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"Relatório sobre a luta no Araguaia"


Primeira campanha

Dia 12 de abril de 1972 iniciou-se a luta guerrilheira no Araguaia. Cerca de 20 soldados atacaram o "peazão" (principal PA - Ponto de Apoio - do Destacamento A), entrando por São Domingos. Dia 14, uns 15 soldados atacaram o PA do Pau Preto (do Destacamento C), entrando por São Geraldo. Nos primeiros dias de abril, já alguns policiais andaram pelas áreas dos destacamentos A e C à procura de informações sobre os "paulistas". O exercito soube de nossa presença no sul do Pará através da denúncia do traidor Pedro Albuquerque que, meses antes, havia fugido com sua mulher, do Destacamento C. [NE: mais tarde, soube-se que não foi Pedro Albuquerque o denunciante dos guerrilheiros que se encontravam no Araguaia]. Esse casal tinha concordado plenamente com a tarefa que iria realizar e com as condições difíceis que iria enfrentar. No entanto, logo depois de sua chegada ao Destacamento C, a mulher de Pedro Alburqueque começou a dizer que não [tinha] condições para permanecer na tarefa e acabou convencendo seu marido a fugir. Com a fuga desses elementos, foram tomadas medidas de segurança. Em março de 1972, soube-se que Pedro Albuquerque havia sido preso no Ceará e, em seguida, começou a pesquisa policial na zona. Devido a isso, reforçaram-se as medidas de segurança. Construíram-se alguns barracos na mata ou em capoeiras e nosso pessoal passou a dormir fora dos locais conhecidos. De dia, colocavam-se guardas para manter a vigilância. Os destacamentos ficaram de sobreaviso, prontos para informar, uns aos outros, quaisquer fatos que afetassem a segurança.


No dia 12 de abril foi atacado o Destacamento A. O comando enviou um companheiro para avisar o Destacamento B. Por sua vez, o Destacamento C, que havia sido atacado dia 14, avisou a Comissão Militar (CM), através de um dos seus membros que lá se encontrava. A CM tomou medidas para avisar o Destacamento B e também o Destacamento A (pois não sabia ainda do ataque àquele destacamento). O Destacamento B, ao tomar conhecimento do que havia ocorrido no A, tratou de enviar um elemento, Geraldo (José Genoíno Neto), para avisar o C. Acontece que o C já havia se retirado. Geraldo, não encontrando o pessoal no local combinado, nem qualquer sinal informando que o inimigo havia batido no C, retomou por estrada, quando devia vir pela mata, conforme recomendação. Em conseqüência, foi preso por alguns soldados, dois batepaus e com a ajuda do comerciante e fazendeiro Nemer. No A, foi liberado um elemento, Nilo (Danilo Carneiro), que, desde que chegara, disse não ter condições para a tarefa. Ficou, no entanto, trabalhando num PA e concordou em permanecer ai até o começo da luta, quando seria dispensado. No dia 12, o Comando entregou-lhe uma certa quantia para a viagem e mandou-o embora. Ao chegar à Transamazônica, Nilo foi preso.


Apesar de prevenidos, os destacamentos tiveram alguns prejuízos materiais na retirada. No "peazão" (A) ficaram roupas, calçados, remédios, livros, papel para impressão, o Manual do Curso Militar, armas que estavam em conserto e algumas em vias de fabricação. Caiu também em poder do inimigo grande parte da oficina de mecânica. No Destacamento C caíram dez sacos de arroz, dez hectolitros de castanha-do-pará, um rádio e algumas panelas.


