Sobre as correntes filosóficas dentro do Movimento Feminista

APRESENTAÇÃO

É um orgulho para o selo Edições Nova Cultura, trazer ao público brasileiro este trabalho, de uma importante figura revolucionária, ainda pouco conhecida para grande parte dos brasileiros com­prometidos com a emancipação da humanidade. Não apenas para que aqui no Brasil se conheça o nome de Anuradha Gandhi, assim como a sua contribuição para o debate sobre a emancipação da mulher.

Anuradha Gandhi, também conhecida por seus pseudônimos camarada Jaraky, Narmada, Vasha ou Raka, ou ainda seu apelido, Abu, foi uma incansável revolucionária, que dedicou sua vida à Revolução Naxalita para a libertação da Índia da opressão nacional e pelo socialismo. Vítima de malária falciparum, no 12 de abril de 2008, faleceu na cama do hospital em Mumbai; já estava muito debilitada por conta da dificuldade de se encontrar apoio médico quando se está na clandestinidade, e também por não se saber desde quando a doença se manifestava, acabou por sofrer de falência múltipla dos órgãos.

A história de Anuradha em sua luta pelos interesses do povo, percorre toda sua vida, mesmo precedendo seu envolvimento com os naxalitas. Filha de pai advogado progressista e mãe que até hoje milita pelos direitos das mulheres, ambos ligados ao Partido Comunista, seu irmão relata sobre a infância dela: “quando estava no colégio interno, ela escrevia-me sobre coisas como a nacionalização dos bancos. E tinha na época 12 anos de idade”. Seu histórico se desenhou desde sua inserção no movimento estudantil nos anos 70, já apoiando o movimento revolucionário de Naxalbari, na luta pelas liberdades civis em Bombaim, até a adesão à luta revolucionária, ajudando a fundar o PCI (ML) (Guerra Popular) em Maharashtra, para daí se tornar uma comprometida revolucionária até sua morte. Nesta época, efetuou uma drástica mudança de vida, largando uma vida privilegiada como acadêmica, para se mudar, junto de seu marido, para Nagpur, segunda cidade com mais favelas na região de Maharashtra, e também com um grande número de dalits, a fim de difundir o movimento revolucionário na região.

Lá, entrou em contato direto com os dalits e sua opressão de intocabilidade e discriminação de casta. Em Mumbai, entrou na efervescência da luta dos dalits contra esta ideologia feudal, até que formaram o Dalit Panther, inspirado pelo partido dos Panteras Negras nos Estados Unidos. O movimento chegou a entrar em confronto com os grupos e partidos de extrema direita hindus, como o Shiv Shena (temos o exemplo notável do conflito em Worli entre os dois grupos em 1974, da qual um dos líderes do Dalit Panther acabou morto). Uma das regiões de Nagpur que Anuradha trabalhou foi a favela de Mayanagar, cuja população era majoritariamente dalit foi alvo de inúmeros ataques chauvinistas dos grupos radicais de extrema-direita. Em resposta a isso, o Dalit Panther se organizou por ali também, com algumas lideranças destacadas oriundas das favelas. Nas ações de resistência contra as ações não apenas do Shiv Shena, mas demais grupos chauvinistas reacionários, Anuradha tomou parte, auxiliando fortemente o movimento Dalit Panther, ainda que à época, o PCI (ML) (GP) inicialmente tenha sido contrário.

Esta experiência vivida diretamente por Anuradha a levou a passar a aprofundar trabalho com a população dalit e sua organização e mobilização, teorizar sobre a questão de casta, colocando isto sob perspectiva revolucionária. Passou a estudar os mais diversos materiais sobre a questão, se aprofundando nos escritos de figuras como B.R. Ambedkar, reformador social, nascido na casta Dalit, e combateu a sua opressão. À medida que ia se envolvendo com os dalits e ajudando a organizá-los, dava passos importantes no entendimento da questão e como compreender a superação do problema. Assim, passava a desenvolver a questão das castas como parte do problema geral da Revolução Proletária, criticavam antigas abordagens equivocadas, e combinando sua experiência direta e luta junto aos dalits, com seus estudos teóricos, deu a ela uma noção profunda de como tratar o problema, a tornando pioneira em teorizar o horror da intocabilidade sob uma perspectiva marxista, se distanciando de determinada tradição mais próxima do “marxismo ocidental”, inclusive escrevendo o documento do PCI (ML) (GP) sobre a questão das castas. Atualmente, o PCI (Maoísta) também utiliza seus textos como referência.

