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Broyelle: "Contra o eterno feminino"


Confúcio morreu faz mais de 2 mil anos, mas sua ideologia corrupta segundo a qual os homens são nobres e as mulheres inferiores, ainda influencia as pessoas e se manifesta a cada momento.

Eis aqui um exemplo do que se pode ler atualmente na imprensa chinesa. No que batem esses artigos particularmente numerosos, consagrados às mulheres, não é no reconhecimento que existe na China ainda hoje das doutrinas, das concepções “antimulheres”; isto se diz há muito tempo. Não, o que se observa em primeiro lugar, é o tom desses artigos que significam claramente o que expressam. E também o que acrescentou como confirmação do que “resta por fazer” para chegar à igualdade completa entre ambos os sexos.

Eis o que contrasta com as correntes direitistas que se manifestam especialmente todos esses últimos anos, e segundo as quais mulheres e homens seriam hoje em dia perfeitamente iguais. Alguns até havia chegado a pensar que “uma vez que esta igualdade já existe, não há razão para criar de novo uma organização específica de mulheres”. Não mais opressão, não mais problema.

Evidentemente, semelhante corrente, tendendo no fundo a negar a luta de classes e, portanto, a necessidade de lutar, se apoiava sobre as ideias erradas no povo, podia entranhar graves consequências. É o que aconteceu algumas vezes, em diferentes domínios. Esta corrente, menos paradoxalmente do que parecia à primeira vista, coexistir pacificamente com o que se poderia chamar de antifeminismo ultraclássico e universal, que consiste em pregar muito descarada e abertamente o desprezo pelas mulheres, sua inferioridade “biológica”, natural. Distinguindo-se por sua linguagem, por suas palavras, essas duas correntes se encontram confundidas em um ponto primordial: frear com todas suas forças a iniciativa das mulheres, impedir-lhes de “passar a ação” como pelo contrário lhes recomenda o editorial de 8 de março de 1974.

A réplica revolucionária a esta ofensiva da reação (que, além do mais, não tem se limitado apenas no domínio das mulheres mas que, pelo contrário, tenta progressivamente em todos os domínios da vida social atrair uma restauração da antiga ordem, restauração que necessita imperiosamente do retorno das mulheres a um estatuto de seres inferiores), começou há mais de um ano. Desde o princípio de 1972, ou seja, apenas uns meses depois do final de Lin Piao – e certamente isso não é uma mera coincidência – se poderão encontrar na imprensa chamados para preocupar-se sobre a questão feminina. O editorial do Renmin Ribao de 8 de março de 1973 [1] dará o verdadeiro início a uma arrancada profunda no movimento de libertação das mulheres. Arrancada que uns meses mais tarde será marcada particularmente pela reconstrução regional da Federação das Mulheres. Há um ano, esta campanha se ampliou. A colocação em marcha no início desse ano, “pi Lin pi Kong” [2] apela de imediato para sua participação massiva, como o veremos mais adiante.

Para fazer hoje o balanço provisório desta campanha, nos é possível reconstituir bastante claramente os domínios nos quais a burguesia tentava ainda, opera sua “restauração”, da mesma forma que a colocação em marcha do contra-ataque revolucionário. Na hora que em nossos países as mulheres têm cada dia mais consciência da opressão que padecem, em que são cada vez mais numerosas para combatê-la, esta nova onda do movimento de libertação das mulheres na China, sem dúvida não carece de interesse para a nós.

É necessário libertar as mulheres do trabalho doméstico?

Afirmar que homens e mulheres são desde agora iguais, é ao mesmo tempo impedir-se de tomar medidas concretas necessárias para permitir as mulheres justamente chegar a essa completa igualdade. O soberbo desprezo ancestral pelo trabalho doméstico encontra aí sua razão. O desenvolvimento das oficinas de trabalho doméstico que são medidas concretas materiais (de grande importância pública, jamais se tirar o suficiente!) para libertar as mulheres das tarefas domésticas, foi freado, inclusive até às vezes detido, sobre o pretexto de que o homem e mulheres compartilham de agora em diante equitativamente o trabalho doméstico.

