proletariado como a burguesia aparecem apenas esporadicamente e num estádio de desenvolvimento baixo. E isto deve ser possível porque os russos são, por assim dizer, o povo eleito do socialismo e possuem o artel e a propriedade comunal da terra.

O artel — que o senhor Tkatchov só menciona de passagem, mas que nós incluímos aqui, porque já desde o tempo de Herzen desempenhou para muitos russos um papel misterioso —, o artel é uma espécie de associação muito espalhada na Rússia, a forma mais simples de cooperação livre, tal como aparece na caça entre os povos caçadores. Palavra e coisa não são eslavas, mas de origem tártara. Ambas se encontram entre os Kirguizes, os Iakutes, etc, por um lado, assim como entre os Lapões, os Samoiedos e outros povos finlandeses, por outro lado(5). Por isso, o artel desenvolve-se na Rússia, originariamente, no Norte e no Oeste, em contato com finlandeses e tártaros, não no Sudoeste. O clima duro torna necessária a atividade industrial de diversas espécies, sendo, então, a falta de desenvolvimento urbano e de capital tanto quanto possível substituída por aquela forma de cooperação. — Uma das características mais assinaláveis do artel, a caução solidária dos membros uns pelos outros face a terceiros, repousa originariamente num laço sanguíneo de parentesco, como a garantia mútua [Gewere] dos antigos alemães, a vingança de sangue, etc. — Além disso, a palavra artel é usada na Rússia para toda a espécie, não só de actividade comunitária mas também de instituições comunitárias. A bolsa também é um artel(6). — Nos artéis de operários, é sempre escolhido um diretor (stárosta, mais velho), que se ocupa das funções de tesoureiro, guarda-livros, etc, quando necessário, de gerente, e que recebe uma paga particular. Semelhantes artéis têm lugar:

para empreendimentos passageiros, após cuja finalização se dissolvem;

para os membros de um e do mesmo ofício, por exemplo, carregadores, etc;

para empreendimentos duradouros, propriamente industriais.

São estabelecidos por um contrato assinado por todos os membros. Se os membros não conseguem reunir o capital necessário, o que muito frequentemente acontece, por exemplo, com as queijarias e pescarias (para redes, barcos, etc), o artel cai nas mãos do usurário que lhe adianta o que falta a juros altos e que, daí em diante, embolsa a maior parte da receita do trabalho. Explorados de um modo ainda mais horrível são, porém, aqueles artéis que se alugam no conjunto a um empresário como pessoal assalariado. Eles dirigem eles próprios a sua actividade industrial e poupam, por isso, ao capitalista os custos da vigilância. Este aluga aos membros cabanas para habitação e adianta-lhes meios de vida, pelo que, então, se desenvolve de novo o mais horrível trucksystem. Acontece assim com os lenhadores e os resineiros no gouvernement(7) de Arkhánguelsk, com muitos ofícios na Sibéria, etc. (Cf. Fleróvski, Polozenie rabocago klassa v Rossiji, A Situação da Classe Operária na Rússia, Petersburgo, 1869.) Aqui, portanto, o artel serve para facilitar essencialmente ao capitalista a exploração dos operários assalariados. Por outro lado, porém, também há artéis que empregam eles próprios ainda operários assalariados que não são membros da associação.

Vê-se que o artel é uma sociedade cooperativa que nasceu naturalmente e que, portanto, ainda está muito pouco desenvolvida e que, como tal, não é de modo nenhum exclusivamente russa, nem mesmo eslava. Semelhantes sociedades formam-se onde quer que a necessidade disso subsista. [Acontece] assim na Suíça com as leitarias, em Inglaterra com os pescadores, onde são mesmo de espécie muito diversa. Os cabouqueiros silésios (os alemães, não os polacos), que nos anos quarenta construíram tantos caminhos-de-ferro alemães, estavam organizados em completos artéis. A predominância desta forma na Rússia prova, é certo, a existência de um forte impulso de associação no povo russo, mas não chega ainda a provar a capacidade dele para, com a ajuda desse impulso sem mais, saltar do artel para a ordem socialista da sociedade. Para isso, é preciso, antes de tudo, que o próprio artel se torne capaz de desenvolvimento, que se despoje da sua figura natural — em que, como vimos, serve menos os operários do que o capital — e que se eleve, pelo menos, ao nível das sociedades cooperativas oeste-europeias. Mas, se nos for alguma vez permitido dar crédito ao senhor Tkatchov (o que, sem dúvida, depois de tudo aquilo que se passou é mais do que arriscado), de modo algum é este o caso. Pelo contrário, ele assegura-nos com um orgulho altamente indicativo do seu ponto de vista:

“No que respeita às associações cooperativas e de crédito segundo o modelo alemão” (!) “artificialmente transplantadas para a Rússia desde há pouco tempo, foram estas recebidas com a mais completa indiferença pela maioria dos nossos operários e foram, quase por toda a parte, um fiasco.”

