"Recordações da vida íntima de Karl Marx"


Vi Marx, pela primeira vez, em fevereiro de 1865. Num comício do Saint Martin's Hall acabava de fundar-se a Internacional. Eu chegava de Paris para tomar conhecimento dos progressos da nova organização. M. Toloin, hoje representante do Senado burguês e um de seus delegados na Conferencia de Berlim, dera-me uma carta de recomendação para ele. Eu tinha, então, 24 anos. Jamais esquecerei a impressão que me causou, desde os primeiros momentos em que o vi. Nessa época, achava-se Marx debilitado fisicamente. Trabalhava no primeiro volume de O Capital, ainda que o mesmo só aparecesse dois anos depois, isto é, em 1867. Temia não poder terminar a obra e procurava receber cordialmente os moços, a quem dizia: "É preciso haver homens que continuem, depois de mim, a propaganda comunista". Marx é desses seres insólitos, que ocupam o primeiro lugar na ciência e na vida publica. De tal maneira confinava com essas duas atividades, que era difícil saber o que se projetava em primeiro lugar: se o homem de ciência ou o lutador socialista. Considerando que toda a ciência deve ser cultivada por si mesma e que nas investigações científicas não há resultados passageiros ou eventuais, era de opinião que se o homem de ciência não queria ocupar um plano secundário deveria participar incessante e ativamente da vida publica, sem fazer do seu gabinete um esconderijo, antes atirando-se às lutas sociais e políticas de sua época. "A ciência não deve significar apenas um prazer egoístico. Os que têm a sorte de consagrar-se aos estudos científicos deverão ser os primeiros a pôr sua ciência a serviço da humanidade". "Trabalhar pela humanidade" era sua divisa. Ainda que se comovesse profundamente com os sofrimentos das classes trabalhadoras, não fora uma ordem de considerações sentimentais que o levara até ao comunismo. Impelira-o até ai as conclusões de seus estudos históricos e econômicos. Entendia que todo espírito imparcial, não influenciado pelo interesse privado ou pelos preconceitos de classes, deveria chegar a essas mesmas conclusões. Se não levava ideias preconcebidas para o estudo da revolução econômica e política das sociedades humanas, ao escrever assumia, entretanto, a firme intenção de difundir o resultado de suas investigações como base científica do movimento socialista que, nessa época, se perdia entre as nuvens da utopia. Só se apresentava em publico em busca da vitória do proletariado, que tem por missão histórica instaurar o comunismo logo que possa apoderar-se do poder publico. O papel histórico da burguesia no poder foi, do mesmo modo, quebrar as correntes que a ligavam ao feudalismo, porque este se opunha ao desenvolvimento da indústria e da agricultura. Seu papel foi também, em consequência, o de estabelecer a livre circulação dos bens e dos homens, o contrato livre entre as empresas e os trabalhadores, a centralização dos instrumentos de produção e sua troca, sem se aperceber que, assim fazendo, preparava os elementos intelectuais e materiais da futura sociedade comunista. A atividade de Marx não dizia respeito apenas ao seu país de origem: "Sou cidadão do mundo — dizia — e trabalho onde me encontro". As perseguições, com efeito, que sofreu na França, na Bélgica e na Inglaterra, foram devidas à sua intervenção em acontecimentos locais. Vemos nele, contudo, menos que o agitador, o homem de ciência, aquele que pude observar num quarto do Maitland Park Road, local por onde constantemente passavam os soldados avançados do mundo civilizado, que vinham esclarecer-se com o pai do pensamento socialista. O aposento de Marx possui seu sentido histórico. Era preciso conhecê-lo para chegar-se à intimidade da vida intelectual de Marx. Estava situado no primeiro pavimento e o largo balcão, por onde penetrava abundante luz, dava para o parque. De um e de outro lado do fogão, frente à janela, estavam as estantes repletas de livros, pacotes de jornais e manuscritos. Diante do fogão, de um dos lados da janela, viam-se duas mesas com papeis, livros e jornais. No centro da sala, na parte mais clara, havia uma mesa singela, de um metro de comprimento por 17 centímetros de largura e uma poltrona de madeira. Entre esta e as estantes, via-se um divã de couro, que Marx utilizava para descansar, de quando em quando. Sobre o fogão, havia também livros misturados com cigarros e maços de tabaco, retratos de suas filhas, de sua companheira, de Wilhelm Wolff e de Engels. Marx era grande fumador. "O Capital, dizia-me, jamais me dará o que já gastei em fumo enquanto o escrevia". Estragava muitos fósforos. De vez em quando, o cachimbo ou o cigarro se apagavam. E, por isto, desperdiçava incrível quantidade de fósforos. Não permitia que ninguém lhe arrumasse — ou, melhor, lhe desarrumasse — os papeis. Na realidade, essa desordem era apenas aparente. Tudo estava no seu devido lugar. Encontrava sempre o livro ou o papel que necessitasse. No decurso de uma conversa, podia mostrar o trecho a que se referisse o tema em debate, exibindo-o imediatamente ao interlocutor. Estava tão identificado com o ambiente de seu aposento, que os livros lhe obedeciam como partes do próprio corpo. Não ligava importância à estética. Volumes de todo tamanho, misturados a folhetos, confundiam-se pitorescamente. Não os arrumava de acordo com as dimensões, mas levando em conta o assunto. Para Marx, os livros representavam instrumentos de trabalho e não objetos de luxo. Afirmava: "Os livros são meus escravos e hão de servir-me de acordo com meus desejos e com toda a pontualidade". Sem levar em conta o formato ou a beleza gráfica, maltratava os livros, dobrava-os em