"Não julgue o livro por sua capa"


É difícil entender a dinâmica das relações internacionais? Um olhar superficial dos acontecimentos de cada dia confirma esta questão, mais ainda quando estão em jogo os interesses dos centros de poder em um contexto caracterizado pela lenta, mas evidente, transição à multipolaridade.

Nestas circunstâncias afloram as operações clandestinas que foram ridicularizadas e rotuladas de conspirativas por muitos meios, apesar do grande número de casos documentados desde os tempos antigos até o presente.

Estes procedimentos são ações encobertas por parte de alguns países, corporações ou outras organizações com objetivos de culpar os outros. A expressão está associada a terminologia militar, do qual em movimentos seja pelos mares ou por terra, se hasteia uma bandeira diferente a do país representado.

A diferença de eventos associados a modernidade, as falsas bandeiras possuem antecedentes bem distantes no tempo, pois já desde a antiguidade, numerosos historiadores responsabilizaram Nero pelo incêndio de Roma (19 de julho, 64 d.C.), baseados na recusa que este recebeu pelo Senado romano para construir um palácio.

Depois disso, o imperador conseguiu construir o local em uma área consumida pelo sinistro, não sem antes culpar e castigar os cristãos. Escalada no Século Passado No transcurso dos anos, foram muitos os bodes expiatórios em eventos de características similares, mas no século XX, dada a natureza dos conflitos entre os blocos capitalista e socialista, tais ações aumentariam consideravelmente, embora muitas destas não tenham sido oficialmente reconhecidas.

A 31 de agosto de 1939 e como prelúdio da Segunda Guerra Mundial, quadrilhas da SS (Esquadrões de Defesa da Alemanha Nazista) vestidas com uniformes poloneses, atacaram uma estação de rádio alemã e atribuíram o ataque a tropas polonesas para justificar a invasão da Polônia.

Na conclusão da guerra, o alto comando da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos projetaram a Operação Unthinkable, patrocinada por Winston Churchill. Como parte dela se planejou atacar diversas posições estratégicas da União Soviética com armas atômicas. Posteriormente, os Estados Unidos escalariam seus planos para aniquilar o primeiro Estado socialista do mundo com base em seu poderio militar.

A CIA também foi responsável por numerosas operações. A agência admitiu seu envolvimento no recrutamento de iranianos na década de 1950 para fazerem-se passar como comunistas e realizar atentados com bombas no Irã, contra os líderes religiosos iranianos, a fim de conseguir a revoltada da comunidade religiosa e colocar todo o povo contra seu primeiro-ministro, Mohammad Mossadegh, que queria nacionalizar o petróleo.

Em paralelo com o Pentágono e a OTAN, a agência de inteligência estadunidense estava envolvida nos ataques terroristas na Itália e em outros países europeus durante a década de 1950. Posteriormente seriam culpados inúmeros militantes de esquerda, para conquistar o apoio da população europeia de seus respectivos Estados na luta contra o comunismo.

Outras agências governamentais dos EUA, a NSA (Agência de Segurança Nacional), admitiu suas mentiras sobre o incidente no Golfo de Tonkin, em 1964, ao manipular dados com a finalidade de simular que barcos do Vietnã do Norte dispararam contra um barco estadunidense, e assim, criar um pretexto para iniciar a guerra contra o Vietnã.

Um comitê do Congresso dos Estados Unidos admitiu que, como parte da sua campanha “COINTELPRO” (Programa de Inteligência Contra), o Bureau Federal de Investigação (sua sigla em inglês é FBI) havia utilizado muitos provocadores entre 1950 e 1970 para levar a cabo atos violentos e culpar falsamente numerosos ativistas políticos, com a finalidade de justificar a repressão a estes. Cuba na mira Cuba não estava livre de ser vítima dessas táticas. Desde o muito discutido naufrágio do Maine até o triunfo da Revolução, as desculpas promovidas pelas sucessivas administrações estadunidenses para agadanhar a Ilha são esmagadoras. Ainda que todas não foram postas em prática, tivemos conhecimento destas.

Em 1962, a Juta de Chefes do Estado Maior estadunidense firmou um plano para explodir aviões ianques (usando um elaborado plano que implicava na troca de aeronaves e a realização de atos terroristas nos Estados Unidos), para culpar ao governo cubano e justificar uma invasão. A conspiração, que nunca chegou a ser realizada, recebeu o codinome de “Operação Northwoods”.

Além disso, como parte da famosa Operação Mangosta em 1963, o Departamento de Defesa escreveu um documento promovendo ataques as nações que tomaram parte da Organização dos Estados Americanos, para tomar Cuba. No atual milênio Chegado o século XXI e diante da suposta distensão dos conflitos mundiais com o desaparecimento da URSS, muitos teóricos profetizaram um clima de paz; entretanto, como demonstraram as incursões estadunidenses no leste europeu e no Kuwait, a hegemonia do imperialismo norte-americano não cessaria de buscar dividendos frente a nova situação.

Neste ponto, os falsos e invencíveis inimigos desempenharam um papel primordial. Ainda que o FBI admitiu que os ataques com antraz do ano de 2001 foram levados a cabo por um ou mais cientistas governamentais, uma diretiva do organismo constatou que foram instruídos pela Casa Branca, para culpar a Al Qaeda dos ataques biológicos. Os funcionários confirmaram que o governo estadunidense tratou de vincular o antraz ao Iraque como uma justificação para a derrocada do regime deste país.

Igualmente, os Estados Unidos culpou a nação árabe pelo suposto papel nos ataques do 11 de setembro e, de fato, altos funcionários agora confirmaram que a guerra do Iraque foi iniciada pelo petróleo, e não pelas supostas armas de destruição em massa ou os ataques às Torres Gêmeas. Não obstante, este fato serviu como uma desculpa para invadir o Afeganistão.

Em relação com estes ataques existem muitas divergências e incongruências a respeito da versão oficial das autoridades. As dúvidas estão particularmente referidas ao possível choque de um avião no Pentágono e a misteriosa que das Torres Gêmeas logo após o impacto dos aviões, fato que fez com que a dúvida caísse sobre engenheiros devido a integridade estrutural destas.

Este tema tem sido silenciado pelo governo estadunidense; porém, a versão oficial – tenha ou não razão os que afirmam a falsa bandeira – está sem muita credibilidade.

Nos anos recentes, outros acontecimentos confirmaram o uso sistemático destas operações na política governamental de vários países.

Mais recentemente, ocorreu o ataque ao semanal satírico francês Charlie Hebdo, que causou uma repulsa mundial, mas junto a isto, foi impulsada uma agenda antiterrorista (anti-islâmica) para, supostamente, frear o autodenominado “Estado Islâmico”, através da intervenção dos países da OTAN na Síria e no Iraque.

Por isso, na tentativa de compreender as causas de muitos eventos em todo o mundo, pense duas vezes, e não julgue o livro pela sua capa.

por Lázaro Hernández Rey, no Granma

NOVACULTURA.info

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