A sociedade cooperativa moderna provou, pelo menos, que pode empreender grande indústria por conta própria com proveito (fiação e tecelagem no Lancashire). O artel, até agora, não só é incapaz disso como perecerá mesmo ante a grande indústria se não se desenvolver mais.

A propriedade comunal dos camponeses russos foi descoberta por volta do ano de 1845 pelo conselheiro do governo prussiano Haxthausen e trombeteada ao mundo como algo de totalmente maravilhoso, apesar de Haxthausen ainda poder encontrar restos suficientes dela na sua terra natal da Vestefália e de, como funcionário do governo, estar mesmo obrigado a conhecê-la exactamente. Foi só de Haxthausen que Herzen, ele próprio proprietário fundiário russo, soube que os seus camponeses possuíam a terra em comum e aproveitou então a oportunidade para apresentar os camponeses russos como os verdadeiros portadores do socialismo, como comunistas natos, em oposição aos operários do Ocidente europeu envelhecido, apodrecido, que primeiro artificialmente teriam de se violentar pelo socialismo. De Herzen este conhecimento passou a Bakúnine e de Bakúnine ao senhor Tkatchov. Ouçamos este [último]:

“O nosso povo... está, na sua grande maioria... impregnado pelos princípios dos bens comuns; é, se assim se pode dizer, instintivamente, tradicionalmente, comunista. A ideia da propriedade colectiva está tão profundamente entrelaçada com toda a visão do mundo” (veremos já quão longe o mundo do camponês russo alcança) “do povo russo, que agora, quando o governo começa a compreender que , esta ideia não é compatível com os princípios de uma sociedade "bem-ordenada" e quer, em nome destes princípios, inculcar a ideia da propriedade individual na consciência do povo e na vida do povo, só pode alcançar isso com a ajuda da baioneta e do cnute. Resulta daqui que o nosso povo, mal-grado a sua ignorância, está muito mais perto do socialismo do que os povos da Europa ocidental, apesar de serem mais cultos.”

Na realidade, a propriedade comunal da terra é uma instituição que encontramos em todos os povos indo-germânicos num estádio de desenvolvimento baixo, da Índia até à Irlanda, e mesmo entre os malaios que se desenvolvem sob a influência indiana, por exemplo, em Java. Ainda em 1608, no Norte recém-conquistado da Irlanda, a propriedade comunal(8) da terra, legalmente subsistente, servia de pretexto aos ingleses para declarar a terra sem dono e, como tal, para a confiscar em benefício da Coroa. Na Índia, subsiste até hoje toda uma série de formas da propriedade comunal . Na Alemanha, ela estava generalizada; os terrenos comunais que aqui e além ainda se encontram são um resto dela e, frequentemente, também se encontram ainda vestígios claros — repartições temporárias da terra comunal, etc. —, nomeadamente, nas montanhas. A documentação e pormenores exactos ligados à propriedade comunal vetero-alemã podem consultar-se nos diversos escritos de Maurer que, para este ponto, são clássicos. Na Europa ocidental, incluindo a Polónia e a Pequena Rússia, num certo estádio do desenvolvimento social, esta propriedade comunal tornou-se um entrave, um grilhão, para a produção rural e foi cada vez mais eliminada. Na Grande Rússia (isto é, na Rússia propriamente dita), pelo contrário, conservou-se até hoje e fornece, antes do mais, a prova de que a produção rural e as condições rurais da sociedade que lhe correspondem se encontram aí ainda num estádio muito pouco desenvolvido, o que também é realmente o caso. O camponês russo vive e trabalha apenas na sua comuna; todo o restante mundo só existe para ele na medida em que se imiscua nessa sua comuna. Tanto é este o caso que, em russo, a mesma palavra “mir” significa, por um lado, “o mundo”, mas, por outro lado, “comuna de camponeses”. “Ves' mir” — “o mundo inteiro” significa, para os camponeses, a reunião dos membros da comuna. Quando, portanto, o senhor Tkatchov fala da “visão do mundo” dos camponeses russos, manifestamente traduziu erradamente o russo “mir”. Um tal isolamento completo das comunas individuais umas das outras que, em todo país, cria interesses semelhantes mas que são, precisamente, o contrário de interesses comuns, é a base natural para o despotismo oriental; e, desde a Índia até à Rússia, esta forma de sociedade, onde prevaleceu, produziu-o sempre e encontrou sempre nele o seu complemento. Não meramente o Estado russo, em geral, mas mesmo a sua forma específica, o despotismo dos tsares, em vez de estar suspenso no ar, é um produto necessário e lógico das condições russas, da sociedade com as quais, segundo o senhor Tkatchov, ele “não tem nada de comum”! — O ulterior desenvolvimento da Rússia numa orientação burguesa aniquilaria também aí a pouco e pouco a propriedade comunal, sem que o governo russo precisasse de intervir com “baioneta e cnute”. E isto tanto mais quanto a terra comunal, na Rússia, não é cultivada em comum pelos camponeses e só o produto é repartido, como ainda é o caso em alguns lugares da Índia; pelo contrário, de tempos a tempos, a terra é repartida entre os chefes das famílias singulares e cada uma cultiva para si a sua parte. É, portanto, possível uma diversidade muito grande de prosperidade entre os membros da comuna e, na realidade, ela subsiste. Quase por toda a parte, há entre eles alguns camponeses ricos — aqui e ali milionários — que fazem de usurário e sugam a massa dos camponeses. Ninguém sabe isto melhor do que o senhor Tkatchov. Enquanto faz crer aos operários alemães que só com cnute e baioneta podia a “ideia da propriedade colectiva” ser extirpada dos camponeses russos, desses comunistas instintivos, tradicionais, conta ele na p. 15 da sua brochura russa:

“No meio do campesinato forma-se uma classe de usurários (kulakov), de compradores e arrendadores de terrenos camponeses e nobres — uma aristocracia mujique.”

São a mesma espécie de vampiros que atrás descrevemos mais de perto.

Aquilo que deu o golpe mais duro na propriedade comunal foi de novo o resgate da corveia. À nobreza foi distribuída a maior e a melhor parte do solo; para os camponeses mal ficou o suficiente — frequentemente, nem o suficiente — para viverem. Além disso, as florestas foram atribuídas à nobreza; a madeira para queimar, trabalhar e construir, que anteriormente o camponês aí podia apanhar de graça, tinha agora de a comprar. Assim, o camponês não tinha agora mais do que a sua casa e a terra nua, sem os meios para a cultivar e, em média, não tinha terra suficiente para o manter a si e à sua família de uma colheita a outra. Em semelhantes condições e sob a pressão de impostos e usurários, a propriedade comunal da terra já não é mais nenhum benefício, torna-se um entrave. Os camponeses fogem frequentemente dela, com ou sem família, para se sustentarem como operários ambulantes e deixam para trás a sua terra(9).

Vê-se que a propriedade comunal na Rússia já passou há muito o seu tempo de florescimento e, segundo todas as aparências, vai, pelo contrário, para a sua desintegração. Contudo, existe inegavelmente a possibilidade de elevar esta forma da sociedade a uma superior, no caso de ela se conservar até que as circunstâncias estejam maduras para isso e, no caso de ela se mostrar capaz de desenvolvimento, de modo que os camponeses não mais cultivem a terra separadamente, mas em conjunto(10), de a elevar a essa forma superior sem que os camponeses russos tenham de passar pelo estádio intermédio da propriedade burguesa de parcelas. Porém, isto só pode então acontecer se, na Europa ocidental, ainda antes do descalabro total da propriedade comunal, for executada vitoriosamente uma revolução proletária que forneça ao camponês russo as condições prévias para essa elevação — nomeadamente, também as materiais — de que ele precisa que mais não seja para o revolucionamento, necessariamente a ela ligado, em todo o seu sistema de agricultura. É, portanto, pura intrujice quando o senhor Tkatchov diz que os camponeses russos, apesar de “proprietários”, estão “mais perto do socialismo” do que os operários desprovidos de propriedade da Europa ocidental. Totalmente ao contrário. Se alguma coisa ainda pode salvar a propriedade comunal russa e dar-lhe oportunidade de se transformar numa forma nova, realmente viável — é uma revolução proletária na Europa ocidental.

