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Grabois: 'Elevar o nível ideológico é decisivo para o partido'


O Informe político da Comissão Executiva, ao fazer a análise crítica das debilidades do Partido na luta pela aplicação de nossa atual linha política e tática, constatou o quanto é baixo o nível ideológico e político de nosso Partido.

Nas atuais circunstâncias, em que se agrava cada vez mais a luta entre o campo democrático e o campo imperialista, essa séria debilidade assume um caráter bastante grave, pois sem elevar o nível ideológico e político dos membros do Partido, tanto das direções como das bases, não estaremos em condições de aplicar com êxito a nossa orientação política revolucionária e de cumprir a tarefa histórica de conduzir a classe operária e as massas trabalhadoras na luta pela paz, pela independência nacional e pela conquista da democracia popular.

O levantamento do nível ideológico de nosso Partido constitui, hoje, uma tarefa política de grande importância e deve ser uma das preocupações centrais no trabalho decisivo em que nos empenhamos de construir um Partido para enfrentar e resolver os problemas da Revolução. O trabalho de elevação do nível ideológico dos nossos militantes é vital para o Partido, porque se orienta no sentido de libertar completamente o nosso Partido da influência das ideologias estranhas ao proletariado, de fazer de cada comunista um homem efetivamente de vanguarda, de preparar o Partido ideológica e teoricamente para dirigir com êxito a luta pela derrubada da ditadura feudal-burguesa e pela instauração de um governo democrático-popular.

A decisiva importância para o Partido do trabalho ideológico resulta também do fato de que a nossa debilidade ideológica, o nosso baixo nível teórico determinam o próprio atraso na organização do Partido, dependendo, assim, o desenvolvimento orgânico do Partido, fundamentalmente, da elevação do nível ideológica e político de seus quadros.

A esse respeito, destacando a importância da teoria do marxismo-leninismo nessa tarefa de construção do Partido, o camarada Prestes em recente artigo, alusivo ao septuagésimo primeiro aniversário do grande Stálin, afirma:

"Essa luta organizada pela posse e domínio da teoria revolucionária do proletariado é o centro e a essência da luta pela construção de nosso Partido — tarefa fundamental que hoje enfrentamos e que precisamos rapidamente realizar em íntima e indissolúvel ligação com a luta diária que travamos a fim de organizar e unir as forcas populares e patrióticas em ampla Frente Democrática de Libertação Nacional".

Tem inteira razão o camarada Prestes ao fazer essa constatação. Se em todos os Partidos Comunistas que já atingiram a maturidade, o trabalho de elevação do nível ideológico e político é uma tarefa permanente e das mais importantes, em nosso Partido esse trabalho, devido ao nosso imenso atraso na frente ideológica, tem sua importância muitas vezes multiplicada.

O Atraso do Partido na Frente Ideológica

Nosso Partido, no ponto de vista ideológico, está quase que totalmente desarmado. A maioria de nossos quadros ingressou no Partido quando nos orientávamos por uma política oportunista e foi educada no espírito da colaboração de classes e não nos princípios do marxismo-leninismo. A luta contra a penetração da ideologia burguesa nas fileiras do Partido é uma forma com que se reveste a luta de classes, e essa luta ideológica não podia ser então por nós levada a efeito para forjar os militantes no espírito revolucionário, porque a linha política que seguíamos até janeiro de 1948 procurava amainar as contradições de classe, ao invés de revelá-las e aprofundá-las como nos ensina o marxismo-leninismo. Porque nos orientávamos por uma política de colaboração de classes não podíamos ter uma linha de conduta combativa, revolucionária e consequente, o que teve uma profunda influência na formação de todos os membros do Partido. Por isso mesmo, os nossos militantes ainda hoje são facilmente atingidos pela propaganda ideológica do imperialismo e das classes dominantes.

Na verdade, como já reconhecemos em outras ocasiões, uma das causas fundamentais dos erros oportunistas que vimos cometendo reside no nosso baixo nível ideológico, na nossa falta de conhecimento teóricos e na nossa reduzida capacidade política.

