1/10

"No Trabalho Sanitário materializemos o princípio de que a Revolução liberta o Povo"



Camaradas,


Iniciamos hoje um novo curso para formação de enfermeiros. Em 1968 tínhamos sido obrigados a suspender estes cursos. Durante três anos eles estiveram interrompidos. Durante três anos a nossa luta, o nosso Povo, viram-se impedidos de receberem novos quadros de saúde. Durante estes últimos três anos morreram combatentes por falta de assistência sanitária, morreram elementos do Povo, morreram crianças, porque não estávamos em condições de lhes dar um mínimo de assistência médica. Para muitas regiões libertadas, para muitas populações, estes últimos três anos não foram anos de combate contra a doença. O nosso povo viu-se esquecido como na época colonial, durante este três anos.


Há três anos atrás tínhamo-nos engajado na batalha de formação de quadros para a saúde. Perdemos a batalha nesse momento. Não há guerra em que só existem vitórias para nós e derrotas para o inimigo.


Perdemos a batalha, porque a consciência política dos alunos de enfermagem não estava em condições de assumir o sentido e a importância da batalha que se travava e, assim, permitiram que o inimigo se instalasse no seu seio.


Em 1968, a nossa luta armada desenvolvia-se muito. Bombardeávamos e tomávamos de assalto as bases inimigas. Fazíamos soldados portugueses prisioneiros de guerra, capturávamos toneladas de material. Em Tete, reabríamos a frente da luta armada.


A batalha fundamental pela clareza da nossa linha política, pelo desenvolvimento da nossa ideologia, demonstrava os objetivos populares das forças revolucionárias no nosso seio.


Este combate engajava o pessoal da saúde. Este combate era também um combate entre duas linhas no domínio da saúde. Um combate para defender os interesses do Povo no campo da saúde.


1. O Que é o Hospital da FRELIMO e suas Tarefas

À primeira vista pode parecer absurdo falarmos em linha política no campo da saúde, em combate entre duas linhas no domínio da saúde. À primeira vista pode-se pensar que existe na FRELIMO uma vontade de politizar uma coisa, aparentemente tão neutra, como a saúde. No fim de contas, dirão esses que imaginam uma saúde apolítica, a penicilina ou cloroquina têm o mesmo efeito, quer sejam administradas ou não por um revolucionário, quer sejam dadas num hospital da FRELIMO ou num hospital colonialista.


Mas todos os nossos atos, toda a nossa vida, são radicalmente diferentes dos atos e da vida da zona do inimigo.


Na zona do inimigo, na zona colonialista, na zona capitalista, tudo se destina a manter o Povo dominado, manter o Povo explorado, dar lucro aos capitalistas.


Na zona capitalista, na zona colonialista, a estrada serve para fazer passar rapidamente a tropa e polícia que te prendem e levam para o trabalho forçado. A estrada é o caminho rápido para te virem buscar o imposto. A estrada serve para levar o algodão, que tu produziste mas pertence à companhia. Serve para o comerciante te vir vender, a preços fabulosos, os artigos que tu e teus irmãos de classe produziram e de que os colonialistas se apropriaram a preços de miséria.


Na zona do inimigo a escola é para, os filhos dos ricos, mesmo se ela é financiada pelos teus impostos. Se alguma vez, como por milagre, o filho do pobre entra na escola, não é para aprender a servir o seu País. A escola vai-lhe lavar o cérebro, fazer-lhe ter vergonha da sua origem, transformá-lo em instrumento dos ricos para explorar os trabalhadores.


Tudo tem um conteúdo em função da zona em que se encontra, em função da natureza do poder que existe nessa zona. Na zona capitalista e colonialista a escola, a machamba, a estrada, o tribunal, a loja, o técnico, as leis, o estudo, tudo serve para sermos explorados, oprimidos.


Na nossa zona, porque o poder nos pertence, porque são os camponeses, operários, as massas laboriosas quem concebe e dirige, tudo se destina a libertar o homem, a servir o Povo.


Assim se passa com os hospitais, com o serviço de saúde.


Na zona do capitalismo e do colonialismo o hospital é um dos centros de maior exploração. Aí, porque está em jogo a vida dum homem, a vida dos seus entes mais queridos, é onde se manifesta da maneira mais desmascarada e sem vergonha a ganância do mundo capitalista.


Não se entra e não se é tratado no hospital capitalista em função das necessidades. Quando se é pobre, quando não se tem influências poderosas, é difícil arranjar-se uma cama no hospital, e no entanto o cancro devora-te a carne, a tuberculose rói-te os pulmões, a febre queima-te o corpo. O rico, o senhor, o patrão, esse não tem a mínima dificuldade em obter quartos, em obter lugar para si e para quem o acompanha.


Mobilizam-se médicos e professores da faculdade para tratar a constipação do grande capitalista, para curar a prisão de ventre do senhor juiz, mas ao lado morrem crianças, morrem homens, porque não tiveram dinheiro para chamar o médico.


No hospital não se analisam os doentes, analisam-se as riquezas. O medicamento é vendido a peso de ouro. Só se trata quem pode pagar. A operação é para quem a pode custear. A comida, a dieta, as frutas ou o leite, a salada, as carnes e peixes delicados para revigorarem o doente, isso não é para quem precisa, mas para quem pode pagar. Até a ambulância, que vai buscar de urgência quem está a morrer, muitas vezes regressa vazia porque a família do moribundo não pode garantir o pagamento das faturas.