O senhor Tkatchov trata com a mesma ligeireza da revolução política como da económica. O povo russo, conta ele, “protesta incessantemente” contra a escravidão, agora sob a forma de “seitas religiosas... recusa de impostos... bandos de ladrões” (os operários alemães congratular-se-ão pelo facto de, depois disto, Schinderhannes ser o pai da social-democracia alemã) “... fogos postos... levantamentos... e, por isso, pode chamar-se ao povo russo um [povo] instintivamente revolucionário”. E, com isto, Tkatchov está convencido “de que é apenas preciso acordar, em múltiplos lugares, ao mesmo tempo, o sentimento acumulado de exasperação e de descontentamento que... sempre ferve no peito do nosso povo”. Então “a unificação das forças revolucionárias realizar-se-á já por si e a luta... terá de ser favorável à causa do povo. A necessidade prática, o instinto de autoconservação” conseguirá, então, totalmente por si, “uma aliança firme e indissolúvel entre as comunas que protestam”.

Mais fácil e agradavelmente não se pode imaginar uma revolução. Ataca-se em três ou quatro lugares, ao mesmo tempo, e o “revolucionário instintivo”, a “necessidade prática”, o “instinto de autoconservação”, fazem tudo o resto “já por si”. Simplesmente não é compreensível por que é que, com esta facilidade toda, a revolução não está já há muito feita, o povo libertado e a Rússia transformada no país socialista modelo.

De facto, as coisas passam-se de um modo totalmente diferente. O povo russo, esse revolucionário instintivo, fez, sem dúvida, inúmeros levantamentos isolados de camponeses contra o nobre e contra o funcionário individual, mas nunca contra o tsar, a não ser quando um falso tsar se punha à cabeça dele e reclamava o trono. O último grande levantamento camponês, sob Catarina II, só foi possível porque Emelian Pugatchov se fez passar por esposo dela, Pedro III, que não teria sido assassinado pela mulher, mas destronado e encarcerado, e que agora porém tinha fugido. O tsar, pelo contrário, é para o camponês russo o deus terreno: Bog vysok, Car daljok, deus está alto e o tsar está longe, é o seu grito de aflição. Não há dúvida nenhuma de que a massa da população camponesa, nomeadamente desde o resgate das corveias, foi reduzida a uma situação que a força cada vez mais a uma luta também contra o governo e o tsar; mas o senhor Tkatchov pode ir vender o conto do “revolucionário instintivo” para outro sítio.

E, então, mesmo se as massas de camponeses russos fossem muito instintivamente revolucionárias, mesmo se nós imaginássemos que se podem fazer revoluções por encomenda, tal como se faz uma peça de tecido de algodão florido ou um samovar — mesmo então, pergunto eu, é permitido a um homem com mais de doze anos imaginar o curso de uma revolução de um modo tão superinfantil como acontece aqui? E lembremo-nos ainda de que isto foi escrito depois da primeira revolução confeccionada segundo este modelo bakuninista — a de 1873 em Espanha — que falhou tão brilhantemente. Também aí se iniciou o ataque ao mesmo tempo em múltiplos lugares. Também aí se contou com que a necessidade prática, o instinto de autoconservação, conseguiria já por si próprio uma aliança firme e indissolúvel entre as comunas que protestavam. E que aconteceu? Cada comuna, cada cidade, defendeu-se apenas a si própria, não se falou de qualquer apoio mútuo, e, com apenas 3000 homens, Pavia, em 14 dias, venceu uma cidade após outra e pôs fim a todo o esplendor anarquista (veja-se o meu [artigo] Bakuninistas em Acção(11), onde isto é descrito em pormenor).