O levantamento do nível ideológico do Partido exige que intensifiquemos a educação de nossos quadros nos princípios do marxismo-leninismo. O problema da educação teórica dos membros do Partido se reveste de importância decisiva para o sucesso da luta revolucionária que travamos contra o imperialismo e os seus aliados internos — os latifundiários e a grande burguesia — pois somente armados da teoria marxista-leninista não seremos surpreendidos pelos acontecimentos, poderemos nos orientar sem vacilações em face da situação nacional e internacional, estaremos em condições de prever o curso dos acontecimentos, de interpretar com exatidão esses acontecimentos e de dar a justa solução para todos os problemas da Revolução brasileira.

Somente através do estudo persistente dos mestres do marxismo, na luta pelo domínio da teoria revolucionária do proletariado é que cada militante poderá interpretar e explicar, como é de seu dever, os acontecimentos políticos do ponto de vista do marxismo-leninismo e educar as massas no sentido da luta de classes, do combate intransigente ao imperialismo e da luta pela democracia popular.

Lutar Contra a Influência das Ideologias Estranhas ao Proletariado no Seio do Partido

É certo que temos agora uma justa linha política e tática o que significa um grande passo na luta pelas nossos objetivos revolucionários. Mas, para aplicá-la acertadamente, sem quaisquer vacilações, é imprescindível desenvolver séria luta ideológica dentro do Partido, realizar verdadeira reviravolta ideológica, cuidar com carinho e afinco da elevação do nível teórico de nossos quadros.

Já o grande Lênin, com o seu gênio e a sua clarividência, mostrava que a luta teórica era tão importante para o Partido como a luta política e a luta econômica. Referindo-se à posição de um dos fundadores do socialismo científico sobre a importância da teoria, dizia Lênin em sua obra Que Fazer?: "Engels reconhece, não duas formas da grande luta da social-democracia (a política e a econômica) — como se propala entre nos — mas três, colocando a seu lado também, a luta teórica".

Assim, não devemos nos satisfazer pelo fato de possuirmos uma acertada orientação estratégica e uma tática revolucionária. É urgente tratar com continuidade da capacitação teórica e política dos quadros do Partido, pois devemos compreender, cada vez mais, que a execução das próprias tarefas práticas, que resultam da justa orientada, política traçada no Manifesto de Agosto, dependem na maior parte da elevação de nosso nível ideológico e político. É o que a esse respeito nos ensina o sábia camarada Stalin quando afirma que "da preparação ideológica e do fortalecimento político dependem nove décimos para a solução de todos os nossos problemas práticos".

Enquanto nos orientávamos por uma linha política oportunista, ocultando nossos objetivos revolucionários, não aprofundando a luta de classes, mas ao contrário tentando amainá-la, não sentíamos toda a importância do estudo da teoria marxista-leninista e toda a nossa tendência era de subestimar a teoria. Mas agora, quando fazemos esforços para pôr em prática uma linha efetivamente revolucionária, a teoria marxista-leninista torna-se para nós tão necessária como o próprio ar que respiramos .

Para que possamos conquistar os objetivos revolucionários do proletariado precisamos nos livrar de todas as concepções e teorias estranhas à classe operária, precisamos estar armados da teoria revolucionária do proletariado, dominar a ciência marxista-leninista das leis do desenvolvimento da sociedade.

Isto é tanto mais importante, quando vivemos num país em que os imperialistas norte-americanos, dominando a quase totalidade dos meios de propaganda, realizam, em todos os terrenos, uma intensa e persistente campanha ideológica que ainda exerce influência no seio do proletariado. Essa campanha ideológica do imperialismo atinge às vezes a própria cidadela da classe operária — o seu partido de vanguarda, o PCB — fazendo penetrar nos seus setores mais débeis contrabandos políticos e ideológicos. Não são raros os casos em que militantes do Partido se deixam influenciar pelas campanhas de mentiras e calúnias dos inimigos de nosso povo e por jornais demagógicos a serviço do imperialismo, como "O Mundo", "A Noticia", do Distrito Federal, e outros imundos pasquins da imprensa burguesa.