ângulo, borrava-os e sublinhava as passagens históricas. Não era dado ao costume de anotar. Limitava-se a por um ponto de exclamação ou interrogação, quando o autor se desviava do verdadeiro sentido. Seu sistema de sublinhar permitia-lhe ir ao assunto sempre que julgasse oportuno. Tinha o costume de reler os livros, guardando os assuntos na memória. Exercitou esta desde a adolescência. Seguindo os conselhos de Hegel, decorava versos escritos em língua que desconhecia. Sabia de cor as obras de Heine e Goethe e citava, de memória, trechos desses autores. Lia as obras dos poetas europeus e, frequentemente, no texto original, relia Esquilo, a quem considerava, concomitantemente com Shakespeare, o gênio mais democrático de todos os tempos. Dedicou-se a estudar profundamente a obra de Shakespeare, por quem sentia admiração sem limites. Conhecia o caráter de todas as personagens criadas pelo dramaturgo inglês. Da sua devoção ao poeta de Hamlet compartilhava toda a família, tanto que suas filhas sabiam de cor os trabalhos de Shakespeare. Depois de 1848, querendo aperfeiçoar-se no conhecimento da língua inglesa, examinou e classificou as expressões de Shakespeare. Fez o mesmo com parte da obra do polemista inglês William Cobbert, a quem grandemente se afeiçoara. Entre seus poetas favoritos, contavam-se Dante e Robert Burns. Tinha verdadeiro prazer em ouvir as filhas recitarem-lhe fragmentos de sátiras ou madrigais do poeta escocês. Cuvier, esse infatigável trabalhador a serviço da ciência, instalara, no Museu de Paris, que dirigia, varios laboratórios para seu uso pessoal. Cada laboratório destinava-se a um fim especial e continha livros e instrumentos adequados. Quando Cuvier se aborrecia com determinada pesquisa, passava a outro laboratório, ai continuando outra classe de estudo. Esta simples troca de atividade representava para ele saudavel repouso. Marx, trabalhador tão incansável quanto Cuvier, não dispunha de meios para instalar tantos laboratorios. Sua forma de descansar era passear pelo quarto. Seus passos como que estavam impressos no tapete, já desgastado, desde a porta à janela. De quando em quando, estirava-se no diva e lia uma novela. Às vezes, lia duas ou três de uma vez, andando de um lado para outro. Como Darwin, era grande ledor de novelas. Tinha preferência pelas do século XVIII, interessando-se, em particular, por Tom Jones, de Fielding. Os autores, seus contemporâneos, de que mais gostava, eram Paul de Kock, Charles Lever, Alexandre Dumas, pai, e Walter Scott. Considerava magistral a obra deste último Old Mortalitis. Admirava as narrações alegres e de aventuras. Cervantes e Balzac eram também autores de sua predileção. Em Dom Quixote via os derradeiros dias da cavalaria andante, que teve seus méritos transformados em objetos de chacotas e escarneo, por parte do mundo burguês. Sentia tal interesse por Balzac, que se propunha escrever uma obra crítica sobre A Comédia Humana, "logo que terminasse seus trabalhos sobre economia''. Balzac não foi só o historiador da sociedade de seu tempo, mas também o criador de tipos proféticos que, na época de Luis Felipe, existiam apenas em estado embrionário, só se desenvolvendo completamente ao tempo de Napoleão III. Marx lia com perfeição todas as línguas europeias e escrevia em três: alemão, francês e inglês, causando admiração aos donos dessas línguas. "Um idioma é arma em luta pela vida" — dizia muitas vezes. Tinha muita facilidade em adquirir conhecimentos de qualquer idioma. Aos cinquenta anos, começou a estudar o russo e, ainda que esta língua nada tivesse de comum com a etimologia das línguas que conhecia, em seis meses já lia trechos de escritores e poetas russos, como Gogol, Puchkin e Chtcherin. O que o levou a aprender o russo foi o desejo de ler diretamente os documentos oficiais que o Governo do Czar não permitia circulassem pelas espantosas revelações que continham. Os amigos enviavam essa documentação a Marx, que, seguramente, era o único economista da Europa ocidental que estava em condições de a conhecer. Além dos poetas e novelistas, interessava-lhe a matemática. A álgebra era para ele como um reconstituinte moral e serviu-lhe de refugio nos momentos mais difíceis e dolorosos de sua agitada existência. Durante o tempo da enfermidade da mulher, foi obrigado a afastar-se de seus trabalhos científicos. E o único meio que encontrou, para subtrair-se à impressão que lhe causava a doença da companheira, foi refugiar-se no árido campo da matemática. Nesse doloroso período, escreveu um trabalho sobre calculo infinitesimal, obra de grande valor, a dar-se credito aos matemáticos que a compulsaram. Cogita-se, aliás, de sua publicação nas Obras Completas de Marx. No campo das matemáticas superiores, recuperava a atividade dialética em sua maior simplicidade lógica. Era de opinião que uma ciência não podia verdadeiramente desenvolver-se senão quando admitia o estudo da matemática. A biblioteca de Marx, que se compunha de mais de mil volumes, reunidos cuidadosamente durante uma longa vida consagrada às investigações científicas, não lhe bastava, tanto que recorria às bibliotecas publicas. Seus próprios adversários constatavam que visitava assiduamente o British Museum e reconheceram a extensão e a profundeza da sua ciência, não só na sua especialidade característica, a economia, como no que se refere à filosofia e à literatura universal. Ainda que se deitasse altas horas, levantava-se entre oito e nove da manhã, tomava café, lia os jornais e permanecia no seu gabinete de trabalho até a madrugada. Seu labor não era interrompido senão para comer e passear, de tarde, em Hampstead