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Gossweiler: "Dimitrov sobre a dissolução da III Internacional"


Numa discussão com destacados camaradas do DKP sobre a dissolução do Bureau de Informação Comunista por Kruschev, durante a qual caracterizava esta dissolução como uma das medidas através das quais Kruschev, introduziu no movimento comunista o “nacional comunismo”, propagandeado pelo partido de Tito [1], em lugar do princípio marxista-leninista do internacionalismo proletário, foi-me respondido:


Então, deves dirigir essa crítica, em primeiro lugar, a Stalin, pois foi ele que, em 1943, ordenou diretamente, sem perguntar nada a ninguém, a dissolução da Internacional Comunista, infligindo assim um duro golpe no movimento comunista!


Esta perspectiva sobre a dissolução do Komintern, dominante quer no DKP quer no PDS, e ainda mais em todos os partidos e grupelhos trotskistas, tem tão pouco a ver com a verdade como as lendas tratadas nos capítulos anteriores e refutadas com a ajuda das notas do diário de Dimitrov. [2]


Dimitrov conta-nos, igualmente, o que se passou na realidade. Pertence aos antecedentes uma lei dos EUA assinada pelo presidente Roosevelt em 17 de Outubro de 1940. Esta lei proibia as organizações norte-americanas de terem qualquer filiação internacional. O Partido Comunista dos EUA podia ser proibido por causa da sua filiação na Internacional Comunista. Na altura, o seu secretário-geral, Earl R. Browder [3], estava na prisão. Tinha sido condenado, em Janeiro de 1940, a quatro anos de cadeia por “delito de passaporte”. A seu pedido, o partido interpelou o Comitê Executivo da Internacional Comunista, colocando a questão se não seria adequado, para evitar a proibição do partido, desfiliar-se da Internacional Comunista. [4] A seguinte nota do Diário de Dimitrov relaciona-se manifestamente com esta interpelação:


16.11.40: Ercoli [Togliatti] [5], Marty [6] e Gottwald [7] [estiveram] comigo por causa da interpelação do PC americano relacionada com o seu congresso extraordinário. Concordamos na seguinte resposta: “Se for absolutamente necessário tomar uma decisão sobre a questão da filiação [na organização do Komintern], então ela deverá sublinhar a fidelidade do partido ao marxismo-leninismo e ao internacionalismo proletário no preciso momento em que o partido se vê forçado a interromper temporariamente a ligação à IC para manter a possibilidade de trabalhar legalmente. (p. 319)


Cinco meses mais tarde, em Abril de 1941, Dimitrov relata as observações de Stalin no círculo de camaradas dirigentes:


20.4.41: Brindou-se à minha saúde. Nesta ocasião I.V. [Stalin] disse: Dimitrov tem partidos no Komintern que estão a sair (alusão ao partido americano). Isso não é mau. Pelo contrário, devia-se tornar os partidos comunistas completamente independentes em vez de secções da IC. Eles devem tornar-se partidos comunistas nacionais com diferentes designações – partido operário, partido marxista, etc. O nome não é importante. O importante é enraizarem-se no povo e concentrarem-se nas suas tarefas específicas. Devem ter um programa comunista, devem apoiar-se numa análise marxista, mas, sem estarem a olhar para Moscou, deveriam resolver autonomamente as tarefas concretas que se lhes colocam em cada país. A situação e as tarefas nos diversos países são completamente diferentes (…) Quando deste modo os partidos comunistas se reforçarem, então reconstruir-se-á de novo a sua organização internacional.


A Internacional foi fundada no tempo de Marx na expectativa da revolução internacional iminente. O Komintern foi criado com Lenin, igualmente num período idêntico. Agora as questões nacionais passam para primeiro plano em cada país. Porém, a situação dos partidos comunistas enquanto secções de uma organização internacional, subordinadas ao Comitê Executivo da Internacional Comunista, constitui um entrave. Não se agarrem ao que existia ontem. Avaliem rigorosamente as novas condições criadas. (…)


A filiação dos partidos comunistas no Komintern, nas atuais condições, facilita a perseguição da burguesia contra eles e o seu plano para os isolar das massas do próprio país; e impede os partidos comunistas de se desenvolverem autonomamente e de resolverem as suas tarefas enquanto partidos nacionais.


