A troca de mercadorias e o enigma do dinheiro


Como havíamos prometido, no primeiro escrito, há um mês, aqui daremos prosseguimento a nossa série sobre O Capital de Marx. Nos mantemos fieis ao propósito inicial de produzir documentos que sejam ferramentas didáticas simples para a compressão dessa ferramenta extraordinária de compreensão da sociedade e o estudo da História econômica, que é o pensamento econômico marxista. Esperamos poder cumprir também com os padrões mínimos de qualidade, evitando vulgarizações excessivas. No que segue encontra-se uma exposição da análise de Marx do aparecimento do dinheiro por meio do desenvolvimento das trocas de mercadorias, aonde nos limitamos a mera reprodução dos conceitos apresentados em sua obra, sem qualquer esforço de digressão. O leitor notará também as dimensões bastante reduzido desse artigo se comparado ao primeiro, mas é assim mesmo que deve ser; visto que a complexidade maior o primeiro tema (a teoria do valor) e a própria dimensão do espaço reservado para ele por Marx em sua obra requeria um texto de maiores dimensões. Os demais trabalhos também devem apresentar entre si grande variedade de dimensões e de formas, adequando-se as suas tarefas específicas.

A volição humana de troca como reflexo da relação econômica

As mercadorias são coisas sob o controle dos homens, que só se relacionam entre si através da vontade destes, pois os homens se apossam da mercadoria do outro somente alienando a sua própria, em ato voluntário comum. É necessário, então, que eles se reconheçam reciprocamente como proprietários privados. Tal relação, assim, é uma relação de volição, reflexo da relação econômica [1]. Ao se confrontarem os homens, os seus papeis econômicos apenas constituem expressão das relações econômicas que estes representam.

Vejamos como.

A mercadoria é um não-valor-de-uso para o seu proprietário, sendo, a sua qualidade de meio de troca o único valor-de-uso para ele. Precisa, por isso, troca-la por um valor-de-uso que lhe atenda. Somente para o não-proprietário é a mercadoria um valor-de-uso. Sendo a troca a realização do valor da mercadoria, ela realiza-se primeiro como valor, e só depois como um valor-de-uso.

A necessidade de um equivalente geral para o processo de troca

O proprietário busca na troca um valor-de-uso que lhe satisfaz e, ao mesmo tempo, a realização da sua mercadoria como valor. A troca de mercadoria apresenta-se, assim, a cada proprietário, como um processo puramente individual que se torna social. Mas ela não pode ser assim para todos os proprietários [2]. Pois, como todos os possuidores de mercadoria raciocinam igual, vêm nas mercadorias alheias formas particulares de equivalente de sua mercadoria e, consequentemente, sua mercadoria como equivalente geral. Assim, não existe verdadeiramente equivalente geral, e seus produtos confrontam-se somente como valores-de-uso, não como mercadorias. Desse modo, suas relações como mercadoria, como valores, só se estabelecem a medida em que se comparam a outra qualquer, que se patenteia, por sua vez, como equivalente geral. Essa mercadoria, eleita pela ação social de todas as outras para representar seus valores é uma forma de equivalente com validade social: ela vira dinheiro porque ser equivalente geral torna-se sua função especifica.

A fórmula das trocas diretas e o recrudescimento da oposição entre valor-de-uso e valor

O desenvolvimento da troca recrudesce a oposição entre valor-de-uso e valor, ao exigir uma forma independente para o valor das mercadorias, que só é satisfeito com a reprodução da mercadoria em mercadoria e dinheiro [3].

A troca direta de produtos só assume parcialmente a forma simples do valor. Sua fórmula é x de objeto útil A = y de objeto útil B. Isso porque, aqui, os objetos A e B não são mercadorias antes da troca, mas transformam-se em mercadoria por meio da troca. Quando uma quantidade de objeto útil ultrapassar as necessidades diretas do seu possuidor transforma-se em não-valor-de-uso, passando assim a ser um valor-de-troca. Essa dissociação entre o valor-de-uso e o valor-de-troca, que caracteriza as trocas diretas, evolui historicamente das trocas esporádicas nas fronteiras das comunidades primitivas, seu ponto de partida, através do qual passa a contaminar lentamente o interior destas comunidades, arraigando progressivamente a necessidade de objetos úteis vindos de fora, assim, tornando a troca um processo regular através de sua repetição constante. Passa-se a produzir para a troca ao menos uma parte dos produtos. Surgem coisas destinadas a satisfação e coisas destinadas a troca [4].