Heath, quando o tempo o permitia. De dia, repousava no canapé, durante mais ou menos duas horas. Na sua juventude, passava noites inteiras entregue ao trabalho, que chegou a ser para ele verdadeira paixão. De tal maneira se empolgava por ele, que, frequentemente, se esquecia de comer. Era preciso insistir para que se alimentasse. Logo que acabava de comer, atirava-se ao serviço. Comia pouco e, porque tivesse pouco apetite, estimulava-o com pratos codimentados de vários modos: presunto, pescado, caviar, pepinos. A pouca atividade do estômago contrastava com a da cabeça. Pelo cérebro sacrificava tudo. Pensar era sua alegria. Ouvi-o, muitas vezes, repetir as palavras de Hegel, o mestre de filosofia dos seus tempos da juventude; "O pensamento criminoso de um malvado é maior e mais nobre do que todas as maravilhas do céu". Tão continuo e esgotador era seu esforço de trabalho que, para o suportar, precisava de uma constituição privilegiada. E, na verdade, era bem forte, estatura além da mediana, ombros largos, peito bem desenvolvido e partes do corpo proporcionais, com exceção do tronco, nada em conformidade com as pernas, o que é muito frequente entre os da raça hebréia. Se, na juventude, houvesse feito exercícios físicos, teria sido extraordinariamente forte. O único esporte que praticava regularmente era andar a pé. Podia ficar subindo uma colina horas inteiras. Fazia isto pairando e fumando, sem demonstrar a menor fadiga. Mesmo trabalhando, ficava a passear no gabinete. Quando procurava assento era para anotar alguma coisa que lhe ditava o cérebro, sempre em perpetua atividade. Gostava de falar enquanto andava, parando, uma ou outra vez, ao surgir um tema interessante. Acompanhei-o anos inteiros em seus passeios por Hampstead Heath. Foi percorrendo os prados que adquiri meus conhecimentos de economia. Sem dar por isso, Marx desenvolvia perante mim o conteúdo de seu primeiro volume de O Capital na mesma ordem em que o escrevia. Geralmente anotava o que me dizia. No começo, eu tinha muita dificuldade em acompanhar o fio de seu pensamento, tão profundo e complexo. Infelizmente, perdi minhas notas. Depois da Comuna, a policia apoderou-se dos papeis que eu tinha em Paris e Bordeaux e queimou-os. O que mais lastimo é ter perdido as anotações que fiz uma tarde, após ouvir, de Marx, com seu brilho peculiar, a genial teoria do desenvolvimento da sociedade humana. Como se um véu se rasgasse ante meus olhos, compreendi, pela primeira vez em minha vida, a lógica da historia e as causas materiais das manifestações, aparentemente tão contraditórias, do desenvolvimento da sociedade e do pensamento humanos. Fiquei como atordoado e, durante anos, guardei a mais forte das impressões. O mesmo efeito causei aos socialistas de Madrid, quando reconstitui, ante eles, minhas poucas recordações a respeito da mais genial das teorias de Marx, a mais genial no gênero, sem duvida, que já brotou de cérebro humano. Marx recordava-se de uma serie inesgotável de fatos históricos e naturais, assim como de teorias filosóficas e suas consequências, tudo integrado na valorização de seu intenso labor intelectual. Podiam perguntar a Marx as coisas mais variadas, na certeza de que obteriam respostas sempre oportunas. Seu cérebro era como caldeira em ebulição. Estava sempre pronto para as atividades mentais. O Capital revela uma inteligência de vigor e riqueza extraordinários, ainda que, para aqueles que conheceram do perto o autor, nem O Capital, nem outra de suas obras, reflita a profundeza de seu gênio, que, de fato, estava muito acima do que escreveu. Trabalhei com ele. Apesar de não passar da categoria de amanuense, cheguei a compreender-lhe a maneira de pensar e escrever. O trabalho, para ele, era, ao mesmo tempo, fácil e difícil: fácil, porque os fatos e as ideias referentes ao tema se atropelavam em seu espírito, difícil, porque o excesso de referencias embaraçava a exposição das ideias. Dizia Vico: "As coisas só são corpos para Deus; para os homens, que só vêm o exterior, não passam de superfícies". Marx captava os fenômenos à maneira da divindade, à maneira de Vico. Não via apenas a dimensão superficial das coisas; penetrava nelas; estudava todos os elementos, as ações e reações reciprocas; isolava um por um dos elementos e pesquisava-lhes a evolução e o desenvolvimento. Em seguida, passava ao estudo do meio ambiente e observava efeitos e reciprocidades. Quando remontava à origem das coisas, procurava as ações e as repercussões mais longínquas. Não se detinha no fenômeno isolado, mas relacionava-o com o ambiente. Via a complexidade do mundo em perpetua atividade e achava que a vitalidade desse mundo era expressa por suas ações e reações e no fato de sua continua transformação. Escritores da escola de Flaubert e dos Goncourt queixam-se das dificuldades que a realidade apresenta para ser refletida com exatidão. O que eles pretendem fixar é a dimensão superficial de que nos fala Vico, é apenas a impressão produzida pelas coisas. A atividade literária de Flaubert e dos Goncourt é simples jogo infantil comparado com o trabalho de Marx. Era preciso extraordinária potencia intelectual para apreender a realidade e arte não menos extraordinária para descrevê-la. Marx nunca estava contente com o que fazia. Vivia sempre trocando impressões sobre o fato de ser a expressão inferior à concepção. Há um estudo de Balzac, vergonhosamente plagiado por Zola: A Obra Prima Desconhecida. Este estudo causou profunda impressão em Marx, porque descrevia sentimentos que ele experimentara. Trata-se de um pintor genial, atormentado pela necessidade de reproduzir as coisas tal como se lhe refletem no