A primeira ofensiva do Exército se verificou quando ainda não se tinha terminado a preparação dos três destacamentos para a luta. A situação dos destacamentos era a seguinte: no A havia 22 elementos, comandante: Zé Carlos (André Grabois), vice: Piauí (Antonio de Pádua Costa); no B, 21, comandante: Osvaldo (Osvaldo Orlando Costa); vice: Zeca (José Huberto Bronca); no C, 20, comandante: Paulo (Paulo Mendes Rodrigues); vice: Vitor (José Toledo de Oliveira). Na CM, além dos quatro membros, havia dois elementos de guarda. Ao todo havia 69 elementos. Para completar os efetivos faltavam 13 elementos. Todos os destacamentos tinham reservas de alimentos, roupas, remédios e munição. Faltavam, no entanto, coisas indispensáveis. No A e no C não havia reserva de farinha. As armas com que se contava eram precárias. O Destacamento A tinha quatro fuzis, quatro rifles 44, uma metralhadora fabricada lá mesmo, uma metralhadora INA, seis espingardas 20 e duas carabinas 22; o Destacamento B tinha um fuzil, uma submetralhadora Royal, seis rifles 44, uma metralhadora fabricada lá mesmo, 16 de dois canos, uma espingarda 16 de um só cano, seis espingardas 20, uma espingarda 36 e duas carabinas 22; no C havia quatro fuzis, alguns rifles 44, espingardas 20 e carabinas 22; na CM, havia duas espingardas 20. A maior parte dessas armas era antiga e apresentava defeitos. Todos os combatentes tinham revólveres 38, com mais de 40 balas cada. Embora todos os elementos tivessem feito progresso no conhecimento do terreno, as deficiências ainda eram grandes. Muitos companheiros tinham ainda dificuldades em se orientar na mata e caçavam mal. Não existia também uma rede de informações e de comunicações. Não existiam organizações do Partido nas áreas periféricas, nem mesmo nos Estados vizinhos. A CM e os destacamentos A e B dispunham de pouco dinheiro.


A área de atuação dos destacamentos ia desde São Domingos das Latas até o rio Caiano (pouco mais de 20 km de São Geraldo). Em extensão, essa área tinha cerca de 130 km de comprimento por uns 50 km de fundo. Um total de cerca de 6.500 km². A população da área onde atuavam os destacamentos era de mais ou menos 20 mil almas, sem incluir as zonas próximas, como Marabá (18 mil habitantes), São João (3.000 habitantes), Araguatins (5.000 habitantes), Xambioá (5.000 habitantes). (No Norte de Goiás e Oeste de Maranhão, durante uns três anos, realizou-se também amplo trabalho de ligação com as massas). Os produtos principais da área são: castanha-do-pará, babaçu, arroz, mandioca e milho. Quase toda a região é de mata e há muita caça.


Ao iniciar-se a luta, a CM perdeu contato com o Destacamento C. Somente em janeiro de 1973, esse contato foi restabelecido.


Início da luta

O Exército atacou simultaneamente os destacamentos A e C. Uns dez dias depois, atacou o Destacamento B e também o local da CM. As tropas ficaram na Transamazônica e nas cidades de Xambioá, Marabá, Araguatins, Araguanã e nos povoados de Palestina, Brejo Grande, São Geraldo, Santa Cruz e outros. Não foi muito grande o número de soldados que entrou na área onde se achavam os PAs. O Exército ocupou algumas fazendas e sedes dos castanhais (Mano Ferreira, Oito Barracas, Castanhal da Viúva, Castanhal do Alexandre, Fazenda do Nemer). Utilizou aviões, helicópteros e, nos rios e igarapés, barcos da Marinha. As tropas não chegaram a entrar mata, movimentaram-se pelas estradas. Ficavam emboscadas nas proximidades de casas de moradores nas roças, capoeiras, grotas e algumas estradas. O Exército procurou apresentar os guerrilheiros com marginais, terroristas, assaltantes bancos, maconheiros etc. Depois passou a dizer que éramos estrangeiros, russos, cubanos, alemães. Prendeu muitos elementos de massa, que considerava mais amigos nossos, tanto nas roças como nas cidades vizinhas. Depois de alguns dias, esses elementos foram soltos. Começaram a se apoiar nos bate-paus da região e recrutar muitos deles para pô-los a seu serviço. Forçaram muitos moradores a servir de guias. Todos os nossos locais foram queimados pelo Exército, inclusive os paióis de milho e arroz e depósitos de castanha. Cortaram todas as árvores frutíferas. Também algumas roças e casas de massa foram queimadas. As perseguições estenderam-se aos padres. Alguns foram presos e depois soltos. O Exército não possuía informações completas sobre nós. Alguns PAs só foram queimados uns 15 dias depois do início da luta. O Exército, além da farda comum, usou também roupa azul, roupa camuflada e trajes civis. Suas patrulhas eram de dez elementos. Mas usava também grupos menores, seis, ou maiores, de 30. Recebia alimentação de campanha, em latas sacos plásticos. A primeira campanha se prolongou até julho.