Conclusão de Dimitrov:


Foi colocada de maneira clara e precisa a questão da existência do Komintern nos próximos tempos e das novas formas de ligação e de trabalho internacional nas as condições da guerra mundial. (p. 374 e seg.)


Dimitrov reuniu-se com camaradas dirigentes do Comitê Executivo da Internacional Comunista (CEIC) sobre esta questão:


21.4.41: Confrontei Ercoli e Maurice [Thorez] [8] com a questão da suspensão da atividade do CEIC nos próximos tempos enquanto instância dirigente dos comunistas, da concessão de total autonomia a cada um dos partidos, da sua transformação em verdadeiros partidos comunistas nacionais dos respectivos países, orientados por um programa comunista, mas resolvendo as suas tarefas concretas à sua maneira, de acordo com as condições nos seus países, e assumindo a responsabilidade pelas suas decisões e ações. Criar no lugar do CEIC um órgão de informação e de apoio político e ideológico dos partidos comunistas. Ambos consideraram a colocação do problema como, no essencial, correta e inteiramente correspondente à situação atual do movimento operário internacional. (p. 375)


Pouco tempo depois, Dimitrov teve mais reuniões com outros camaradas, como D.Z. Manuílski [9] e de A.A. Zhdanov [10], levou a cabo outras consultas sobre esta questão.


12.5.41: Discutiu-se com D.Z. Manuílski como se devia justificar a resolução sobre a suspensão da atividade do CEIC. Múltiplas questões difíceis e confusas estão relacionadas com esta reorganização. No CC (com Zhdanov). Falamos sobre o Komintern.


1) A resolução deve ter uma fundamentação de princípio, uma vez que teremos de explicar seriamente no estrangeiro, bem como aos nossos comunistas soviéticos, por que razão se dá tal passo. O Komintern tem uma grande história e de repente deixa de existir e agir como um centro internacional homogêneo. Na resolução deveríamos prever antecipadamente todos os possíveis golpes do inimigo, por exemplo, de que se trata supostamente de uma manobra ou que os comunistas renegaram o internacionalismo e a revolução proletária internacional. A nossa argumentação deve ser de forma a proporcionar um desenvolvimento dos partidos comunistas e não crie um ambiente fúnebre e de desânimo. (…) As ideias do Komintern penetram profundamente nas camadas de vanguarda da classe operária dos países capitalistas.


Na etapa atual é necessário que os partidos comunistas se desenvolvam enquanto partidos nacionais autônomos. Na base do florescimento do movimento comunista nacional em cada país, ressurgirá na etapa seguinte uma organização internacional comunista numa base mais firme e mais ampla. É preciso mostrar com clareza que a dissolução do CEIC não significa a renúncia à solidariedade proletária internacional. Pelo contrário, mudam-se apenas as formas e métodos em que esta se manifesta por formas e métodos mais bem adaptados à etapa atual do movimento operário internacional.


2) Este passo deve de ser absolutamente sério e consequente. Não devemos fazê-lo como se mudasse apenas a roupagem e se deixasse todo o resto como antes, isto é, o CEIC dissolve-se, mas na prática o centro dirigente internacional continua a existir sob outra capa.


3) É muito importante a questão de quem tomará a iniciativa: por iniciativa própria da direção ou por proposta de uma série de partidos comunistas? A última parece preferível.


4) Neste assunto, que não é assim tão urgente, não nos devemos precipitar, mas sim discuti-lo e prepará-lo seriamente. Três questões necessitam de ser discutidas: a) como fundamentar em termos de princípio; b) por iniciativa de quem deve ser tomada a resolução; c) como continuar a herança da IC?


Em qualquer caso, o movimento comunista pode obter grandes vantagens com este passo: a) todos os pactos anti-komintern perdem de imediato qualquer fundamento; b) a burguesia fica privada do seu grande trunfo, de que os comunistas são subordinados de um centro estrangeiro, quer dizer, “traidores”; c) os partidos comunistas reforçarão a sua independência e transformar-se-ão em verdadeiros partidos populares nos respectivos países; d) facilita-se também a adesão ao partido comunista daqueles operários ativistas que agora não aderem por considerarem que com isso se afastam do seu povo. (p. 386 e seg.)