cérebro. Retoca cem cessar o quadro, ao ponto de o converter numa massa informe de coros, quando, no entanto, ele representa fielmente a realidade. Marx reunia as duas qualidades do pensador de gênio: sabia, às mil maravilhas, dissociar os diversas elementos componentes de um objeto e, descobrindo sua intima harmonia, reconstruí-lo, depois, em todos os seus detalhes e formas diferentes de desenvolvimento. Suas demonstrações não se apoiavam em abstrações como o acusam severos economistas. Não empregava o método dos geometras que, depois de ter tirado suas definições do meio ambiente, fazem completo descaso do dito meio, quando se trata de deduzir consequenciais. Não se encontra em O Capital uma só definição, uma só formula. Defrontamo-nos, sim, com analises da maior sutileza, que, à primeira vista, apresentam fugitivas tonalidades e escassa coloração. Marx começa comprovando o fato evidente de que a riqueza das sociedades, onde domina a produção capitalista, aparece transformada em imensa acumulação de mercadorias. As mercadorias — fato concreto e não abstração matemática — são, pois, o elemento, o nó da riqueza capitalista. Marx toma a mercadoria, dá-lhe voltas em todos os sentidos, penetra-lhe no interior, e, afinal, um atrás do outro, desdobra-lhe todos os segredos, dos quais os economistas oficiais não tinham a menor ideia, ainda que tais segredos sejam mais numerosos e profundos que os mistérios da religião católica. Depois de examinar as mercadorias em todos os seus aspectos, observa a relação que entre elas se estabelece com a troca. Chega logo até à produção e suas condições históricas. Estuda as diferentes formas da mercadoria e assinala como esta passou de uma a outra forma e como determinada maneira substituiu outra. A serie do desenvolvimento lógico dos fenômenos está representada com arte tão perfeita, que quase se diria Marx a ter inventado, e, no entanto, foi a realidade que o inspirou e outra coisa não fez senão dar expressão ao movimento dialético da mercadoria. Marx trabalhava sempre com elevado critério. Não se utilizava jamais de um fato ou de uma data sem que se apoiasse nas fontes mais autorizadas. Não se satisfazia com informações de segunda mão; mas procurava as fontes, ainda que isto lhe custasse algum esforço. Era capaz de ir ao British Museum para comparar aos textos o fato mais insignificante. Seus críticos nunca puderam acusá-lo da menor inexatidão ou provar que, em alguma de suas demonstrações, se apoiasse em fatos que não resistissem ao mais rigoroso exame. O habito de ir às origens, levou-o a ler autores muito pouco conhecidos e por ninguém citados, a não ser por ele. O Capital contém tal quantidade de citações de autores desconhecidos, que não é para admirar ver-se alguém tentado a crer que o autor assim o fez por prazer ou vaidade de fazer brilhar seus conhecimentos. No entanto, nada mais injusto: "Exerço a justiça histórica — dizia Marx — e dou a cada qual o que lhe pertence". Considerou, com efeito, que era de seu dever indicar o autor, por mais desconhecido ou insignificante que fosse, que fora o primeiro a expressar uma ideia ou a fazê-lo da melhor maneira. Sua consciência literária era tão severa como sua consciência científica. Não só jamais se basearia em fato de que não tivesse pleno conhecimento, como não se permitiria tocar em pontos de que não tivesse ciência exata. Só publicava alguma coisa após refazê-la tantas vezes quantas julgasse necessárias, antes de atingir a forma adequada. Não podia suportar a idéia de aparecer em publico com a ideia incompleta. Constituir-lhe-ia verdadeiro martírio ser obrigado a transmitir seus manuscritos antes do ultimo toque. Tão forte lhe era esse sentimento, que, um dia, me disse preferiria queimar seus manuscritos a deixá-los incompletos. Seus métodos de trabalho impunham-lhe tarefas de que seus leitores não poderão formar a menor ideia Assim se explica que, para escrever aquelas vinte paginas de O Capital sobre a legislação trabalhista inglesa, se visse obrigado a estudar uma biblioteca de livros azuis, livros que continham os informes das comissões revisão e dos inspetores de fábricas da Inglaterra e da Escócia. Leu todos esses livros, do principio ao fim, segundo se pode atestar pelos numerosos sinais a lápis que neles fez. Achava que tais informes se enfileiravam entre os documentos mais importantes que existiam para o estudo do regime de produção capitalista e, a propósito, tinha opinião tão elevada dos homens que os elaboraram, que duvidava se pudesse encontrar em qualquer outro país da Europa "homens tão capazes e tão imparciais como os inspetores de fabrica da Inglaterra". Não lhes regateou sua estima no prefacio de O Capital. Foi considerável o material encontrado por Marx naqueles livros azuis. A maior parte dos membros da Camara dos Comuns, como da Camara dos Lordes, entre os quais eram distribuídos, não utilizavam mais esses livros a não ser, por assim dizer, como alvos, sobre os quais atiravam, para medir, conforme a resistência que a bala encontrasse, a força de percussão da arma. Houve quem vendesse tais livros a peso. Foi o melhor que fizeram, pois, permitiram a Marx, pelo menos, comprá-los a baixo preço, conjuntamente com um lote de papeis velhos, na casa de um comerciante de Long Acre, onde costumava ir. Dizia o profesor Beesly, que Marx era o homem que melhor se utilizara dos papeis oficiais da Inglaterra, oferecendo-os ao conhecimento do mundo. Beesly dizia isto porque ignorava que, antes de 1845, Engels extraíra numerosos documentos dos livros azuis, com que enriqueceu sua obra sobre "A Situação das Classes Operarias na Inglaterra".