Esta tendência nefasta é duplamente errada. Em primeiro lugar porque considera sistemática uma prática que é ainda produto de uma vanguarda, ainda que esta última seja relativamente grande. Em segundo lugar e, sobretudo, porque está claro que o desaparecimento do trabalho doméstico feminino deriva principalmente da sua socialização e sua mecanização, e não de uma nova repartição igualitária entre maridos e mulheres, ainda que a repartição siga absolutamente necessária por mais de uma razão, como indicamos. [3]

No artigo aparecido no número de dezembro de 1973 do Hogqi, se existe sobre a importância dessa questão: “sobre a questão da polarização das mulheres em relação às tarefas domésticas, se deve fazer uma análise concreta. Durante milênios, as mulheres foram reduzidas ao papel de escravas domésticas. O pensamento fundamental dos proprietários latifundiários, da burguesia, era: fechá-las na casa, aborrecê-las com trabalhos domésticos, impedi-las de participar das atividades da produção social e das atividades políticas. Uma das tarefas importantes do proletariado é libertar as mulheres dessa escravidão. Depois da libertação, graças ao socialismo, com a participação das grandes massas de mulheres na produção social, esse estado de coisas mudou profundamente. Porém, em razão da ideologia das classes exploradas, do chauvinismo masculino, e nessa razão dos limites das condições materiais, as mulheres não foram completamente libertadas das suas tarefas domésticas”.

Com efeito, se essas tarefas foram defendidas, o pretexto evocado não seria a única causa. No transcurso de visitas recentes pudemos descobrir outras. Por exemplo, o desprezo pelo trabalho doméstico, por todo trabalho doméstico, denunciado vigorosamente hoje, evidentemente arraiga um atraso na sua socialização. Algumas ideias poderão influenciar, tais como: “trabalhar em uma oficina de serviço não é servir o povo, é serviu interesse privado as pessoas”. O melhor: “só o trabalho produtivo – compreendido como o trabalho na fábrica – é nobre”, ideia bastante difundida em certo momento entre a juventude [4], ou ainda mais, e ao contrário, a velha demagogia liushista: “ocupar-se de sua casa e de seus filhos, é também uma tarefa revolucionária”.

Entretanto, as oficinas de serviços não são mais do que o início do desaparecimento do trabalho doméstico. Ainda falta, sobre a base de colocar em comum tarefas antigamente familiares, realizar a mecanização. Esta mecanização, por sua vez não pode vir fundamentalmente senão de dois setores: por uma parte, os melhoramentos efetuados na base pelos mesmos trabalhadores desses serviços, e por outra, o desenvolvimento da indústria ligeira nos ramos respectivos (por exemplo, produção de máquinas de lavar coletivas).

Porém, os progressos nesses dois setores são estreitamente ligados à linha política que os guia. Seus trabalhadores dos serviços, mulheres em sua imensa maioria, não elevam seu nível de conhecimento, cultural e técnico, se sua cooperação com operários experimentados não está corretamente organizada, a mecanização pode retroceder-se muito. Também, se as necessidades concretas das massas nesse domínio não estão suficientemente sistematizadas e conhecidas pelo setor industrial é possível chegar a uma situação na qual se avalie mal a importância de tal ou qual produção para a libertação das mulheres. Aqui também a Federação das Mulheres tem um grande papel a desempenhar, papel de união das massas de mulheres, de pesquisa acerca das suas necessidades, motor de novas iniciativas. Os “limites atuais das condições materiais” de que trata o artigo citado deverão ser superados. E para isso é essencial a mobilização política e ideológica.

A formação de quadros femininos

Este domínio é especialmente interessante já que permite ver, com toda evidência, até que ponto ambas as concepções, supostamente opostas: “homens e mulheres são perfeitamente iguais”, e “as mulheres são inferiores” se juntam e se comunicam na harmonia mais completa.

O mesmo artigo de Hongqi do que falávamos mais acima, que justamente se intitula “Preocupemo-nos com a formação de quadros femininos”, diz muito claramente: “No momento atual na China o número de quadro femininos não corresponde às necessidades da edificação de nosso país. Há uma distância muito considerável entre o número atual e o que necessitaria dentro do partido; sobretudo dentro das equipes dirigentes, o número de quadros mulheres é muito pequeno. Este estado de coisas torna mais lento o ritmo de movimento para libertação das mulheres. É necessário compreender a importância desta questão e tomar medidas a respeito para acabar com a situação”. [5]

Como se poderia tomar medidas especiais para favorecer a formação de quadros femininos se as pessoas se contentam em reprisar em todos os tons que as mulheres já chegaram a igualdade com os homens? Também, descuidando de tomar as medidas que se impõem, tenta justificar a posteriori o número relativamente pequeno de quadro femininos; se continuar a, pois, dizendo aqui e ali que é porque as mulheres são atrasadas naturalmente.