Não há dúvida nenhuma de que a Rússia está nas vésperas de uma revolução. As finanças estão desorganizadas ao extremo. A rosca dos impostos não aperta mais, os juros das antigas dívidas do Estado são pagos com novos empréstimos e a cada novo empréstimo se deparam maiores dificuldades; já só se pode arranjar dinheiro a pretexto da construção de caminhos-de-ferro! A administração, de há muito, está corrompida de uma ponta à outra; os funcionários estão a viver mais do roubo, do suborno e da extorsão do que do ordenado. Toda a produção rural — que é, de longe, o mais essencial para a Rússia — foi completamente posta em desordem pelo resgate de 1861; a grande propriedade fundiária está sem força de trabalho suficiente, os camponeses estão sem terra suficiente, oprimidos pelos impostos, sugados pelos usurários; a produção agrícola [Ackerbauproduktion](12) está a diminuir de ano para ano. Tudo isto mantido junto, penosa e exteriormente, por um despotismo oriental, de cuja arbitrariedade nós, no Ocidente, não podemos fazer qualquer ideia; um despotismo que não só entra, de dia para dia, na mais gritante contradição com as concepções das classes ilustradas e, nomeadamente, com as da burguesia da capital que cresce rapidamente, como também — com o seu actual portador — não sabe mais o que pensar de si, fazendo hoje concessões ao liberalismo para amanhã, assustado, as retirar de novo, e, assim, perder cada vez mais todo o crédito. Com [tudo] isto, entre as camadas mais ilustradas da nação concentradas na capital, um conhecimento crescente de que esta situação é insustentável, de que um revolucionamento está iminente, e a ilusão de poder dirigir este revolucionamento para um leito constitucional tranquilo. Estão aqui reunidas todas as condições de uma revolução, de uma revolução que, iniciada pelas classes superiores da capital, talvez mesmo pelo próprio governo, tem de ser rapidamente levada mais longe e para além da sua primeira fase constitucional pelos camponeses; de uma revolução que já por isso será da maior importância para toda a Europa, porque aniquilará, de um golpe, a última reserva, até aqui intacta, da reacção de toda a Europa. Esta revolução está seguramente a caminho. Só dois acontecimentos a podem adiar por mais tempo: uma guerra afortunada contra a Turquia ou a Áustria, para o que são precisos dinheiro e alianças seguras, ou, então — uma tentativa prematura de levantamento, que lançaria de novo as classes possidentes para os braços do governo.

Escrito por Engels em Abril de 1875. Publicado em Der Volksstaat, n.os 43, 44 e45, de 16, 18 e 21 de Abril de 1875 e como um folheto separado: F. Engels, Soziales aus Russland, Leipzig, 1875, bem como no livro: F. Engels, Internationales aus dem “Volksstaat” (1871-1875), Berlim, 1894. Assinado: F. Engels.

Notas de rodapé:

(1) Medida agrária russa equivalente a 1,0925 ha. (Nota da edição portuguesa.)

(2) Uma excepção só teve lugar na Polónia, onde o governo queria arruinar a nobreza que era inimiga dele, mas ganhar os camponeses. (Nota de Engels.) [Esta nota figura no texto publicado no Volksstaat, mas não nas edições de 1875 e de 1894.]

(3) Em inglês no texto: sistema de pagamento em mercadorias. (Nota da edição portuguesa.)

(4) Em inglês no texto: intermediários, grandes rendeiros que arrendavam posteriormente a outros pequenas parcelas. (Nota da edição portuguesa.)

(5) Sobre o artel, veja-se entre outros: Sbornik materialov ob Arteljach v Rossiji (Colectânea de Materiais sobre os Artéis na Rússia), St. Petersburg, 1873, fascículo 1. (Nota de Engels.)

(6) Esta frase não figura na edição de 1894. (Nota da edição portuguesa.)

(7) Em francês no texto: circunscrição. (Nota da edição portuguesa.)

(8) No original: Gemeinde-Eigentum, propriedade comunal. Na edição de 1894: Gemeineigentum, propriedade comum. (Nota da edição portuguesa.)

(9) Sobre a situação dos camponeses, vejam-se, entre outros, o relatório oficial da comissão governamental sobre a produção rural (1873), além disso: Skáldine, W Zacholusti i w Stolice (Numa Aldeia Perdida e na Capital), Petersburgo, 1870; este último escrito é de um conservador liberal. (Nota de Engels).

(10) Na Polónia, particularmente, no gouvernement de Grodno, onde a nobreza ficou em grande parte arruinada pela insurreição de 1863[N288], os camponeses compram ou arrendam agora, frequentemente, propriedades nobres e cultivam-nas indivisas e por conta comum. E estes camponeses já não têm desde há séculos nenhuma propriedade comunal e não são nenhuns grão-russos[N289] mas polacos, lituanos e russos brancos. (Nota de Engels.)

(11) Cf. K. Marx/F. Engels, Werke, Dietz Verlag, Berlin 1973, Bd. 18, S. 476-493. (Nota da edição portuguesa.)

(12) Na edição de 1894: Ackerbauertrag, rendimento agrícola. (Nota da edição portuguesa.)

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