II Para conhecer e amar o coração que batia no nobre peito do sábio, era preciso vê-lo, nas tardes de domingo, quando, fechados os livros e cadernos, ficava entre os seus, rodeado de amigos. Nesses momentos, revelava-se o companheiro mais agradável que se podia imaginar. Estava sempre disposto a rir, cheio de alegria e bom humor. Seus olhos negros, sombreados por espessas sobrancelhas, brilhavam de contentamento e jovial ironia, toda vez que ouvia alguma frase adequada ou alguma coisa engenhosa. Era pai terno e indulgente. "Os filhos deviam educar os pais" — costumava dizer —. Nunca fez sentir aos filhos, que o amavam com loucura, a mais insignificante partícula de autoridade. Não lhes dava ordens, mas pedia-lhes as coisas por obséquio, persuadindo-os a não fazer aquilo que fosse contrario aos seus desejos. Apesar disso, era obedecido como poucos pais o seriam. Suas filhas consideravam-no mais como companheiro. Não o chamavam de "pai" mas sim de "Mohd", apelido que lhe haviam dado por causa de sua cor mate, de sua barba e cabelos negros. Os membros da Liga dos Comunistas, anterior a 1848, chamavam-no, entretanto, de "pai Marx", apesar de ainda não ter trinta anos nessa época. Muitas vezes acontecia passar horas inteiras brincando com os filhos. Estes não esqueciam as batalha navais e os incêndios de frotas inteiras de barcos de papel, que Marx construía e tocava fogo, usando um grande cubo, com enorme entusiasmo dos pequenos. Suas filhas não lhe permitiam trabalhar aos domingos. Era um dia reservado para elas. Quando fazia bom tempo, toda a família ia passear no campo. Detinham-se nas pousadas do caminho para beber cerveja de gengibre e comer pão com queijo. Quando as filhas eram pequenas, procurava distraí-las, durante o passeio, contando-lhes intermináveis historias de fadas, historias que ele mesmo inventava durante a marcha a que se tornavam mais longas na razão direta da extensão do caminho. De maneira que as meninas, atentas aos contos, esqueciam as fadigas. Marx possuía incomparável veia poética. Foram poesias os seus primeiros trabalhos literários. Sua mulher guardava, cuidadosamente, as obras que ele traçara na mocidade, porem, não as mostrava a ninguém. Os pais de Marx haviam sonhado encaminhar o filho na carreira de homem de letras ou de professor. Mas o rapaz deixou-se levar pelo destino, consagrando todas as suas atividades aos serviços de agitação socialista e ao estudo de economia política, ciência, na época, muito pouco admirada na Alemanha. Marx prometeu às filhas que escreveria para elas um drama sobre os Gracos. Infelizmente, não pôde cumprir a palavra. Seria interessante ver como ele, a quem chamavam "o cavaleiro da luta de classes", trataria aquele terrível e grandioso episódio da luta de classes do mundo antigo. Marx não pôde realizar grande números de seus projetos. Propunha-se, por exemplo, escrever uma Lógica e uma Historia da Filosofia, que haviam sido, quando moço, seus estudos favoritos. Precisaria viver cem anos para executar seus projetos literários e dar ao mundo uma insignificante parte dos inumeráveis tesouros guardados em seu privilegiado cérebro. Durante toda sua vida, sua mulher foi, na verdadeira acepção da palavra, uma boa companheira. Conheceram-se crianças e cresceram juntos. Marx ainda tinha dezessete anos, quando ficou noivo dela. Tiveram que esperar nove anos para casar-se, o que fizeram em 1845, não se separando mais, daí por diante. A senhora Marx morreu pouco tempo antes do marido. Ainda que nascida e educada no seio de uma família de aristocratas alemães, não havia pessoa que, mais do que ela, tivesse tão elevados conceitos de justiça. Não existiam para ela diferenças ou categorias sociais. Em sua casa e à sua mesa, recebia e fazia sentar operários com suas roupas de trabalho, tratando-os com a mesma cortesia com que trataria um príncipe. Grande numero de operários, de todos os países, gozaram de sua hospitalidade e, hoje, estou mesmo convencido de que alguns deles sempre ignoraram que quem os recebia com tanta simplicidade e franca cordialidade descendia, pelo lado materno, da família dos duques de Argyll, e que seu irmão fora ministro do rei da Prússia. A esposa de Marx não se preocupava muito com o mundo e suas vaidades. Abandonara tudo para acompanhar o marido e nunca, mesmo no meio da mais espantosa miséria, lamentou o que fizera. Seu espírito era vivo e jovial. Manejava a pena com facilidade. As cartas que escreveu aos seus amigos são verdadeiras obras de arte e revelam originalidade e vivacidade espiritual. Receber uma carta da senhora Marx era grande fortuna. Jean-Phillipe Becker publicou muitas delas. Henri Heine, o impiedoso satírico, se temia a ironia de Marx, era, por outro lado, grande admirador da inteligência da mulher. Na época da estada do casal Marx em Paris, Heine visitava-o com assiduidade. Marx tinha opinião tão elevada a respeito da inteligência e do espírito critico da mulher, que— dizia-me em 1866 — sempre a punha ao par de seus escritos e dava grande valor às suas observações. Era a senhora Marx quem passava a limpo os manuscritos de Marx, afim de os dar à publicidade. A senhora Marx teve muitos filhos. Três deles morreram na infância, durante o período de miséria que assoberbou o casal