Como vemos, seis semanas antes do ataque da Alemanha nazi contra a União Soviética, a dissolução da IC estava pois, por assim dizer, decidida. Contudo, o início da guerra patriótica contra a Alemanha fascista passou compreensivelmente para primeiro plano, sobrepondo-se a todas as outras questões. Além disso, nas condições totalmente alteradas da aliança da União Soviética, da Grã- Bretanha e dos Estados Unidos, por um certo período, a direção dos partidos comunistas pelo CEIC adquire uma vez mais grande importância. É só depois da grande vitória do Exército Vermelho na batalha de Stalingrado, em Maio de 1943, vitória que permitiu conduzir definitivamente os exércitos da Alemanha fascista para a via da derrota, que voltamos a encontrar no diário de Dimitrov a primeira alusão à dissolução da Internacional Comunista desde o início do ataque fascista.


8.5.43: À noite, em casa de Molotov com Manuílski. Conversamos sobre o futuro do Komintern. Chegamos à conclusão de que, nas atuais condições, o Komintern, enquanto centro de direção, constitui para os partidos comunistas um obstáculo ao seu próprio desenvolvimento autônomo e à realização das suas tarefas específicas. Elaborar um documento para a dissolução deste centro.


Entre 8 e 22 de Maio de 1943 não há um só dia no diário de Dimitrov sem uma referência aos debates sobre esta questão. Em 11 de Maio de 1943, um projeto de declaração do CEIC, redigido por Dimitrov e Manuílski, é apresentado a Stalin, que manifesta o seu acordo. Examinado várias vezes no Presidium do Komintern, o projeto foi redigido na sua versão definitiva em 20 de Maio de 1943, aceite unanimemente pelo Bureau Político do Partido Comunista da URSS, em 21 de Maio de 1943, e publicado no Pravda, em 22 de Maio de 1943, sob o título “Comunicado do Presidium do Comitê Executivo da Internacional Comunista”. [11]


O seu teor era o seguinte:


O papel histórico da Internacional Comunista, que surgiu em 1919, a seguir ao desmoronamento político da esmagadora maioria dos velhos partidos operários de vanguarda, consistiu na defesa dos ensinamentos do marxismo contra o seu rebaixamento e a sua distorção por elementos oportunistas do movimento operário. Consistiu em favorecer numa série de países a unificação da vanguarda dos operários progressistas em verdadeiros partidos operários, ajudá-los a mobilizar as massas de trabalhadores para a defesa dos seus interesses políticos e econômicos, para o combate contra o fascismo e a guerra que este preparava, e apoiar a União Soviética como principal baluarte da luta contra o fascismo. A Internacional Comunista revelou, no momento próprio, o verdadeiro significado do “pacto anti-Komintern”, do qual os hitlerianos se serviam como instrumento para a preparação da guerra. Bem antes disso, o Komintern já tinha denunciado incansavelmente o vergonhoso trabalho de sapa dos hitlerianos noutros estados, atividade que disfarçavam com atoardas sobre uma pretensa ingerência da Internacional Comunista. Muito antes da guerra tornara-se claro que, face à complexidade crescente da situação tanto interna como externa dos diversos países, a resolução das tarefas do movimento operário em cada país pelas forças de um qualquer centro internacional deparar-se-ia com dificuldades insuperáveis. A diferença das vias históricas de desenvolvimento dos diferentes países do mundo, o carácter diferenciado, até mesmo o contraste da sua estrutura, a diferença de nível e de ritmo da sua evolução social e política e, finalmente, a diferença de grau de consciência e de organização dos trabalhadores fazem com que tarefas distintas se imponham à classe operária dos diferentes países. O desenrolar dos acontecimentos no quartel de século entretanto decorrido e a experiência adquirida pela Internacional Comunista mostraram de maneira convincente que a forma de organização escolhida no momento do I Congresso da Internacional Comunista para a unificação dos trabalhadores – e que correspondia às exigências do período inicial de renascimento do movimento operário – perde cada vez mais eficácia com o crescimento do movimento operário nos diferentes países e a complexidade das suas tarefas e tornando-se mesmo um obstáculo ao desenvolvimento ulterior dos partidos operários nacionais.