No que tange a questão das minorias nacionais, o marxismo-leninismo sempre adotou das críticas que Lenin fazia às posturas chauvinistas de determinados “socialistas”, que defendiam o nacionalismo grão-russo, bem como apreensão das experiências históricas onde o problema das nacionalidades era bastante presente, caso da URSS e da China. Stalin também colocou a questão de forma sucinta, sobre a defesa dos direitos das minorias nacionais: “o que provoca descontentamento nessas minorias não é a inexistência de uma união nacional, mas a inexistência do direito de usar a língua materna. Permiti-lhes que se sirvam da sua língua materna, e o seu descontentamento perderá toda a base, que provoca descontentamento nessas minorias não é a inexistência de uma união artificial, mas a inexistência nelas de escolas na sua língua materna. Dai-lhes essas escolas, e o descontentamento perderá toda a base. (...) Dai-lhes tais liberdades, e deixarão de estar descontentes. Temos, pois, a i­gualdade de direitos sob todas as suas formas (idioma, escolas, etc.) como ponto indispensável para a solução do problema nacional. Uma lei geral do Estado, baseada na plena democratização do país e que proíba todos os privilégios nacionais, sem exceção, e todas as restrições e limitações de qualquer espécie, opostas aos direitos das minorias nacionais”.

No caso indiano, seria necessário maior esforço para chegar ao fundamental do problema da casta e o que fazer, dado a complexidade do problema, dentro de uma Índia com inúmeros aspectos feudais ainda remanescentes. Nesse sentido, Anuradha conseguiu dar um salto qualitativo para compreensão da questão de casta para o marxismo e ligou a e­mancipação Dalit com a libertação de toda a Índia.

Em meados dos anos 90, Anuradha foi para a clandestinidade definitivamente, adentrando às selvas de Bastar, com a direção naxalita. Em Bastar ela enfrentou a fome de 97, chegando a condições muito deterioradas.

A respeito deste trabalho que agora publicamos, a militância de Anuradha foi fundamental para a teorização de um feminismo de tipo proletário, a serviço da emancipação da mulher na Índia, dentro da Revolução Democrática de Novo Tipo, e desenvolveu este trabalho entre as mulheres das diversas regiões na qual trabalhava. Avaliou as diversas correntes que se desenvolveram no seio do movimento feminista, desde toda a história da luta das mulheres por seus direitos, se apropriando dialeticamente do que mais se produziu de avançado, bem como criticar tendências burguesas e peque­no-burguesas que se manifestavam, que convertiam-se em entraves para a emancipação da mulher que, na visão de Anuradha, deve estar ligada à construção de uma nova sociedade e, desta forma, desempenhou papel fundamental para moldar a forma que se enxerga a questão da mulher dentro do PCI (Maoísta) (da qual no IX Congresso, em 2007, foi eleita a única mulher do Comitê Central), oferecendo uma enorme contribuição para as grandes massas de mulheres que vivem em uma sociedade profundamente patriarcal.

Anuradha foi uma comunista exemplar, que usava de seu tempo quando não estava na guerrilha para escrever algo ligado ao movimento revolucionário. Seus escritos teóricos devem ser compreendidos como não meramente de uma teórica, mas escritos oriundos da combinação da teoria com a ação prática revolucionária, de uma verdadeira intelectual orgânica. Seus esforços feitos para compreender a questão das castas e da mulher, que não são separados de sua luta junto da população Dalit e das mulheres, ajudando a mobilizá-las. A publicação de seu trabalho teórico sobre as diferentes correntes do feminismo, é importante não apenas pela divulgação do nome desta revolucionária, de uma revolução ainda pouco conhecida aqui no Brasil, a Revolução Naxalita, bem como pela contribuição para um aprofundamento do debate sobre a necessária libertação da mulher no Brasil.