depois da revolução de 1848, quando, refugiado em Londres, teve que se abrigar nos casebres de Dean Street, Soho Square. Eu só conheci as três filhas. Quando, em 1865, fui, pela primeira vez, apresentado em casa de Marx, Leonor, a mais moça, era uma jovem encantadora, com temperamento de rapaz. Marx costumava dizer que a esposa se equivocara quanto ao sexo dessa filha, ao apresentá-la ao mundo como mulher. As outras moças constituíam a mais bela e harmoniosa contradçião que se possa imaginar. A mais velha, a senhora Longuet, tinha, como o pai, a cor mate e negríssimos cabelos e olhos. Sua opulenta cabeleira brilhava como se, nela, o sol fizesse seu ocaso. Parecia-se muito com a mãe. Além das pessoas a que acabamos de nos referir, a família Marx contava com mais uma pessoa importante: a senhorinha Helena Demuth. Procedia de uma família de camponeses e era bem nova quando entrou para o serviço da senhora Marx, ainda muito antes do casamento desta. Helena Demuth não quis abandonar a patroa mesmo depois do matrimônio com Marx. Acompanhou o casal em suas viagens pela Europa e compartilhou das expulsões e vicissitudes. Seu espírito domestico permitia-lhe atravessar as situações mais difíceis. Graças à sua habilidade e medidas de ordem e economia, a família Marx não se viu obrigada a privar-se do mínimo necessário à existência. Sabia fazer tudo: cozinhava, arrumava a casa, vestia as crianças, talhava as roupas e costurava com o auxilio da senhora Marx. Era, ao mesmo tempo, a economista e a governante da casa que dirigia. As meninas queriam-na como segunda mãe e Helena, por sua vez, sentia por elas carinho igual, o que lhe dava sobre as mesmas certa autoridade maternal. A senhora Marx tratava Helena como amiga íntima e Marx tinha por ela especial consideração: jogava o xadrez com ela e muitas vezes acontecia perder. A dedicação de Helena para com a família Marx era cega. Tudo que os Marx faziam estava certo e nada a convencia do contrario. Quem criticasse Marx já podia contar com a inimizade de Helena, como podia contar com sua maternal proteção quem merecesse as simpatias da família. Tutelava, por assim dizer, toda a família Marx. Helena sobreviveu ao casal. Em seguida, passou a trabalhar na casa de Engels, a quem conhecera na mocidade e a quem dedicava o afeto que sentia pelos Marx. Por outro lado, Engels era como um ramo da família Marx. As filhas deste chamavam-no de segundo pai; era o alter ego de Marx. Durante muito tempo, esses dois nomes gloriosos, que a historia reunirá para sempre, viveram ligados na Alemanha. Realizaram os dois, neste século, essa amizade ideal, que os poetas antigos celebravam. Desde adolescentes cresceram juntos e sempre viveram na mais intima comunhão de ideias e sentimentos. Participaram da mesma agitação revolucionaria e, quando em contacto, colaboraram nos mesmos atos. Seria provável que trabalhassem em comum a vida inteira, se os acontecimentos não os obrigassem a viver separados cerca de vinte anos. Depois do fracasso da revolução de 1848, Engels viu-se forçado a seguir para Manchester, enquanto Marx permanecia em Londres. Continuaram, entretanto, a comunicar-se quasi diariamente, emitindo opiniões sobre o que ia acontecendo, política e economicamente, assim como dando conta de seus labores intelectuais. Logo que foi possível, Engels trocou Manchester por Londres, passando a morar apenas a uma distancia de dez minutos da casa de Marx. E, desde 1870, até a morte do amigo, Engels não passou um só dia que o não visse e, cada um, alternadamente, era encontrado na casa do outro. No dia em que Engels anunciou sua partida para Londres, houve verdadeira festa na casa de Marx. Não se falou noutra coisa muito tempo antes e muito tempo depois de sua chegada. Marx ficou tão impaciente que nem podia trabalhar. Os dois permaneceram a noite inteira bebendo e fumando, sendo pouco o tempo para contarem reciprocamente os fatos ocorridos desde a data em que se haviam separado. A opinião de Engels estava, para Marx, acima de qualquer outra, pois era o único homem que Marx considerava com capacidade para colaborar com ele. Engels representava o publico de Marx e, para este, não havia trabalho mais penoso do que conquistar Engels para suas ideias. Vi-o, uma vez, revolvendo livros e manuseando-os, de ponta a ponta, até encontrar referencia a certos fatos, que eram necessários exumar, para modificar a opinião de Engels, no que se referia a um ponto sem importância, de que já me esqueci, da cruzada dos albigenses. Considerava como triunfo conquistar a aquiescência de Engels. Marx orgulhava-se do amigo. Descrevia-me com satisfação todas as qualidades morais e intelectuais de Engels. Levou-me a Manchester, exclusivamente para o apresentar. Enchia-se de admiração pela extraordinária variedade de conhecimentos científicos de Engels. Estava sempre a temer que o amigo fosse vitima, dalgum acidente, "Tenho medo — dizia-me — que lhe ocorra alguma desgraça, durante uma dessas caçadas em que tão apaixonadamente toma parte e que o levam a cavalgar e transpor os campos a galope". Marx era tão bom amigo como esposo e pai. Mas convém afirmar que teve a felicidade de encontrar na mulher e nas filhas, em Helena e Engels, criaturas que mereciam ser amadas por um homem como ele.