Por outro lado, o ingresso em nossas fileiras, principalmente durante o período de legalidade do Partido de grande número de elementos oriundos da pequena burguesia, embora combativos, mas ideologicamente ainda não ganhos para o proletariado, faz com que o nossa Partido sofra constantemente a pressão de ideologias estranhas à classe operária. Esses elementos, apesar de sua contribuição à luta do Partido, enquanto não forem completamente conquistados do ponto de vista ideológico para a classe operária, trazem para as nossas fileiras as suas vacilações, dificultam a realização de nossa linha revolucionária, entravam a execução de uma estratégia e uma tática firmes e obstruem a condução de nossa luta de acordo com a organização e a disciplina inerentes ao proletariado.

Embora em escala muitíssimo menor do que acontece com os militantes de outra origem, também os elementos oriundos da classe operária, que vieram para o Partido, não estão imunes às influências da ideologia burguesa. Apesar de serem os elementos mais esclarecidos e combativos da classe operária, eles que possuem todas as virtudes da classe operária brasileira, ainda padecem dos mesmos defeitos do proletariado donde provêm, proletariado na sua grande maioria vindo recentemente do campo, sofrendo pressão ideológica direta das classes dominantes que procuram desviá-lo da luta de classes e incutir-lhe, através de um trabalho sistemático de propaganda e de demagogia, a colaboração de classe, o reformismo.

Essa situação determina que os militantes de origem proletária, que por instinto de classe têm maiores possibilidades de enxergar os desvios e erros do Partido, ainda não exerçam suficientemente sua vigilância de classe no sentido de garantir ao Partido uma orientação política justa e uma aplicação firme e independente da linha política.

Grande é a Subestimação da Teoria em Nosso Partido

Por sua vez o nosso nível teórico e a nossa subestimação da teoria, particularmente no que se refere aos quadros da direção nacional, nos causa os maiores embaraços para encontrar a justa solução para os problemas da Revolução. Foi por insuficiência teórica que tanto demoramos a adotar nossa justa orientação política e tática e ainda hoje nos debatemos entre as maiores dificuldades para enfrentar com acerto alguns importantes problemas táticos, o que vem entravando nossa ação revolucionária. Por essa mesma razão, ainda não enfrentamos, como é necessário, o estudo dos problemas brasileiros, não analisamos com profundidade o caráter da Revolução brasileira, não generalizamos nossas experiências, não estudamos a história do nosso Partido e á historia das lutas revolucionárias de nosso povo.

Devemos, portanto, enfrentar seriamente o problema ideológico, pois sem vencermos o nosso atraso no campo ideológico não aplicaremos consequentemente nossa linha política, não poderemos conquistar a democracia popular e abrir, assim, o caminho para o socialismo.

Agora mesmo, seis meses depois do lançamento do Manifesto de Agosto, apesar da justa linha política e da tática revolucionária que esse Manifesto nos assegurou, várias foram as falhas já assinaladas no informe político, verificadas na atividade do Partido, cuja causa principal foi de caráter ideológico. Tanto as tendências de direita, o espontaneísmo na aplicação da orientação do Manifesto de Agosto, o atraso no trabalho de organização e unificação da classe operária e na criação da FDLN, as ilusões em Getúlio, etc., como as tendencias de esquerda, confusão da palavra de ordem de agitação com palavra de ordem de ação imediata, posição sectária diante das eleições sindicais, menosprezo das formas legais de luta, etc., são debilidades que surgiram, fundamentalmente, devido ao nosso baixo nível ideológico.