Nossa Atuação

Ao serem atacados, todos os componentes dos destacamentos A e B retiraram-se, em ordem, para as áreas de refúgio. De imediato não e choques com o inimigo. Em de abril, dois elementos do B defrontaram-se com um grupo do exercito. Houve troca de tiros. Um sargento e um soldado foram mortos outros dispersaram. Os inimigos abandonaram no local uma que conduziam. No entanto, nesse encontro não foram apreendidas nem armas, nem essa carga. A CM reuniu-se em maio e tomou uma série de providências. Publicou também o Comunicado nº 1. Entre as providências, indicou como forma de luta a propaganda armada em vista explicar às massas o motivo da luta. Indicou medidas para melhorar o abastecimento, a preparação militar e o conhecimento do terreno. Ordenou que se estudassem as possibilidades de realizar ações de fustigamento e emboscadas. E iniciou a preparação de uma rede de informações. A tática então empregada resumia-se no seguinte:


recuar para as áreas de refúgio; buscar contato com as massas; e tentar realizar ações de fustigamento e emboscadas do inimigo.


O Destacamento A permaneceu no refúgio mais de um mês. Enfrentou dificuldades de abastecimento. Em julho voltou-se para a massa e foi bem recebido. No contato com as massas resolveu o problema de alimento e emboscada, mas não houve nenhuma ação militar. O inimigo se retirou da mata. Todos os componentes do A mantiveram-se firmes, com exceção do Paulo (João Carlos Campos Wisnesky), que fingiu doença.


O Destacamento B permaneceu mais tempo do que devia no refúgio. Somente em fins de junho começou a voltar-se para a massa, sendo também bem recebido. Houve o choque militar já mencionado. A atuação de massa foi principalmente na área da Palestina.