III Marx, que começara como um dos chefes da burguesia radical, viu-se, logo após, abandonado, no momento em que sua oposição se tornou decisiva e tratado como inimigo ao fazer-se socialista. Depois de o insultarem, caluniarem e expulsarem de sua terra natal, organizaram contra ele e seus trabalhos a conspiração do silencio. O 18 Brumário, que permaneceu completamente ignorado, demonstrou que, de todos os historiadores e homens políticos do ano de 1848, Marx foi o único que compreendeu e expôs claramente as verdadeiras causas e consequências do golpe de Estado de 2 de dezembro de 1851. Nenhum só jornal burguês noticiou o aparecimento desse trabalho, apesar de sua oportunidade. O mesmo aconteceu com Miséria da Filosofia, resposta à Filosofia da Miséria, de Proudhon, assim como com a Critica da Economia Política. Mas essa conspiração do silencio, que durou 15 anos, deu em nada com a criação da Internacional e o aparecimento do primeiro volume do O Capital. A partir dessa ocasião, Marx não podia ser mais ignorado. A Internacional progredia incessantemente e o eco de seus atos repercutiam no mundo inteiro. Quando Marx se colocara em ultimo plano, logo se descobriu que ele era o verdadeiro dirigente e criador de tudo aquilo. Na Alemanha, fundara-se o Partido Social Democrata, que, imediatamente, se transformou em valor positivo, numa força que Bismarck se esforçou por conquistar, antes que a mesma, consciente de seu poderio, passasse ao ataque. Schweizer, o partido de Lassalle, fez publicar uma serie de artigos de grande valor, através dos quais O Capital se tornou conhecido do publico proletário. Por proposta de Jean-Phillippe Becker, o Congresso da Internacional decidiu chamar a atenção dos socialistas de todos os países sobre O Capital, que era qualificado de "Bíblia da classe operaria". Depois da insurreição de 18 de março de 1871, em que se quis ver o dedo da Internacional, e depois do fracasso da Comuna, a Assembleia Geral da Internacional, ao defender-se dos ataques da imprensa burguesa de todos os países, tornou celebre o nome de, Marx em todo o mundo. Foi, então, reconhecido como o teórico irrefutável do socialismo científico e como o organizador do primeiro movimento operário internacional. O Capital veio a tornar-se o livro obrigatório dos socialistas. Todos os jornais socialistas e os operários popularizaram seus ensinamentos. Na América, durante uma greve monstro em Nova York, publicaram-se trechos e capítulos maciços desse livro, com que os operários eram animados a resistir e a compreender os fundamentos de suas reivindicações. O Capital foi traduzido para as principais línguas europeias: russo, francês e inglês. Publicaram-se resumos em alemão, italiano, francês, espanhol e holandês. Toda vez que, na Europa ou na América, alguém intentava combater uma tese, os economistas-socialistas encontravam, imediatamente, a resposta adequada com que lhe fechavam a boca. O Capital é, hoje, realmente, aquilo que o Congresso da Internacional designava por "Bíblia operaria". As atividades que Marx dedicava ao movimento socialista não lhe davam folga para levar adiante seus trabalhos científicos. A morte da mulher e da filha mais velha, a senhora Longuet, deveria exercer decisiva influencia na marcha de seus trabalhos. Era profundo o afeto que Marx sentia pela esposa, de quem a beleza lhe fora orgulho e alegria e de quem a bondade e o espírito de sacrifício o haviam ajudado a suportar a miséria, eterna companheira de sua agitada vida de socialista revolucionário. A enfermidade, que acabou prostando sem vida a senhora Marx, deveria abreviar os dias do marido. Durante o tempo em que durou aquela longa e dolorosa doença, Marx, esgotado pelas emoções, vigílias, falta de ar e de exercícios, contraiu uma bronquite que ameaçava acabar com ele. A senhora Marx faleceu a 2 de dezembro de 1881, sem abjurar das ideias comunistas e materialistas que sempre teve em vida. Não se assustou com a morte. Quando sentiu que se aproximava o fim, exclamou: "Karl, as forças me abandonam". Estas foram suas ultimas palavras. Foi sepultada, a 5 de dezembro, no cemitério de Highgate, na secção dos "malditos" ("unconsacrated ground, terra profana). De acordo com os hábitos de toda sua vida em concomitancia com os de Marx, evitaram-se solenidades no enterro. Só alguns amigos íntimos acompanharam os restos mortais à sua ultima morada. Antes de descer o caixão, Engels, o velho e querido amigo de Marx, pronunciou, à beira do tumulo, as seguintes palavras: "Meus amigos! A bondosa mulher que acabamos de acompanhar e que, agora, vai ser