A realidade é que, apesar disso, temos dado pouca importância à educação teórica de nosso Partido. Devemos reconhecer que a frente ideológica é das mais subestimadas — senão a mais subestimada — entre nós. Sem exagero podemos afirmar que quase nada fizemos para elevar o nível ideológico do Partido, para aumentar a capacitação teórica de nossos quadros, para estimular e desenvolver entre os militantes o gosto pelo estudo individual e coletivo das obras dos mestres do marxismo-leninismo. Muito pouco foi realizado pelos nossos organismos dirigentes para armar o Partido com a teoria marxista-leninista, capaz de assegurar a unidade ideológica em nossas fileiras, como base indestrutível do Partido. Não tivemos, como ainda não temos, a preocupação de assegurar essa unidade ideológica, organizando e executando um plano de educação teórica e combatendo, através de uma luta ideológica permanente e implacável dentro do Partido, as teorias e ideias que servem às forças reacionárias — ao imperialismo, aos latifundiários e à grande burguesia.

Nossas iniciativas práticas no campo da educação são reduzidas tanto no que se refere ao estudo individual e aos cursos e escolas de capacitação teórica e política, quanto à edição e difusão de obras marxistas.

Nossa atividade editorial só teve certo impulso durante o período de legalidade do Partido. Assim mesmo, nesse período deixam os, de publicar um grande número de obras básicas indispensáveis à educação de nossos militantes e não tivemos qualquer preocupação em organizar o estudo dos livros e folhetos marxistas que editamos, nem mesmo do Compendio de História do Partido Comunista (b) da URSS, obra imprescindível para a formação de cada comunista. Os livros marxistas que imprimimos eram distribuídos pelo Partido mais com o objetivo de angariar recursos financeiros do que para educar teoricamente os comunistas e elevar o seu nível ideológico. Depois da legalidade muito pouco foi editado. Nem mesmo tivemos a iniciativa de estimular, organizadamente, a distribuição e a leitura dos livros dos clássicos do marxismo já editados.

Quanto à educação dos membros do Partido através de escolas e cursos, somente durante o período de vida legal do Partido foram organizados alguns cursos que muito pouco podiam contribuir para a elevação do nível ideológico dos quadros, devido à linha oportunista que então trilhávamos. Depois da mudança da linha política em janeiro de 1948 até os dias de hoje, não realizamos um só curso sequer, por mais elementar que fosse, o que revela nosso excessivo praticismo e o desprezo pela teoria e também evidencia a nossa incompreensão do sentido profundo da reviravolta que era necessária realizar em todos os aspectos de nossa atividade com o lançamento daquele manifesto.

No que se refere à nossa imprensa apesar dos grandes progressos que fizemos, com o melhoramento do conteúdo da nosso órgão central e da revista teórica, de um modo geral seu nível ideológico ainda não satisfaz as necessidades da nossa luta revolucionária. No entanto, a leitura cuidadosa do nosso órgão central, da revista teórica e da Democracia Popular, é uma grande ajuda para a elevação do nível político e ideológico dos membros do Partido. Mas a verdade é que dentro do Partido, existe tal subestimação pela educação, principalmente pela falta de estímulo e de orientação, que reduzido é o numero de militantes que lê e estuda os artigos e editoriais publicados nesses três periódicos.

A Subestimação da Teoria Esta Ligada à Subestimação da Posição de Vanguarda do Partido

A subestimação da importância da teoria, resulta evidentemente de nossa incompreensão do papel de vanguarda que deve desempenhar o Partido, que não pode efetivamente ocupar essa posição de vanguarda se não estiver armado da teoria marxista-leninista, se não dominar as leis do desenvolvimento da sociedade.

Quanto aos quadros do Partido — como assinala o informe político — dispomos de militantes abnegados e capazes de todos os sacrifícios pela causa do proletariado, mas nada ou quase nada temos feito para transformar esses militantes combativos em lutadores política e ideologicamente formados. Poucos são ainda em nosso partido os quadros com capacidade de direção e assim mesmo, seu nível ideológico está muito aquém das nossas necessidades e o seu nível teórico ainda é baixo. Os quadros intermediários, pouco mais numerosas, na sua quase totalidade são praticistas e o seu nível político e ideológico é excessivamente baixo. Os militantes de base, apesar da combatividade e abnegação, do ponto de vista ideológico, na sua esmagadora maioria, pouco se distinguem da massa da classe operária. É evidente que falta ideologia à maioria dos quadros do Partido. Os membros do Partido não foram educados no espírito da luta de classes, no sentido de ad