O Destacamento C apresentou alguns problemas mais sérios. Em abril, o destacamento já havia abandanado a área do rio Caiano, onde atuara, e se concentrara numa área de mais mata, mas onde o pessoal era recente, não conhecia bem a região. Além disso, entre os componentes do C havia dois elementos incorporados há apenas uns três meses, dois outros ingressaram no momento mesmo em que a luta se iniciava. Logo no início, alguns elementos mostraram vacilação. Miguel e Josias. Esse destacamento perdeu contato com a CM até janeiro de 73. Ao contrário do A e do B, que mantiveram os três grupos de sua composição sob controle direto do mando, no C o destacamento se dispersou em três grupos, indo um deles para a antiga região do Caiano. Todos procuraram contato com a massa. Houve vários choques militares. Em maio, um grupo dirigido por Jorge (Bergson Gurjao Farias) seguiu para um antigo PA (Água Bonita). Aí acampou. No dia seguinte, ouvindo um assobio perto de onde estava, Jorge mandou Domingos (Dower Morais Cavalcante) verificar o que era. Era o Exército. Domingos foi preso. Em seguida, houve troca de tiros, tendo os nossos se dispersado. Um soldado foi ferido no braço. Dois elementos [Baianinha (Luzia Ribeiro) e Miguel], que não conheciam a área, se perderam. Logo depois foram presos em casas de moradores, em pontos diferentes. Domingos se comportou mal e levou o Exército a um depósito do destacamento, onde havia remédios e alimentos. Dias depois, Paulo (comandante do destacamento) procurou um morador de nome Cearense, seu conhecido, que já havia prestado alguma ajuda, encomendando-lhe um rolo de fumo, que seria apanhado dentro de uns três dias. Cearense sempre foi muito ajudado por Paulo. No entanto, diante da recompensa oferecida pelo Exército (mil cruzeiros) a cada guerrilheiro que entregasse, Cearense foi a São Geraldo e avisou o Exército do ponto marcado por Paulo. No dia de apanhar o fumo, dirigiu-se ao local um grupo constituído por cinco elementos: Paulo, Jorge, Áurea (Áurea Eliza Pereira Valadão), Ari (Arildo Valadão) e Josias. Ao se aproximarem do local, foram metralhados, tendo morrido Jorge. Os demais se dispersaram. No choque, perdeu-se, além da arma de Jorge, uma pistola 45 que Paulo conduzia. Em meados de junho, três companheiros, dirigidos por Mundico (Rosalindo Souza), procuraram um elemento de massa, João Coioió, que já tinha ajudado várias vezes os guerrilheiros com comida e informação. Ficou acertado o dia em que ele voltaria de São Geraldo para entregar as encomendas. À noitinha desse dia, aproximaram-se da casa Mundico, Cazuza (Miguel Pereira dos Santos) e Maria (Maria Lúcia Petit), mas perceberam que não havia ninguém. Cazuza afirmou que ouvira alguém dizendo baixinho: "'pega, pega". Mas os outros dois nada tinham ouvido. Acamparam a uns 200 metros. Durante a noite, ouviram barulho que parecia de tropa de burro chegando na casa. De manhã cedo, ouviram barulho de pilão batendo. Aproximaram-se com cautela, protegendo-se nas árvores. Maria ia na frente. A uns 50 metros da casa, recebeu um tiro e caiu morta. Os outros dois retiraram-se rapidamente. Dez minutos depois, os helicópteros metralhavam as áreas próximas da casa. Alguns elementos de massa disseram, mais tarde, que Maria fora morta com um tiro de espingarda desfechado por Coioió. Este, logo depois, desapareceu com a família. Uns dias mais tarde, Lena (Regilena) entregou-se ao Exército. Deixou no acampamento a espingarda e a mochila. Em princípios de julho, Vitor e Carlito (Kleber Lemos da Silva) saíram para tentar um encontro com a CM. Mas Carlito não pôde prosseguir viagem, devido ao agravamento de uma ferida (leishmaniose) na perna. Sem poder caminhar, ficou num castanhal, próxima à estrada, enquanto Vitor voltava para avisar os companheiros. Nesse meio tempo, passou pela estrada o bate-pau Pernambuco, que ouviu o barulho de alguém quebrando um ouriço de castanha. Levou, então, o Exército ao local. Ao procurar se defender, Carlito foi alvejado no ombro e, em seguida, preso. Foi levado para um local chamado Abóbora e lá foi bastante torturado. Chegou a ser amarrado num burro e por este arrastado. Elementos de massa disseram que o viram praticamente morto sobre o burro. Soube-se depois que Carlito levou os soldados até um velho depósito que nada continha. Pode ser que o tenham matado, mas também pode ser que ficou apenas preso. Um pequeno grupo, chefiado por Ari, trocou tiros com o inimigo, tendo matado um soldado da Polícia Militar. O destacamento fez também uma ação contra um barracão, sede de castanhal, tendo conseguido regular quantidade de comestíveis, algumas pilhas e querosene. Mas pagaram as mercadorias ao preço corrente em São Geraldo. Também um grupo de três, num encontro casual, liquidou um bate-pau, filho de um tal José Pereira. O bate-pau foi intimado a levantar o braço. Mas apontou a arma contra os companheiros, sendo alvejado. A morte desse bate-pau causou pânico entre os demais da zona. Dois outros pequenos grupos caíram em emboscadas do Exército, mas não tiveram baixas. Conseguiram safar-se. A emboscada foi possível por falta de vigilância. Os companheiros iam caminhando por estradas e, apesar de notarem o rastro dos soldados, não se afastaram do caminho.