Na zona do inimigo os cães dos ricos têm mais vacinas, mais medicamentos, mais cuidados médicos do que os trabalhadores que constituíram a riqueza do rico.


Não é pois de estranhar que na zona do inimigo ser-se médico significa também ser-se rico, ser-se enfermeiro significa também um alto vencimento de muitos contos. Ser-se médico é gozar-se duma elevada situação social como explorador, ser-se enfermeiro é gozar de muitos privilégios.


No Moçambique dos colonialistas e capitalistas só há hospitais onde há colonos, só há médicos e enfermeiros onde vivem os que podem pagar. Na cidade de Lourenço Marques há mais camas nos hospitais, mais médicos, mais enfermeiros, mais laboratórios do que em todo o resto de Moçambique. Será que isto quer dizer que só em Lourenço Marques é que há doentes?


Nas minas onde trabalhamos, nas plantações das companhias que cultivamos, nas estradas que estamos a abrir, nas fábricas, nas machambas, nas povoações, há milhões e milhões de Moçambicanos que nunca viram um médico, nunca viram um enfermeiro, que estando doentes nunca puderam beneficiar de qualquer assistência sanitária.


O nosso hospital é diferente. O que faz um hospital não são os instrumentos cirúrgicos ou medicamentos que lá se encontram. Os instrumentos os medicamentos, são importantes, mas o que é essencial, o que é o fator decisivo, é o homem. Por isso, hoje, pela primeira vez, em Cabo Delgado, em Niassa, em Tete, o Povo é objeto de assistência, sanitária, as pessoas são vacinadas, nas povoações aprendem-se hábitos de higiene. No entanto são raros os nossos medicamentos, são muito poucos os nossos instrumentos cirúrgicos, e as nossas instalações são tão pobres que do exterior mal se distinguem de modestas palhotas.


O nosso hospital é constituído de sangue, de sacrifícios. Não são paus e maticado, cimento ou tijolos, que constroem as paredes do nosso hospital.


O nosso hospital pertence ao Povo, é um fruto da Revolução. O nosso hospital é muito mais que um centro de distribuição de medicamentos, ou do curativos.


Um hospital da FRELIMO é um centro em que se concretiza a nossa linha política de servir as massas, é um centro em que se materializa o nosso princípio de que a Revolução liberta o Povo.


O nosso hospital destina-se a libertar o Povo da doença, a dar boas condições físicas aos combatentes, militantes e trabalhadores, para que estes cumpram as tarefas revolucionárias em que estão empenhados, por amor do Povo.


Curamos as pessoas pela confiança que inspiramos, pelo moral que lhes Inculcamos. O pessoal da saúde, o doente e o medicamento combinam-se para libertar o homem da doença.


O nosso hospital é um centro da Revolução, ele existe por causa da Revolução e está intimamente associado à Revolução.


Enquanto os hospitais capitalistas e colonialistas estão ligados aos exploradores, aos colonos, porque é a eles que servem, o nosso hospital está ligado às massas porque é a elas que se destina.


Assim o nosso hospital é um centro de unidade nacional, um centro de unidade de classe, um centro de purificação de ideias, um centro de propaganda revolucionária e organizacional, um destacamento de combate.


Pessoal médico, alunos, serventes, doentes, e o resto da sociedade estão intimamente unidos.


No hospital da FRELIMO não há tribos, não há regiões, não há raças, não há crenças religiosas, não há nada que nos divide. O hospital cumpre uma tarefa revolucionária. Pessoal médico, alunos, serventes, estão a cumprir tarefas essenciais que lhes foram confiadas pelo Povo.


O Povo inteiro, do Rovuma ao Maputo, pelos sacrifícios que fez, pelo sangue que verteu, ergueu esse hospital para o servir, para o libertar da doença. Ninguém foi enviado por uma tribo ou região para trabalhar num hospital.


Na medida em que os doentes sentirem unidade no pessoal do hospital desde o médico aos serventes, eles unir-se-ão ao pessoal médico e serventes e juntos concentrarão forças para liquidar a doença. Mas se houver desunião reinará a desconfiança, o doente recusará o medicamento porque temerá que o tratamento a que o submetem sirva para agravar a sua situação.


Estamos todos unidos no cumprimento da nossa tarefa. Não temos pequenas ou grandes tarefas, porque eu sou servente e aquele é enfermeiro ou médico. A nossa tarefa é essencial, embora as nossas responsabilidades sejam diferentes.


O sentirmos qualquer complexo de inferioridade no cumprimento da nossa tarefa, o preocuparmo-nos em procurar grandes e pequenas tarefas, significa falta de consciência de classe.


Somos de origem trabalhadora, seguimos as massas laboriosas, o Povo trabalhador. A nossa tarefa é grandiosa. Qualquer outra atitude só reflete elitismo, busca de privilégios, perca do sentido de classe, aquisição de ideias burguesas.


Exige-se pois que, assim como nos desinfetamos ao entrar na sala de operações, nos purifiquemos das ideias erradas e complexas que vêm contaminar o nosso hospital. Assim como nos revestimos de máscaras e batas, devemos estar constantemente armados da nossa unidade e consciência de classe, para revolucionariamente servirmos as massas.


Neste contexto, o nosso hospital será realmente um centro de propaganda revolucionária e organizacional, ele será um exemplo concreto da justeza da nossa linha, uma verdadeira zona da FRELIMO.


Assim o hospital cumpre as nossas tarefas, ele combate a doença, ele forma o homem, ele produz.


A produção não pode estar separada da nossa atividade sanitária.