sepultada, nasceu em Salzwaedel, em 1814. Seu pai, o barão de Westphalen, foi, na qualidade de conselheiro do Governo, enviado a Treves e aí estabeleceu relações intimas com a familia Marx. Os meninos cresceram juntos e aquelas duas naturezas cheias de vida, se compreenderam. Quando Marx entrou para a Universidade, os dois futuros esposos estavam fortemente comprometidos. O casamento teve lugar em 1843, depois do desaparecimento da Gazeta Renana, na sua primeira fase, da qual Marx fora redator por algum tempo. A partir dessa data, Jenny Marx não só compartilhou do destino, dos trabalhos e das lutas do marido, como nisso tudo participou com o mais perfeito entendimento e a mais ardente paixão. "O jovem casal exilou-se voluntariamente em Paris, exilio que, mais tarde, se tornou forçado. O casal acabou sendo tambem vitima da impiedosa perseguição do Governo prussiano. Devo acrescentar, com lastima, que um homem como Alexandre Humboldt se rebaixou ao ponto de tomar parte na ordem de expulsão de Marx. Eles foram para Bruxelas. Sobreveiu a revolução de fevereiro. Durante os motins, que começaram em Bruxelas, não só Marx, mas tambem, sua esposa, foram encarcerados sem motivos que justificassem tão despotica medida. "O movimento revolucionario de 1848 fracassou no ano seguinte. Novamente o desterro, primeiro em Paris, e, logo depois, em Londres, em virtude de nova intervenção do Governo francês. Desta vez, para Jenny Marx, o desterro veiu acompanhado de toda sorte de horrores. Suportou com estoicismo os sofrimentos que lhe causaram a morte de seus dois filhos e de uma filha. O que mais a consumiu, porém, foi a coalisao do Governo e da oposição burguesa, contando-se nesta não só democratas como liberais, afim de mais fortemente combaterem Marx. Fizeram-no alvo das mais sordidas calunias, das mais miseraveis que pudessem ser lançadas por qualquer imprensa, proibíndo-se-lhe toda possibilidade de defesa, de maneira que se encontrava desarmado diante de tão despresiveis inimigos. E isto durou muito tempo. "Mas não para sempre! As circunstancais novamente permitiram que o proletariado europeu se movimentasse em determinado sentido, desta vez de modo independente. A Internacional foi criada. A luta de classe do proletariado extendeu-se a todos os países e era o marido de Jenny o orientador desse movimento. Começou, então, um período que, para sua concretização, custara não poucos sofrimentos. As calunias atiradas copiosamente contra Marx dissiparam-se como falripas na tormenta; seus ensinamentos, que todos os partidos reacionarios, do feudal ao democrata, se haviam esforçado lamentavelmente por sufocar, espalharam-se por todos os paises civilizados e por todas as línguas. O movimento proletario, a que a senhora Marx dedicara toda sua existencia, abalou o Velho Mundo até seus fundamentos. Da Russia aos Estados Unidos, e dos Estados Unidos a espraiar-se por toda a America, a despeito de entraves e resistencias, o progresso dessas idéias crescia dia a dia. E uma das alegrias mais intensas que experimentou foi a de constatar a força indomavel de nossos operarios alemães nas ultimas eleições do Reischstag. "Eis o que fez durante quarenta anos uma mulher, que possuía, tão viva e tão critica, uma inteligência politica, uma força de carater e um espirito de sacrifício devotado a todos os camaradas em luta. Eis o que malevolamente se pretendeu omitir nos anais da imprensa contemporanea. Era preciso estar presente para compreender tais fatos. De qualquer maneira, o que sei dizer é que, da mesma forma como as mulheres dos refugiados da Comuna dela se recordarão muito tempo, nós, igualmente, mais de uma vez nos lembraremos de seus conselhos, sempre razoaveis e sempre prudentes, valorosos sem fanfarronada, sem que, por isto, fizesse quaisquer concessões, pertinentes exclusivamente ao capitulo da honra. "Não tenho necessidade de falar de suas qualidades pessoais. Nossos amigos a conheciam e jamais a esquecerão. Se houver mulher, no mundo, que tivesse como ventura maior fazer a felicidade alheia, esta mulher foi Jenny Marx". Desde a morte de sua companheira, a vida de Marx não foi mais que uma cadeia de sofrimentos físicos e morais, que suportou estoicamente e se agravaram ainda mais com a morte da filha mais velha, a senhora Longuet, morte essa sobrevinda repentinamente um ano mais tarde. Desde esse momento, Marx perdeu de uma vez a saude. Morreu, na sua mesa de trabalho, a 14 de março de 1883, com sessenta e cinco anos de idade.

por Paulo Lafargue, genro de Marx, em setembro de 1890

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