No curso da primeira campanha do inimigo, a CM manteve contato regular com os destacamentos A e B. A alimentação da CM foi mantida pelo B. Em julho, a CM resolveu enviar um grupo de companheiros, chefiados pelo Juca (João Carlos Haas Sobrinho), para conseguir relatar o contato com o C. Faziam parte do grupo: Flávio (Ciro Flávio de Oliveira Salazar), Gil (Manoel José Nurchis), Aparício (ldalisio Soares Aranha Filho) e Ferreira (Antonio Guilherme Ribeiro Ribas), do B. Esta medida se impunha, porque o C não atendeu aos pontos previamente estabelecidos. Este grupo caiu numa emboscada do Exército na Grota Vermelha, a uns 50 metros da estrada. Juca levou dois tiros, um na perna e outro na coxa, mas conseguiu, juntamente com os outros companheiros, embrenhar-se na mata. Ficaram parados alguns dias, para que Juca se restabelecesse. Durante esse período, Aparício saiu para caçar e se perdeu. Procurou a casa de um morador, chamado Peri, por onde sabia que os demais iam passar. Lá ficou à espera. O dono da casa onde se refugiou levou-o para um barraco no mato, próximo à casa. Aí lhe serviam a comida. Dias depois, apareceu o Exército e travou tiroteio com Aparício. Este descarregou todas as balas do revólver que tinha e, quando tentava enchê-lo de novo, recebeu um tiro e morreu. Não se sabe se o Exército chegou por acaso ou se foi denúncia. O Juca, com os outros, foi até a casa de morador conhecido que podia fazer o contato com o C. Deixou aí um ponto para o Paulo (todo dia 1º de cada mês, a partir de setembro). Mas o ponto era uma indicação que só Paulo poderia saber. Juca retornou à CM com os demais. A CM reforçou a sua guarda com a vinda de Ari (Marcos José), do A, e Zezinho, do B, e tentou fazer contato com o CC.


Assim termina o período da primeira campanha do inimigo.


Segunda campanha

A segunda campanha se inicia setembro de 1972. Nesta campanha, as Forças Armadas empregaram 8 mil a 10 mil soldados. As trapas eram, em geral, de recrutas e de vários Estados. Distribuíam-se por várias bases implantadas na área. Estas bases eram fazendas, sedes de castanhas ou mesmo roças. Ocuparam as estradas e abriram algumas picadas na mata. Chegaram a entrar na mata, guiados por um morador local (Osmar), na área do B. Havia pouca tropa especializada. A moral dos soldados era baixa. Todos estavam ansiosos para regressar. Armaram muitas emboscadas em beiras de grotas, estradas, casas de moradores e em capoeiras. Fizeram algumas armadilhas. Utilizaram helicópteros e aviões. Soltaram três bombas na mata, nas proximidades de um acampamento do Destacamento B. Recrutaram bate-paus locais e pagavam 25 cruzeiros por dia aos moradores que quisessem servir de guias. Durante a campanha, o Exército distribuiu boletins na área, concitando os guerrilheiros a se entregar. Distribuiu também o fac-símile de uma carta do Geraldo, dirigida ao Glênio (Glênio Sá), do B, na qual afirmava que estava sendo bem tratado, e com dignidade, pelo Exército e pedindo a ele para se entregar. A carta trazia o retrato de Geraldo e também o de Miguel (que havia sido preso no C). Elementos de massa dizem que viram também uma carta da Baianinha e outra da Lena, mas não temos confirmação. O boletim, entre outras coisas, dizia que "o povo não apoiava os guerrilheiros", que “as fonte de suprimentos dos guerrilheiros estavam bloqueadas", que “as organizações do Partido nas cidades haviam caído e onde não caíram, estavam prestes a cair", que "a luta do Araguaia não teve a repercussão que os guerrilheiros esperavam", que "as rotas de fuga estavam bloqueadas", que "a guerrilha urbana tinha fracassado e que era inútil prosseguir no caminho que estávavamos" e que "não restava outro caminho senão entregar-se". Ao mesmo tempo que realizavam a segunda grande operação, as Forças Armadas desenvolviam uma ação paralela junto às massas. Procederam à operação Aciso (Ação Cívico Social), distribuindo remédios, fazendo consultas médicas e dentárias, levando doentes de helicópteros e aviões para as cidades maiores. Montaram também uma operação com o lncra. Este anunciava que iria distribuir terras, legalizar as posses dos lavradores. A campanha militar manteve-se até fins de outubro.