Comprovar ou reformar

A pessoa se limita então a “lamentar” que seu nível cultural e político seja ainda demasiado baixo, que não tenham tempo devido às ocupações domésticas, em suma, que hoje em dia não se lhes poderiam confiar responsabilidades, mais tarde se verá... entre outras coisas o Hongqi replica: “alguns camaradas estimam o que elas têm um nível de formação muito baixo, pouca aptidão... Acham que estão inteiramente absorvidas pelas tarefas domésticas. Portanto, chegam à conclusão de que é difícil selecionar quadros entre as mulheres. Esta maneira de ver as coisas é também uma causa que tem diminuído o ritmo do movimento. Achar que as mulheres têm menos aptidão é superficial e em desacordo com a realidade. Se entre os camaradas há ainda mulheres pouco aptas e de nível cultural baixo, é necessário buscar suas razões nas condições de classe e na história social. Ao chegar a compreender isso, se deve fazer ainda mais esforços para ajudá-las na formação, a elevar seu nível, e não há que subestimá-las no absoluto”.

Dizer das mulheres que “estão ainda demasiado absorvida” eis aí com efeito uma afirmação objetiva, aparentemente neutra, porém tirar daí a conclusão de que “não é possível confiar-lhes tarefas de responsabilidade”, eis uma atitude reacionária que o Partido e os comitês das mulheres criticam com veemência. É necessário preocupar-se mais com problemas concretos, particularidades das mulheres: desde o editorial do 8 de março de 1973, é que surgem to­da a propaganda sobre este assunto. Certamente existe ainda hoje contradições entre o trabalho doméstico que as mulheres realizam e as tarefas políticas, ideológicas e culturais que devem assumir. Negá-lo, já o vimos, não ajuda as mu­lheres, mas contentar-se em comprová-lo, tão pouco adianta.

Para avançar é necessário aplicar energicamente uma série de reformas que já se provaram em muitos lugares de vanguarda. [6] É por isso que se reafirma política seguinte: “É necessário, pois, uma justa solução para a contradição entre o trabalho revolucionário trabalho doméstico. É necessário elogiar o fato dos maridos e mulheres compartilhar o trabalho doméstico. Ao mesmo tempo, é necessário ajudar as mulheres a resolver sistemas particulares, defender o matrimônio tardio e o planejamento familiar, administrar bem os estabelecimentos de bem-estar social [7] para proteger as mulheres, as mães e os filhos, assegurar um bom funcionamento das creches. [8] Apenas adotando uma atitude justa e tomando medidas concretas é que facilmente poderão ser superadas as dificuldades no que diz respeito as mulheres”.

Somente aplicando firme e sistematicamente essas reformas, é que se poderá resolver a contradição. Ao mesmo tempo, hoje em dia na China, reformar ou não aparece como único critério objetivo que permite julgar, para além de toda manifestação formal sobre a “causa das mulheres”, e se segue ou não uma linha revolucionária.

A formação de quadros femininos seguirá ainda por muito tempo um terreno privilegiado da luta entre a revolução e a contrarrevolução. Mulheres nos postos de direção, eis o que choca diametralmente com a velha moral reacionária. “Se elas triunfarem nessas tarefas, para que servirão então os homens?” – escreve uma operária ao se referir sobre a inquietude de certos maridos.

Pouco convencidos no fundo, alguns se consideram muito satisfeitos (e acreditam haver realizado uma façanha digna de elogios (assim que sua equipe de direção aumenta com algumas mulheres.

O citado artigo de Hongqi responde: “a promoção de quadros mulheres nas equipes dirigentes significa o começo e não o fim do processo da sua formação. Para que elas possam continuar dando prova de dinamismo e de entusiasmo é necessário ainda levar a cabo um trabalho minucioso. É relativamente fácil para uma organização do partido fazer elevar-se a quadros algumas mulheres; porém fazê-las amadurecer politicamente, isso é outra questão. Por isso é que as equipes dirigentes nos diversos níveis deve concentrar seus esforços na educação política e ideológica das mulheres, animadas a progredir e a superar seus pontos débeis para que tenham a audácia de assumir responsabilidades importantes [...]. A via fundamental para a formação de quadros mulheres é deixá-las experimentar-se nos três grandes movimentos revolucionários para elevar assim seu nível de consciência e de competência [...]. Os comitês do Partido nos diferentes níveis devem ter como tarefa criar as condições para um desenvolvimento rápido e bom das mulheres, para que tenha mais oportunidades de aguerrir-se. As mulheres quadros, quando assumir responsabilidades devem ter ocasião de valorizar-se e gozar de confiança e apoio, sobretudo, de ajuda nos momentos difíceis. É uma tarefa para todo o Partido e não somente para alguns departamentos especializados [...]. Os comitês do partido nos diferentes níveis devem compreender esta questão no marco da luta de duas linhas e da consolidação da ditadura do proletariado [...]. Sem deter o trabalho profissional é necessário organizar para as mulheres períodos de estudo, criar para elas escolas de quadros do 7 de maio, é necessário elaborar planos para sua educação. As mulheres quadros devem ter uma compreensão suficientemente clara da sua gloriosa tarefa na edificação socialista e na revolução, devem ampliar seu horizonte e ter audácia de lançar-se à prática, estudar assiduamente para desenvolver se com rapidez. Seguramente veremos as mulheres aportarem uma imensa contribuição a edificação e a revolução socialista”.

