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"Caminhando entre camaradas"


Uma nota concisa, datilografada, foi passada por baixo de minha porta em um envelope lacrado confirmando minha nomeação como a mais grave ameaça para a segurança interna da Índia. Eu esperei por meses saber isso através deles. Tinha que estar no mandir [templo] Ma Santeshwari em Dantewara, Chhattisgarh, em qualquer dos quatro encontros para os quais me davam dois dias. Isso significava ter em conta as péssimas condições climáticas, ferimentos, bloqueios, greves no transporte e o puro azar. O aviso dizia: “a escritora deve levar uma câmera, tika [a­dorno tradicional das mulheres usada pelas mulheres casadas ou com­prometidas] e um coco. Meu contato levaria um gorro, a revista Hindi Outlook e bananas. Senha: Namashkar Guruji [é uma frase dita quando se vai visitar um mandir, Guruji é o que se busca dentro de si mesmo]. Me perguntei se o contato e o anfitrião esperariam a um homem. E se devia colocar um bigode. Há muitas formas de descrever Dantewara. É um oxímoro. É uma cidade fronteiriça justamente no coração da Índia. É o epicentro de uma guerra. Uma cidade onde as coisas estão ao revés.

Em Dantewara, a polícia se veste à paisana e os rebeldes usam uniformes. O superintendente da cadeia está atrás das grades. Os presos estão livres (trezentos deles escaparam da prisão da cidade faz dois anos). As mulheres que foram estupradas estão sob custódia policial. Os violadores fazem discursos no mercado.