A guerra mundial desencadeada pelos hitlerianos acentuou ainda mais as diferenças na situação nos diversos países, cavou um fosso profundo entre os países representantes da tirania hitleriana e os povos amantes da liberdade, que se juntaram na poderosa coligação anti-hitleriana. Enquanto nos países do bloco hitleriano a tarefa principal dos trabalhadores, dos operários e de todos os homens honestos consiste em colaborar de todas as formas para a derrota deste bloco, minando a máquina de guerra hitleriana, em contribuir para a queda dos governos responsáveis pela guerra, nos países da coligação anti-hitleriana é um dever sagrado das amplas massas populares, e sobretudo dos trabalhadores progressistas, apoiar de todas as maneiras os esforços de guerra dos governos destes países para esmagar o mais rapidamente possível o bloco hitleriano e assegurar a colaboração das nações na base da igualdade de direitos. A este propósito é preciso não perder de vista que alguns países reunidos na coligação anti-hitleriana têm também as suas tarefas específicas. Assim, por exemplo, nos países ocupados pelos hitlerianos e privados da sua independência estatal, a tarefa principal dos trabalhadores progressistas e das amplas massas populares consiste no despontar da luta armada com vista a transformá-la em guerra de libertação nacional contra a Alemanha de Hitler. Em concomitância, a guerra de libertação dos povos amantes da liberdade contra a tirania hitleriana pôs em movimento as mais amplas massas populares que, sem distinção de partido ou de crença religiosa, se juntaram às fileiras da poderosa coligação anti-hitleriana e mostraram claramente que o ardor nacional e a mobilização das massas, na sua melhor forma e mais frutífera para uma vitória mais rápida sobre o inimigo, podem ser uma realização da vanguarda do movimento operário de cada país, no âmbito do seu Estado.


Já o VII Congresso da Internacional Comunista, em 1935, tinha assinalado que as mudanças que se estavam a operar diante de si, tanto na situação internacional como no movimento operário, exigiam uma grande mobilidade e autonomia das secções da Internacional Comunista. Na redação da resolução sobre as questões do movimento operário, o congresso sublinhou a necessidade de o Executivo da Internacional Comunista partir das condições concretas e das particularidades de cada país e de evitar qualquer tipo de intervenção direta nas tarefas organizativas internas dos partidos comunistas.


Estas considerações foram tidas em conta pela Internacional Comunista quando, em Novembro de 1940, o Partido Comunista dos Estados Unidos da América comunicou a sua decisão, que seria aprovada, de sair das fileiras da IC.


Guiados pelos ensinamentos dos fundadores do marxismo-leninismo, os comunistas nunca foram partidários da manutenção de formas de organização obsoletas. Sempre submeteram as formas de organização e os métodos de trabalho das suas organizações aos interesses políticos fundamentais do movimento operário no seu conjunto, às particularidades da situação histórica concreta existente e às tarefas diretamente emanadas dessa situação. A sua memória guarda o exemplo do grande Marx, que juntou os trabalhadores progressistas nas fileiras da Associação Internacional dos Trabalhadores – a I Internacional –, que estabeleceu os fundamentos do desenvolvimento do partido operário nos países da Europa e da América. Perante a necessidade amadurecida de criar partidos operários nacionais de massas foi dado o passo de dissolver a I Internacional, uma vez que esta forma de organização já não correspondia às necessidades.


Partindo de uma avaliação do presente, tendo em conta o crescimento e a maturidade política dos partidos comunistas e dos seus quadros dirigentes nos respectivos países, bem como o fato de que, com o desencadear da presente guerra, uma série de secções levantaram a questão da dissolução da Internacional Comunista enquanto centro dirigente do movimento operário internacional, o Presidium do Comitê Executivo da Internacional Comunista, impossibilitado de nas condições da guerra mundial convocar o Congresso da Internacional Comunista, toma a iniciativa de submeter à aprovação das secções da Internacional Comunista a seguinte proposta: dissolver a Internacional Comunista como centro dirigente do movimento operário internacional e desvincular as secções da Internacional Comunista das obrigações decorrentes dos seus estatutos e suas decisões.


O Presidium do Comitê Executivo da Internacional Comunista apela a todos os filiados da Internacional Comunista a concentrarem os seus esforços no apoio unilateral e na participação ativa na guerra de libertação dos povos e dos estados da coligação anti-hitleriana com vista ao esmagamento mais rápido possível do inimigo mortal dos trabalhadores: o fascismo da Alemanha e dos seus aliados e vassalos.


Esta declaração foi enviada a todas as secções do Komintern como uma tomada de decisão e todos os partidos a aprovaram sem exceção.