Formas primitivas do dinheiro e os metais preciosos

Na troca direta de produtos, o artigo de troca não assume uma forma de valor independente, desligada do valor-de-uso das mercadorias, pois, a necessidade dessa forma desenvolve-se com o crescimento do número e da variedade das mercadorias que entram na troca. O desenvolvimento da troca de mercadorias fixa a forma de equivalente geral ou social em tipos especiais de mercadorias, que assumem a forma dinheiro. Esta forma dinheiro prende-se geralmente aos artigos mais importantes fornecidos do exterior, ou ao elemento principal do patrimônio nativo alienável [5]. Quanto mais a troca de mercadorias ultrapassa os vínculos locais, a forma dinheiro vai se localizando nos metais preciosos. Isso porque, o ouro e da prata possuem os atributos naturais que os tornam mais adequado a exercer a função de dinheiro, como a sua possibilidade de divisão, por exemplo. O dinheiro é por natureza ouro e prata. Sobretudo, o ouro adquire, além de seu valor-de-uso próprio da qualidade de mercadoria, um valor-de-uso que decorre de sua função social [6].

O enigma do dinheiro

A confusão entre o valor e a forma do valor, leva a crer que o valor do ouro e da prata é imaginário. Também o fato de se poder substituir o ouro por meros símbolos dele, em certas funções sociais, levou a se supor que ele era um mero símbolo. Como vimos, porém, o dinheiro é um simples reflexo das relações existentes entre todas as mercadorias, que se gruda a uma delas exclusivamente. Acontece que a mercadoria que adquire a forma de dinheiro recebe da troca, não o seu próprio valor, mas, a sua forma de valor. É pelo fato de analisarmos a sua forma perfeita e acabada, e de a tomarmos como ponto de partida, que o fato de ser dinheiro mercadoria aparece como uma descoberta para nós [7].

Igual a qualquer outra mercadoria o dinheiro só expressa a magnitude de seu valor de forma relativa em outras mercadorias. Sendo o ouro dinheiro, sabemos que ele é permutável por qualquer outra mercadoria, mas nem por isso sabemos quanto valem 10 quilos de ouro, por exemplo. O seu valor é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para a sua produção e a magnitude de seu valor relativo se verifica por meio de sua troca direta. Ao entrar em circulação como dinheiro seu valor está já fixado [8].

A aparência ilusória da forma dinheiro afirma que todas as mercadorias expressam seus valores numa mercadoria porque ela é dinheiro. Na verdade, é o contrário que se dá. Tal aparência é resultado de a forma de equivalente geral se fundir com a forma física de uma determinada espécie de mercadoria, se apresentando na forma dinheiro. É pelo fato de todas as mercadorias expressarem naquela mercadoria específica o seu valor que ela se torna dinheiro. Ao atingir a sua forma acabada, a fase intermediária do processo desaparece; as mercadorias encontram já prontas a figura de seu valor em outra mercadoria; enquanto o ouro e a prata saem da terra já como encarnação da totalidade do trabalho humano. Marx conclui, portanto, que, a chave para o enigma do fetiche do dinheiro é que ele é a forma mais feérica do enigma do fetiche da mercadoria. [9]

Últimas considerações

Nesse segundo texto da nossa série sobre O Capital de Karl Marx, vimos, brevemente, como o próprio desenvolvimento dos processos de troca demandam o aparecimento de um equivalente geral das mercadorias que, fixado socialmente, torna-se dinheiro. Das formas primitivas do dinheiro, fixa-se aos metais preciosos, a medida em que os processos de troca superam as relações locais. É por todas as demais mercadorias expressarem o seu valor numa determinada espécie de mercadoria, os metais preciosos, sobretudo o ouro, que ele se transforma em dinheiro. Nas suas formas ilusórias, o dinheiro apresenta como mero símbolo, ou como valor imaginário, ou mesmo, cresse que o fenômeno se dá de modo contrário, que por uma determinada mercadoria ser dinheiro, todas as mercadorias expressam nela o seu valor. A questão é, porém, como explica Marx, que o enigma do fetiche do dinheiro é que ele é a forma mais lauta do enigma do fetiche da mercadoria. O fetichismo das mercadorias, como estudamos antes, é fruto da forma mercadoria ocultar a relação dos trabalhos individuais dos produtores e o trabalho total, refletindo essa relação social a sua margem, na forma da relação entre coisas. Igualmente, a forma dinheiro do valor das mercadorias oculta o fato de ser ele fruto da relação social que se estabelece entre todas as mercadorias, o desenvolvimento de sua forma de equivalente geral.

Até aqui estudamos a gênese do dinheiro, o que quer dizer, o dinheiro enquanto equivalente geral do valor das mercadorias. Nos próximos textos analisaremos as demais funções que exerce o dinheiro a medida em que se desenvolve a circulação de mercadorias.

Notas

[1] MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política - Livro I. - 23ª ed. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. P.109 (Todas as notas são do presente volume).

[2] P. 110

[3] P. 111

[4] P.112

[5] P.113

[6] P.114

[7] P.115

[8] P.116

[9] P.117

Ícaro Leal Alves

NOVACULTURA.info

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