Avanços e perdas

Ao iniciar-se a segunda campanha, os guerrilheiros já possuíam maior experiência. Tinham avançado no conhecimento da mata, na ligação com as massas, na preparação militar, e conseguido organizar um pouco melhor o abastecimento. As armas, no entanto, continuavam precárias. Não havíamos conseguido tomá-las do inimigo até esta data.


Antes de o inimigo entrar em ação, a CM tinha decidido enviar um dos seus membros para o Destacamento A e outro para o B, a fim de lá ficar um mês. O companheiro Juca foi enviado para o C, com o fim de reatar o contato.


No Destacamento A, o inimigo não conseguiu estabelecer contato com os guerrilheiros. Movimentou-se na área, sem resultado. O comando do destacamento tentou, também sem resultado, realizar operações de fustigamento. No dia 29 de setembro, houve um choque que resultou na morte de Helenira Resende (Helenira Resende de Souza Nazareth). Ela, juntamente com outro companheiro, estava de guarda num ponto alto da mata, para permitir a passagem, sem surpresa, de grupos do destacamento. Nessa ocasião, pela estrada, vinham tropas. Como estas acharam a passagem perigosa, enviaram "batedores" para explorar a margem da estrada, precisamente onde se encontrava Helenira e o outro companheiro. Este, quando viu os soldados, acionou a metralhadora, que não funcionou. Ele correu e Helenira não se deu conta do que estava sucedendo. Quando viu, os soldados já estavam diante dela. Helenira atirou com uma espingarda 16. Matou um. O outro soldado deu uma rajada de metralhadora que a atingiu. Ferida, sacou o revólver e atirou no soldado, que deve ter sido atingido. Foi presa e torturada até a morte. Elementos da massa dizem que seu corpo foi enterrado no local chamado Oito Barracas. A morte de Helenira causou grande indignação.


Zé Carlos e Nunes (Divino Ferreira de Souza) saíram para pesquisar um local que permitisse fazer uma emboscada. Na estrada, perceberam a vinda de gente e trataram de se esconder. Eram muitos soldados. Já tinham passado os quatro primeiros. O quinto os viu e atirou. Houve forte tiroteio. Nunes e Zé Carlos escaparam com muita dificuldade. Ambos chegaram a sofrer arranhões das balas.


No Destacamento B, um pouco antes do início da segunda campanha, havia-se programado uma ação de propaganda armada no povoado de Santa Cruz. Quando os companheiros se deslocaram para fazer essa operação, o inimigo já estava penetrando na área. Amauri (Paulo Roberto Pereira Marques) e Mané (José Maurílio Patricio) chegaram a ir até Santa Cruz, enquanto os outros aguardavam num acampamento à margem do Gameleira. Quando Amauri chegou ao povoado, ainda não havia soldados. Ao regressar para avisar os demais, foi surpreendido por tropas que já tinham chegado. Ele foi atacado e respondeu ao fogo. Escondeu-se numa capoeira e conseguiu escapar. Os soldados vinham para atacar o acampamento. Na véspera, passara ali um bate-pau, Mãozinha de Paca, e viu o acampamento. Falou com o Comprido (Simão Cilon Cunha Bruno) e mostrou-se amigo. Em seguida, foi avisar O Exército. No dia 15, os helicópteros começaram a sobrevoar a área. Desta forma, a ação programada para Santa Cruz não poderia mais ser realizada. O comando resolveu retirar o grosso dos combatentes e mudar de área. Foi para a Palestina. Antes de se retirar, foi tentada uma emboscada que não se realizou. Ficaram dois grupos de três, com o objetivo de fazer fustigamento ao inimigo. Deviam permanecer na área por cinco dias e retomar depois para se juntar ao destacamento. Um grupo ficou à espera do inimigo na estrada que vai para Couro d'Anta e outro na estrada que vai para Duas Passagens. Passaram quatro soldados, vestidos à paisana, pela estrada onde estava o primeiro grupo.


Amauri ficou em dúvida se eram realmente soldados, e quando chegou a essa conclusão, já o último