Samora Machel indicava o caminho, e aí se debruçou Anuradha e devemos nos debruçar aqui: “a emancipação da mulher não é um ato de caridade, não resulta de uma posição humanitária ou de compaixão. A libertação da mulher é uma necessidade fundamental da Revolução, uma garantia da sua continuidade, uma condição do seu triunfo. A Revolução tem por objetivo essencial a destruição do sistema de exploração, a construção duma nova sociedade libertadora das potencialidades do ser humano e que o reconcilia com o trabalho, com a natureza. É dentro deste contexto que surge a questão da emancipação da mulher. (...) Como fazer triunfar a Revolução sem libertar a mulher? Será possível liquidar-se o sistema de exploração, mantendo uma parte da sociedade explorada? Não se pode liquidar só uma parte da exploração e da opressão, não se pode arrancar metade das raízes da erva ruim sem que esta renasça mais forte ainda a partir da outra metade que sobreviveu. Como fazer então a Revolução sem mobilizar a mulher? Se mais de metade do povo explorado e oprimido é constituído por mulheres, como deixá-las à margem da luta? A Revolução para ser feita necessita de mobilizar todos os explorados e oprimidos, por consequência as mulheres também. A Revolução para triunfar tem que liquidar a totalidade do sistema de exploração e opressão, libertar todos os explorados e oprimidos, por isso tem que liquidar a exploração e opressão da mulher, é obrigada a libertar a mulher”.

Com este volume, com o artigo publicado no People's March em março de 2006, cremos poder contribuir para o fundamental debate atual sobre o feminismo. Em um momento histórico em nosso país onde a luta das mulheres contra a violência sexual, por condições equitativas de trabalho, entre outras questões, se amplia cada vez mais, é fundamental que ao lado da prática das lutas cotidianas se desenvolva um grande esforço teórico para dar conta desta experiência, para traçar uma estratégia revolucionária que possibilite concretamente a conquista da emancipação da mulher, diretamente ligada à Revolução Democrática de novo tipo, ininterrupta ao socialismo. É preciso que sigamos o exemplo de Anuradha, que ao fazer a análise crítica dos fundamentos das teorias e­xistentes dentro do feminismo, pode desenvolver concretamente uma concepção materialista histórica sobre a questão da mulher, se apropriando dialeticamente do acúmulo teórico do movimento feminista e forjando um feminismo proletário que, ao dar conta da análise da luta feminina dentro da totalidade do processo de desenvolvimento da sociedade atual, pode fazer avançar decididamente a luta revolucionária por uma nova sociedade, sob novas bases, onde o patriarcado possa enfim ser destruído e as mulheres possam desenvolver-se plenamente e construir, ao lado dos homens, o socialismo.

UNIÃO RECONSTRUÇÃO COMUNISTA

LUTA DE SOBRE AS CORRENTES FILOSÓFICAS DENTRO DO MOVIMENTO FEMINISTA
Obra da revolucionária indiana Anuradha Gandhi, destacada dirigente do Partido Comunista da Índia (Maoísta) que apresenta uma análise sob a perspectiva marxista-leninista do desenvolvimento do movimento feminista e as concepções que floresceram em seu interior. Tendo como ponto de partida o movimento de mulheres que se desenvolveu na Índia, Anuradha apresenta as visões gerais do feminismo e suas vertentes liberal, radical, anarquista, ecologista e socialista e faz a crítica dialética a estas. Uma contribuição importante para o debate teórico do feminismo, para fundamentar e guiar a justa luta das mulheres contra o patriarcado em sua íntima relação com o capital e todas as mazelas que decorrem disto.

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