Um pouco por todas as partes, unidade de base escreveram nos jornais nacionais para referir os resultados que elas obtiveram aplicando esta política e retificando o estilo de trabalho. Uma comuna popular do Kiangsu [9] relata que doze de suas equipes de trabalho estavam compostas principalmente por mulheres. Antes, todos os chefes de equipe eram homens, o que havia criado uma má situação. Os homens ignoravam os problemas das mulheres ou melhor, não se preocupavam o suficiente. Por outra parte, devido às tradições ancestrais a respeito do lugar da mulher na sociedade, estas não se atreviam a expressar seus pontos de vista, suas divergências e dificuldades. No transcurso do movimento de crítica à Lin Piao e de retificação do estilo de trabalho, “a brigada estudou conscienciosamente esse problema”. Foram eleitos novos chefes de e­qui­pe e todos são mulheres. Os resultados não se fizeram esperar: a unidade entre dirigentes e dirigidos se estreitou, os problemas concretos puderam ser estudados e resolvidos a tempo na medida em que apareceram, o estudo político fez grandes progressos no seio dessas equipes. O trabalho produtivo se desenvolveu notavelmente. De tímidas no início, mulheres se temperaram em suas novas responsabilidades. Seu prestígio ressaltou sobre o conjunto de mulheres que se acham revalorizados. A lição é clara: aqueles que creem que a natureza ou o destino fizeram as mulheres para obedecer docilmente e para ocupar-se de tarefas subalternas, consciente ou inconscientemente, tomam caminho da contrarrevolução.

A Federação de Mulheres se reconstitui

É, pois, no contexto desta campanha orientada para voltar a centrar a questão feminina que a chinesas começaram o movimento de crítica contra Confúcio e Lin Piao. Porém, outro fator que lhes é muito favorável na luta em curso, é a reconstrução da Federação de Mulheres. Desde junho de 1973, se celebrou em todas as regiões da China congressos da Federação de Mulheres; um pouco por todas as partes se haviam tornado a criar antes novos comitês de base da Federação de Mulheres, que desenvolveram imediatamente uma gran­de atividade. Desde 1966, as mulheres em sua grande maioria não se haviam organizado como tais. Uma “tão longa ausência” da Federação e talvez de levar se encontra nessas correntes “igualitaristas” de que temos falado. Em todo caso, deve ter sido mais negativo para as mulheres do que para as outras partes das massas que também permaneceram sem suas organizações tradicionais durante muitos anos. De fato, se a Liga da Juventude, e os sindicatos, foram provisoriamente suspensos como foi o caso da Federação de Mulheres, os jovens e os operários tiveram desde o princípio da Grande Revolução Cultural Proletária suas próprias organizações revolucionárias, necessárias nesta fase de luta, e onde podiam colocar e debater seus problemas, como por exemplo as organizações de guardas vermelhos, ou dos rebeldes revolucionários nas fábricas, mais tardes congressos de fábricas. Enquanto às mulheres, não tiveram – em geral – lugar político próprio no qual pudessem elaborar uma crítica coletiva do que ainda as oprimia.

Por padecer em uma opressão específica, mulheres têm necessidade organizações específicas, tanto para ajudá-las a participação plenamente no conjunto da revolução, como para ajudar a revolução a compreender a importância do movimento da metade da população. [10]

As mulheres são uma força motriz no movimento de crítica a Confúcio e Lin Piao

Desde o início da campanha de crítica que nestes últimos tempos tomou amplitude nacional, citam-se os quatros desprezos reacionários da ideologia confuciana: desprezo pelo trabalho manual, desprezo pelas mulheres, desprezo pelos jovens e desprezo pelos governados.